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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Tens noção?

Tens noção da responsabilidade?

Sabes que não reajo bem a pressões. Não lido bem com isso. Taquicardias assolam-me. Pelo menos penso que são taquicardias. Quando o coração chora, lateja. É isso, não é? Inspiração e expiração atropelam-se, querendo ultrapassar a sua ordem natural, fazendo com que já não saiba se entra o oxigénio e se sai medo em forma vaporizada. Imagens processadas mentalmente surgem em catadupa, traçando sempre cenários catastróficos, cada um pior que o outro. Parece uma colagem de mil filmes de terror, onde sou sempre aquela primeira personagem a morrer de forma inquieta, usando um eufemismo.

Pernas que tremem. Mesmo a tremer, parecendo ter sido atingidas por rajadas de duzentos quilómetros por suspiro. Não tremem como varas verdes, mas sim como pequenas folhas de outono, quase despegadas da sua árvore, que lhes transmitia segurança, para, num momento qualquer, inesperado, se desconetarem da mesma, emergindo só num sentimento de independência e de saudade da segurança transmitida.

Boca seca. Ao ponto de não permitir engolir anos de frustração e de desejo não correspondido. Sem qualquer humidade, relembrando o deserto árido da vida que se passa sem ter com quem a partilhar. Transpiração profusa, pois momentos destes são decisivos. Representam mudanças. Possíveis mudanças... Talvez nada mude...

Respiro fundo, tentando acalmar tanto corpo como alma. Aproximo-me. Aproximas-te. Fecho os olhos. Talvez tenhas fechado os teus. E um toque dos teus lábios é cura de todas as maleitas para este hipocondríaco apaixonado por ti.

Não!

Havia um rapaz, bem educado. De tudo sabia, parecia ensinado. Falava francês com fluência divina, dizia a todos que era língua fina. Sorriso rasgado, de tudo e de nada, parecia perfeito aos olhos de qualquer cunhada. Uma simpatia, um verdadeiro senhor, dizia a mãe com orgulho que ia ser doutor. 

Mas eu sou assim, muito desconfiada, não posso mais, fico enfadada. E fala e fala, não para de falar, com cara de parvo com vontade de cagar. De face sem barba, cabelo louro ariano, parece que anda agora a aprender piano... Haja paciência para tanta perfeição. Mas o rapaz tem defeitos, não?

Falo com outros, para corroborar o que penso. Dizem-me que tem olhar intenso. Não concordo, acho até que lhe fica bem, esta gente gosta de inventar também...

Há quem diga que tem as pernas tortas; dá vontade de lhe perguntar "porque não mas mostras?" Fico empolgada com esta situação, bem me dizem para não menosprezar o poder da imaginação...

Com mais gente falo, mais defeitos apontam; para inventar, comigo não contam. 

Começo a desesperar pois, denoto um padrão. Isto não pode ser verdade, por favor, não! Transpiro agora, gotas sem fim, será este gajo... que eu quero para mim? 

(Contra)(Bando).

Faço contrabando. Percorro encostas de sentimentos alvoraçados. Desço e subo montes e vales. Tropeço e caio; levanto-me e prossigo, com os olhos no céu, nas nuvens envoltas em cinzento metálico e num astro reluzente ofuscado. A chuva impele-me a desistir, a deitar por terra todos os meus pertences, toda a minha carga emocional, tudo aquilo que faz de mim quem sou.

 Rendo-me às evidências: cheguei a um ponto que não consigo subir mais. E que a tentação da descida, junto ao leito do rio que me viu crescer, me alimentou e me lavou, se torna quase impossível de resistir. Apetece apenas cair, rebolar, cair gentilmente sobre os nenúfares que se mantêm estóicos, sempre à tona, como de se orgulho se tratasse essa posição sobreaquática. Tudo o que fui está lá em baixo, a um pequeno gesto. Baixar a cabeça, fechar os olhos e cair... Cair no fundo.

Seria mais fácil. Mas não. De repente, um laivo de consciência sobrepõe-se a tudo. É imperativo que suba. Apesar de ser contrabando, não ando em bando. Sempre sozinho. Vida difícil, dura, sem espaço para mais ninguém. Do contra? Sempre fui, sempre serei. O caminho mais glorioso alcança-se pensando e agindo cada um por si, não seguindo os trilhos calcorreados pelos outros até à exaustão. Volto a subir, encorajado pelo sorriso que sinto na minha face. Eu sei que está lá. Tropeço na pedra solta que rola em direção ao infinito, seguro-me num tufo de ervas silvestres, de raízes fortes, criadas num meio hostil.

Respiro fundo, alcançando o topo da cadeia montanhosa. Olho para baixo, para cima... momento de pura contemplação. Vento fresco, panorama verde, quadro perfeito de vida dura.

 

#Livre.

Tomo o comprimido que me salva do inesperado. Pílula preta, com letras indecifráveis, marcam o princípio e o fim de um novo eu, e de um velho amigo. Dois golos de água. Custa a passar pela garganta. Quem diria que algo tão pequeno pudesse deixar tantas marcas, visíveis para todos e escondidas de mim? É imediato o efeito: sigo os parâmetros, atino com a minha vocação de normalidade. Sou como os outros, aceite... Mas aceite por quem, se caminho sozinho? Pareço igual, mas não me sinto fotocópia de toner desgastado pelo arrastar da repetição.

Tomo novo comprimido. Vejo menos cores, imediatamente. Vejo as cores que me dizem ser as certas, que devo comprar, adquirir, com desconto, em promoção. Anuo, a custo. Sorriso amarelo na face. "É para o teu bem" - repito em "loop". A mentira se for dita muitas vezes passa a ser a verdade. Ou será o contrário? Hum... Tomo outro comprimido.

Novo dia, comprimido na mão. Interrogo mentalmente a finalidade real deste fármaco aceite por todos, ópio do povo. Olho para ele, focando toda a minha atenção naquilo que sempre me educou, me acompanhou nas manhãs e tardes de fim de semana. Só tenho olhos para isto. Um raio de sol irrompe neste momento de cumplicidade. Retiro o foco de interesse exclusivo, e entro em êxtase, contemplando o magnífico quadro vivo que é estar presente, aqui, ali, em todo o lado. Estar mesmo, não ser obrigado a vivenciá-lo ao longe, ou pelos olhos de outrém.

Pedi-lhe desculpa. Pousei a pílula. Desliguei-a. Power Off. Update Status: Fui viver. #livre. 

Telhados sem telhas.

Para todos aqueles que têm uma mínima capacidade de entender o que vos digo: parem. Sejam o que for que estejam a fazer, interrompam. Independentemente da gravidade, urgência, desejo... É favor sossegar, tomar atenção e meter todo o foco nas palavras que saem a custo das minhas cordas vocais. Preparados? Aqui vai:

 

Tornámo-nos naquilo que mais criticámos. O povo de aventureiros, fórmula século XX, em busca de mais e melhor para os seus, sem medo do que o que poderiam encontrar, pois somente interessava a luta brava e incessante pelo melhor, pelo mais que iriam encontrar, fé numa crença pessoal de estátuas de altar.

Do outro lado? Povos desconfiados, frios até. Mas tal como criaturas racionais que são, sabendo dar o benefício da dúvida, deixando-se conquistar por aqueles que o merecem; virtuosos de trabalho com afinco e de coração cheio de calor maternal e da amizade mais pura.

 As relações dos nossos com os outros sempre foi uma questão do “quando”, invés ao “se”. Nesta relação simbiótica de nós com os outros, que já dura há mais de 500 anos, a palavra chave sempre foi tolerância. Sempre se depararam com contratos morais, sem assinaturas e costumes legais: um olhar sério, um aperto de mão e/ou um beijo selavam e selam relações para vidas inteiras.

Pergunto:

De onde vem esta desconfiança, quando trocamos os pesos das balanças? Qual é o mal de receber bem, providenciando o que pudermos? Seremos assim tão despojados de almas com justeza? Será que não sabemos dar aquilo que recebemos? Tornámo-nos mesquinhos? Sofreremos de memória seletiva?

 

Fica o aviso: ao fazermos o que eles fazem, tornamo-nos neles.

 

Música.

Musicas os andamentos desorquestrados

Que tento ordenar com a minha batuta mental.

Pequenos silvados que chamam a atenção para coisa nenhuma,

Acontecimentos estridentes que põem meu fraco coração

Dependente dum rufo final de vinte tambores enamorados.

Baralha o desassossego ordenado de um arco,

Som sofrido do violino desafinado de falta de amor…

Erotismo saxofónico deleita os imprudentes e incautos;

O que não se espera, espalha-se em nós sem DÓ.

A guitarra em volta da fogueira a céu aberto

As notas soltas, perdidas num momento de amor cacofónico.

E enfim, resume-se a música a uma soma das partes

Incompletas do nosso coração, sempre sem maestro

Que comande, sem ritmo que alegre e sem compasso

Que ordene viver.

Cor.

Fotografo de magenta o sentir da beleza enrodilhada num corpo indefinido.
Açambarco o acumular de palpitações retratadas num desejo puro.
Devolvo o sonho à providência; existência secular, tradição nefasta.
Regurgito emoções à velocidade a que o crisântemo desperta no sol, ávido de banalidades.
Espírito-guia, que escurece o caminho do entendimento e ilumina em tons laranja o descarrilamento do oposto.
Brado aos céus, cometas, átomos; brado pela indefinição, pela incerteza, pelo caos, pela anarquia, tudo encoberto com um submanto de contrariedades disfarçadas de azuis sentidos e de verdes escorraçados.

Límbico.

Programa o sentimento, instala o tremor da espera eterna

E reinicia o sistema: Control, Alt e Deleita-te em diversão pós-coital.

Repartindo uma alma espojada em pedras e contracetivos usados.

Molhada de fios de suores gelados, no sopé da nossa vergonha pós-coital.

Arrependimentos. O lobo límbico retrai-se. Como se tudo pudesse ser mais

Do que jogos de futebol, anos oitenta, carne assada da véspera e traição.

“É de carne que se faz o poema!” Cantavam, em uníssono, alta voz,

Melodicamente, no ritmo compassado do sexo de ocasião:

Máquina de lavar roupa a três mil rotações por amor.

Ciber.

Sabe-se da vida o que a vida não dá.Não dá, morreu, ficou escuro como breu.

Sem surpresa, resignado,  conformado, vertigens, mundano enjoado.

Passa pelo seu mundo, procurando analogia. Para cima e para baixo, refresh na cronologia.

Ritual repetido vezes sem fim, na esperança infinita que o procurem assim.

Ele e o monitor procurando monitor e ela; deseja a sua cibernética Cinderela.

Sabe que os sentimentos são todos virtuais, sabe do mundo agora somente pelos e-jornais.

Da vida e do dia, pouco se sabe, vive de noite à procura do amor em forma de ciber ataque.

As linhas misturam-se de forma difusa. Real, irreal, mente suja e confusa.

Por fim uma resposta, mensagem privada, rapariga roliça, material para namorada?

Masturbação constante, sonhos partilhados, encontros em pessoa ficaram combinados.

Nunca se encontraram, pretextos inventados, coragem e vergonha, gatos escaldados...

Nunca se perdoaram, o contacto sumiu, a gatinha brasileira nunca mais a viu.

Nunca se perdoou pela oportunidade perdida. Estava ele destinado a tão triste vida?

Desligou-se dos mundos, fechou-se para sempre. A vida não dá, tornou-se indiferente.

Tornou-se tão real a dor, pôs um ponto ao seu fim com o rato do computador.