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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Click.

Camara lenta. 1000 fotogramas de alegria condensada por segundo. Alta indefinição, ultrapassada pela resolução incomensurável da imaginação. A antecipação, a procura incessante pelo momento, pela precisão exigida para a captura do momento singular que marcará para sempre os nossos corações.

Click. Alma enclausurada em ficheiro jpeg. Sem filtros, a imagem nua, captada na sua singularidade, naquele momento irrepetível, único e ao mesmo tempo igual a tantos outros.

Onde estás no enquadramento? Onde te pões, para que todos te possam ver? Chega-te à frente, impõe-te, sorri, abre os braços, como se abrisses as asas de sonhador equipado com drone, sobrevoando momentos presentes e passados, policromáticos de aventuras e carregados de nostalgia sépia.

Gasta o rolo, sem critério. Sê inconsequente com a tua objetiva. E revela sempre todo o teu conteúdo, pois no meio de tantos disparos e flashes, quem sabe se não descobres a tua silhueta metade?

Avó.

Ironias da vida. Deixaste-nos no proclamado dia do professor. E serás sempre a pessoa que mais em ensinou na vida: sobre a complacência que devemos a todos, sobre o respeito que soubeste nutrir em mim e o conselho por ter sido sempre diferente. Por me amares, a mim e aos meus irmãos, filhos de outra barriga, financiando sempre os nossos disparates, para com eles interiorizarmos a mensagem imbuída no erro. 

Sinto por vezes, devido à minha forma de ser mais recatada, que, um dia, quando for para junto de ti, não haverá nada que por cá deixe; qualquer espécie de legado que me represente, sem ter deixado páginas rabiscadas nos livros de vida daqueles que por cá convivo. Amedrontava-me muito isto, esta sensação de vazio, de menino invisível. Mudaste isso. Explicaste-me, na sapiência de primaveras e outonos conjugados, que não precisaria de deixar cá nada. Quem me acharia digno de recordar, nunca me esqueceria. Foi isto que aprendi contigo, nas nossas conversas de braseira de picão e de Fernando Mendes na televisão. 

Idolatro-te. Eu e os meus manos. Corro o risco de dizer que te respeitávamos mais que aos nossos próprios pais. Não por incompatibilidades ou birras de adolescentes de hormonas efervescentes, mas porque a voz serena, a forma tosca e rústica de enfrentar argumentos e o conselho cheio de amor e reprimendas beijadas, eram impossíveis de rebater. Negar algo contigo era apenas o primeiro passo para a aceitação. 

Não me despedi de ti. Não o consegui fazer. Já não eras tu. Fica a certeza de que não te vou desiludir. Não quero, recuso-me, não o mereces. Vejo-te quando te vir, dona Carlota.