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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Sonho.

Na realidade paralela, no outro lado escondido do espelho fumado em certeiras desilusões
E em tiros no escuro como breu e carvão e apagões de memórias invertidas, na vaga esperança

De que o filme seja sempre em cores garridas, olhando para ele como caleidoscópio da vida.

É lá que encontramos o bolor da nossa existência, cheiro fétido a existências inconsequentes.

Fecha, abre, semicerra, à velocidade luz, som. Mundo epilético sem drageia mágica que nos Anestesia do sofrimento que nos faz dar mais um passo na direção daquilo que nos impõem.

Sou cada vez mais robótico, hipnótico,claustrofóbico. Sobrevivo pendurado de um precipício

Tão real quanto a canonização de falsos ídolos, falsos amigos do enleio, falsos pontos na Cosedura do tricot que agasalha e prende e asfixia, até o respirar não ser mais desejado.

Libertação de endorfinas, na ebulição da vida vivida com olhos fechados, mas com a mente

Escancarada para todas as possibilidades: desejado, temido, repudiado, amado.

Porque se prefere sempre a mentira inconsciente de cara tapada com os lençóis.

Porque se abomina a repetição que cada dia, cada noite, cada dia, cada noite,

Cada ramificação encontrada leva a outra, sem nunca encontrar o tronco que nos ampara e Nos faz acreditar que ser isto, sangue, carne e ideias, é o desígnio definitivo.

Jamais seremos reais aos nossos olhos. Jamais o sonho precisou de acontecer.

Meticuloso amor.

O retorno daquele céu magenta, lento, pairando sobre a letargia, como se uma fotografia
Fosse tirada de cada vez que inspiramos pó de estrelas nebuloso.

Voltamos ao rendilhar de vidas opostas, ao esconde-esconde meticuloso.

Sustém-se a respiração. Será amar apenas invertida pornografia?

 

O epílogo dói, quem nem chibata carregada de aliança breve e antiga.

E anseia-se pelo pecado. Sofre-se de antecipação pavloviana: língua, friozinho na barriga.

O acordar de desafio encatatório, e o desejar adormecer ao lado da luxúria

Esquecer os compromissos de vida e defender o apanágio da incúria.

 

Borboleta, casulo. A fecundação em rede de algo tão desmoronado, nado-morto.

Escolhemos acreditar na representação: teatro pregado, banco duro, sem conforto.

Mas que opção escolher? Quando em sofrimento, escolher sempre o que mais dor causa;

O cérebro encolhe-se, o coração enruga-se, ficam duas vidas em modo pausa.

 

Resuma-se a existência deste par não bafejado pela cor que os poderia unir

Azul, rios de linhagens sujas e corridas por cordilheiras de oportunidades perdidas

Solução como contrapartida: servirá o sangramento do vermelho das rotas carótidas?

Não há pigmentação que outrora o amor de duas entidades pudesse unir.

Viagem.

É importante sonhar cansado. É hoje que dou
um fim digno ao sonho recorrente. Recordo então:

Pouca manteiga na torrada. Camisa engomada.
Drakkar Noir pestilento. Sovacos e barba aprumada.
Viagem de carro curta, monótona. Nas ondas hertzianas

Um qualquer som sertanejo. Mochila no colo,

 Motivo desenho animado, anos oitenta. Vidro aberto,

Vento que persiste, apesar de ser agosto profundo.

Ziguezagueando por entre montes raiados de asfalto.

Travão. Sorriso por trás de dentes amarelados
de Kentuckys. Terceira mudança aos solavancos.

Baixo a cabeça para procurar o meu jogo de damas
Magnético, fiel companheiro de horas só nossas.
E depois... Não te encontro. Estou só. Eu e a minha
Mochila cheia de esperanças e sandes de mortadela.
Acordo. Hoje vou ter que chegar mais cansado.

Pode ser que te veja desta vez.

Ou pode ser que nunca mais acorde.

Danças.

O coração palpita com demasiada força, sinto-me desfalecer de ansiedade e alegria!

“Dança comigo. Sem merdas. Dança só comigo. Aperta-me, mas não me apertes. Sente-me mas não me perguntes por sentimentos. Quero só dançar… sem segundas intenções. Sabes bem que a nossa amizade não vai permitir mais, não sabes?”.

Anuo. A custo. Em duas ou três frases, esta mulher tem o poder de me levar ao céu, fazendo-me levitar até à presença de um ou dois satélites russos, para depois me rasgar as asas de alto a baixo, deixando-me cair na maior escuridão de todas. Somos só amigos. Soube-me bem e não soube. Hoje vou dançar com ela, não lhe resisto nem lhe nego qualquer pedido. É sobreviver para lutar por nós outro dia. Solto uma lágrima no meio da pista. Sei que ela sabe disso, mas nunca se pronunciará. Não há nada a fazer. Com a celeridade que apareceu... Se esfumou. Não esperava eternidade, nem sequer momentos marcantes que bailariam no salão da minha memória. Vai-se manter aquela imagem difusa, inebriada. Aquela que sabes que aconteceu porque nos negamos a pensar que poderia não ter acontecido. Que ambicionaste, mas nunca o admitiste, creio eu, esperançoso. Que mantiveste aprisionado no teu pensamento, mas ao qual sempre te recusaste dar asas, e deixá-lo planar ao sabor da brisa do teu contentamento.
Acabou. Deverei guardar os bons momentos que imaginei mas não vivi? Deverei entristecer sobre o mal que não me fizeste? Saberei viver contigo depois da não-vida que partilhámos?

Então vamos. Ficas? Não? Sim, andando, correndo, flutuando. Como quiseres. O que interessa é o movimento, antagonista do estático que promove as barreiras que criamos a nós próprios. Se vamos devagar, depressa? Não sei, se calhar tentando manter um ritmo estável, compassado, que nos permita apreciar a viagem, sem perdermos a noção do que deixamos para trás, augurando o que nos espera com expectativas de quem sonha e espera mais e melhor. Obstáculos. Sim, certamente surgirão. Mas afinal, não há quem goste dum percurso tipo autoestrada, sempre a direito, sem desvios amorosos acidentados, curvas de coração apertado ou portagens em que nos obrigam a dar um pouco de nós. Mas tu não vens, pois não?

Puzzle.

Não é verdade que penses que somos aquilo que os outros julgam. Recuso-me a acreditar que és assim tão desprovida de sentido, que seja tão fácil enganar-te, ou até que te forces a acreditar nesta perfeita relação com tanta força que esperas que se torne verdade só por isso. Não pode ser verdade. Impossível. Nunca foste assim tão ingénua, tão crédula duma realidade que só existe para ti. O que te mudou? Que efeméride pessoal te fez mais vulnerável à fé no bom que dizem todos nós termos dentro de nós? Resolução de ano novo? Arrependimento de passados fugazes e mal aproveitados? Ou simplesmente… Gostas de mim? Não é verdade. E eu, o que faço, sabendo deste teu novo renascimento? Devo aceitar-te inconsequentemente, olvidando que já não somos o puzzle que se completa de forma automática e sincronizada, de tantas vezes o fazermos e refazermos, só pelo gozo de repetir afetos e emoções? Pois bem, não é verdade que assim seja agora. As nossas peças estão deterioradas, com os cantos sumidos de tantas discussões, e com os encaixes desgastados de vida em comum que não é já uma certeza. E o que se segue? Qual o rumo traçado para nós, para mim sem ti e para ti sem nós? Apesar de tudo, é isso que me preocupa: como subsistirás tu sem o que sempre disseste que “te alimentava mais do que água e comida, suplemento alimentar de alma enfraquecida”?

E por que me preocupo eu contigo… Não sei. O que sei é que este filme não volta atrás, e não há qualquer possibilidade de o seu fim ser acompanhado por uma música romântico-lamechas, em que tudo acaba bem, com discursos apaixonados e um beijo lânguido, enquanto a câmara nos rotunda em “slow motion”. Desejo-te sorte, saúde e vida condigna com alguém que consiga confiar em alguma pessoa que nunca deu provas de querer mudar, evoluir para ser o melhor de si para outro. E nada nos resta, a não ser dizer que sempre nos teremos um ao outro, mesmo quando o um e o outro já não somos nós.

370

Tira os fones dos ouvidos encerados, pois o banho foi há três dias e não se prevê que seja em breve que se livre daquele pestilento cheiro de suor e culpa. Um minuto. Sessenta segundos parecem ter sido decisivos para que a sua vida mude de uma vez por todas. Pensa se este foi mais um caso de procrastinação pura, ou se se forçou mentalmente a falhar aquele prazo apresentado em forma de ultimato inalterável. Que se lixe. Vê o avião levantar, transportando nas suas asas um pretérito imperfeito de três anos de amor, sexo, “noodles” e violência. Ouve os motores rugirem enquanto aquele monstro mecânico ganha altitude, e recorda já num misto de saudosismo instantâneo pequenos excertos de fitas de pensamento: o acordar em uníssono com o som das betoneiras, banda sonora do progresso de Kuala Lumpur; o “smog” pestilento que os unia e separava em breves momentos; as ruas, cheias de vida, os cheiros e sons de uma metrópole que tudo tinha a oferecer a um jovem casal estrangeiro, estudantes durante o dia, exploradores das suas sensações e corpos peganhentos durante as noites longas de infinito prazer.

O transporte da sua vida em comum torna-se pequeno, cada vez mais alto, cada vez mais distante. Observa-o. Um ínfimo pormenor, paralelismo perfeito do que tudo significou para si.

Olha para o bilhete agora inútil, sem qualquer efeito. Hum, voo 370. Curioso, era também o número de porta do buraco que partilharam durante a sua estadia naquele país. Sentimento agridoce, tempero de eleição por aquelas bandas, aquele que percorre agora o seu pensamento. Segue o seu caminho a pé até casa que era só sua por agora. Precisa do seu luto. Tem que enterrá-lo, tem que tirar aquela ucraniana nacionalista da sua cabeça. Liga a televisão, como sempre faziam quando chegavam, instrumento que lhes conferia companhia. Falam de uma aeronave desaparecida. Com se perde algo tão grande? Se fosse tão fácil erradicar assim algo que consome tanto dela? Como? Voo 370? Prostra-se no sofá, de ânimo desfeito. E por lá permanece, ainda hoje.

O contrato.

Impossível de retroceder agora. Foi esta a última vez que assinou algo com tinta indelével azul o nome que os seus pais, agressores e abusadores de menores, lhe deram.

Era agora não uma pessoa, mas sim um número, um objeto somente identificável através de um código de barras, perdido numa estatística, errante indeterminado num qualquer gráfico de barras apresentado por um ministro. Não lhe foi dada uma cópia do acordo.

 O laranja intenso do seu novo fato de gala contrastava com o vislumbre carregado que ostentava uma face carregada de sofrimentos a meia-luz. Foi encaminhado para uma nova moradia, através de passos compassados ao som dos grilhões sociais que sempre o estigmatizaram e o tornaram refém de si mesmo.

Lá chegado, refletiu sobre o sol que lhe entrava pelo exíguo espaço em formas geométricas singulares. Ouviu o chilrear de uma ave, inocente e pueril, abafado pelo tumulto daquela gaiola para homens. Lembrou-se das consequências de tal pacto para as suas crias, que se viram assim desprovidas de um ninho onde poderiam crescer seguras e nutridas, até terem idade para voarem por si próprios. Que lhes aconteceria? Que seria feito daquele sorriso em uníssono que os três partilhavam num fim de tarde solarengo, laranjada repartida em partes iguais: uma para ela, outra para ele.

 Restava o copo vazio e o sorriso de contentamento para ele, o progenitor. E nada mais precisava. O dia terminava, o sol escondia-se, como que receando o que aí vinha. E com o seu eclipse, as urges, a colher, o limão, o saco de pó de estrelas, o cachimbo. A verdadeira razão do contrato. Do maldito contrato com o diabo, do maldito contrato com ele próprio.

 Olha-se na placa de alumínio prostrada numa parede, perto do beliche, que seria a sua acolheita durante os próximos anos. Não se reconhecia. A sua figura retorcida, projetada numa lâmpada intermitente era metáfora mais que adequada da vida. Feliz a espaços, miserável noutros, para sempre enclausurado.

A Porta.

Um homem abre uma porta.

Ao fundo ouve-se o som abafado de constelações em movimento constante, supernovas explodindo de desejo interestelar.

Uma mulher abre uma porta.

Vivencia a reminiscência de gaiata pequena, na partilha de um gelado e amor com seu pai e mãe, num momento de cumplicidade cinematográfico.

Um homem fecha uma porta.

Deixa para trás um punhado de conquistas amorosas, que agora parecem de pouca importância, na presença de um amor eterno perdido para o tumor cerebral que a levou para trás de outra porta.

Um casal fecha uma porta.

A impossibilidade financeira acarreta uma decisão difícil mas necessária: o subproduto de seu amor terá que ser adiado, mais uma vez. Casa, contas, impostos imperam sobre a fertilização in vitro.

Uma adolescente abre uma porta.

Compreende agora, depois de experimentar gostar de alguém, que não pode viver amarrada ao estereótipo de “maria rapaz”. Rapa o cabelo, limpando-se de géneros e limitações sociais. Escancara a porta à sua libertação assexuada.

Um sonhador deixa uma porta entreaberta.

O acreditar não abandona: sente que será desta que vai conseguir sair do interior, e procurar nova vida, existência entusiasmante e repleta de tudo aquilo que sempre se achou merecedor, ainda estagnada por um pai castrador.

Um tarado espreita pelo buraco da fechadura duma porta.

Que fascínio o seu. Espiar a vizinha de 36 anos, divorciada, duas filhas, enquanto veste a sua cinta adelgaçante que intensifica a sua dificuldade em respirar, mas que lhe permite, apesar da sua idade “avançada”, ser ainda modelo de catálogo de revista. Tesão. Masturbação. Vergonha.

Um homem fecha uma porta com violência.

Sai, atarantado, completamente inconsciente do que acabou de fazer. Jazem dois corpos no chão: sua esposa, e o seu companheiro de cubículo empresarial. Pouca roupa os cobre, manchados de escarlate, lívidos.

Em cada multiverso, portas para descobrir, respeitar, deitar abaixo. Em cada porta um desejo, uma afirmação, um temor.

Aníbal.

Aníbal acordou, muito bem-disposto, patrão de si mesmo, idade é um posto. Velho barrigudo, sem escrúpulos morais, cometeu toda a vida os pecados capitais. “Subida a pulso!”, dizia lampeiro, “Sem tirar nenhum curso!”, o meu patrão punheteiro.

Mas hoje é o meu dia, pensei sem dormir, de anos de abusos me vou redimir. As horas de trabalho, a família esquecida, aquele sacana deu-me cabo da vida. Nunca um obrigado, nem um bónus salarial, ainda me apelidou com simpatia de… marsupial. Aí ele ria com seus amarelos dentes, olhando para a prostituta contratada em troca de presentes. Levava-a para o escritório, sem qualquer pudor, pois a esposa que ele tem em casa já não lhe dá valor.

Bati à porta, pedi para entrar. Pistola no bolso, vou-me vingar. Apontei-lhe a arma, sempre a tremer. Com um ar de gozo, pergunta-me “O que estás tu a fazer?”. Sem vacilar, num acesso de fúria, pancada com a coronha, deixo-lhe a boca numa penúria! “Mas o que estás a fazer? Estás louco, estás despedido! Dou-te cabo da vida, tu estás bem fodido!” – balbuciou entre gengivas, que os dentes já eram, completamente à deriva, nem os meus medos me detiveram. Descarga de adrenalina, revólver apontado à nuca, poça de urina, “Uau, o gajo usa peruca!”. Pedi-lhe gentilmente, chamando-o à razão, que escrevesse numa folha os códigos das contas das Ilhas Caimão. Mas também que se desculpasse por todas as ofensas, a toda a gente que espezinhou ia dar recompensas… Toda a sua fortuna dividida em partes iguais, servindo de indemnização aos “feios, porcos e homossexuais”. A todos aqueles que lesou durante a vida, ficarão contentes com a justiça devida. Perdido em choros e em súplicas humilhantes, perguntava “Porque é que não pode ser tudo como dantes? Prometo mudar, ser melhor patrão! Mas… O que me vais fazer, tu não tens coração!?”

Então vacilei, pensei na consequência. Vou terminar com esta loucura, apostar na benevolência. Pedindo desculpas, agitando a arma, vai o anafado recuando sem ter a devida calma. Peço-lhe que reconsidere, que não apresente queixa, mas ele não ouve, a sua mente não deixa. Avanço para ele, tropeça na cadeira. A janela está aberta, voa-lhe a cabeleira! Última recordação do chefe: a cair do 13º andar, de olhos fechados. Em paz consigo mesmo, em guerra com os seus pecados.

Ela.

Ela adora maquilhar-se e eu adoro ver. Há algo de mágico, transcendental até, naquele ato de transformação secular. O passar do blush que a nutre de uma cor viva e resplandecente, tal qual guerreira amazona. O rímel, transformando o seu olhar vivo em dois holofotes de sensualidade. O batom que define de vermelho escarlate a fronteira entre o apetecível e desejado e o proibido.

Segue-se o cabelo. O ato de tentar domar esses caracóis que se negam intransigentemente a serem submetidos a uma ditadura pós-bandolete, revolucionando o teu estilo ordeiro e “clean”. Alguma laca, demasiado tempo no espelho. Subjuga-se o cabelo, à força. Mas somente por agora.

O vestido. De corte fino e ligeiramente mais primaveril do que o tempo lá fora apregoa, um pouco por cima do joelho. Discreto, como tu, mas ainda assim deixando que se torne mais curto, invisível para aqueles que têm o prazer de te vislumbrar na saída do metro, no café com as amigas, na fila do supermercado.

Sapato, seis centímetros separam o teu calcanhar do chão firme, num constante equilíbrio que disfarças tão bem e vertes de forma tão natural. Negros, com fivela dourada, pequeno apontamento que remata com pulseira no pulso esquerdo (lado do coração) e colar aparentemente desgrenhado mas ostensivo, da mesma cor.

E lá vais tu. Mala pequena mas onde cabe numa sua bolsa todo o teu mundo. Fico na cama observando-te enquanto sais. Espero que te vires, num cumprimento qualquer de despedida. Não te viras. Não estaremos mais juntos. Até nunca, menina de rua.

 

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