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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Mundo ao contrário.

Escondemo-nos. Vivemos nas sombras que criamos uns aos outros. Isolamo-nos no conforto material das nossas casas, das nossas posses materiais. Vivemos uma vida ao contrário. O céu é a terra, o mar é o deserto, e os afetos são máscaras. 

Deitamo-nos e esperamos. Esperamos pela vida, sonhando que ela passe por nós. Que a consigamos viver como se estivéssemos a assistir a um eterno jogo de ténis. Bola para lá, bola para cá, com efeito anestésico. Hipnotizados. Catatónicos.

Sem risco. Presos a uma segurança que não nos protege de coisa alguma. Marionetas de um sistema que nos controla, que nos faz sentir emoções automatizadas. Temos que ser e sentir quando nos dizem para o fazer. 

Se isto é o que me espera até ao fim dos meus dias... Prefiro ir procurar outra existência num sítio diferente. Céu,Inferno, Purgatório. Tudo será melhor do que ser refrão de música triste de comédia romântica. Tudo superará existir como se fosse peça central de um jogo de xadrez à beira da derrota.

Num mundo ao contrário, nada faz sentido. Talvez com a força de todos possamos virar este mundo na direção que

precisamos. Isso quando sairmos da penumbra de uma vida sã. Isso quando nos insurgirmos contra as injustiças. Isso quando arrojarmos em ser diferentes.

.

(Re)Início.

Não chegámos ao fim. Há muito mais que podemos dar, por nós, mas mais importante, pelos nossos. Se sentes a exaustão, o cansaço de uma vida de esforços mal recompensados, fecha os olhos.

Nem que seja por um momento. Se os olhos são o espelho da alma, é quando os fechamos que podemos ver aquilo que poderemos ser. Foca-te nos objetivos. Dentro de ti sentes que ninguém te pode parar.

Relembra toda a lista de momentos de orgulho que alcançaste. Sentes-te bem com isso? É suficiente para ti? Se respondeste que sim... Pára e lembra-te: para ti és aquilo que já fizeste; para os outros és aquilo que fazes todos os dias. Como se o disco rígido de cada um dos elementos deste mundo tivesse a extensão máxima de 24 horas, para depois ser formatado irremediavelmente.

 E ai de ti que não o proves dessa forma consistente. As pessoas esquecem o que és e fazes porque, tal como tu, estão tão concentradas naquilo que já fizeram, tornando-as inconscientes do que os rodeia. Vivemos num universo de umbigos.

Abre então os olhos. Estás pronto para a luta diária? Encarando o facto de que tens que provar o teu valor todo o dia, todos os dias?

Ainda bem. Mente, exagera. A aldrabice pode ser uma ferramenta muito importante.  Porque cada falácia, cada hipérbole que usas é somente um desejo de algo que pretendes alcançar. E se tu desejas, podes e deves lutar com todas as armas para obter. 

Agora vai. Lança-te para o mundo com uma nova abordagem. Ele é mesmo teu, se tu quiseres. E lembra-te:

Cada novo início vem de um fim de outro início. Reinventa-te. Podes ter as vidas que quiseres na tua vida.

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50/50.

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Tenho sempre a impressão que algo vai acontecer. Que está mesmo perto de mim, deambulando como fantasma assombrado. E isto não permite ter sossego algum. É difícil viver assim. Pendurado num evento que pode tardar, mas que não falha. Uma questão de tempo. Curto, esse período. E isto condiciona. Provoca desconforto. Não permite viver, desfrutar do que de bom tenho na vida. Sorrio para esses momentos felizes por um ínfimo segundo... E pronto. O sorriso é-me arrancado instintivamente. Algo mau vai acontecer, evento triste e/ou azarado. Como imaginam, isto torna a convivência social bastante difícil.

O celebrar de uma nova criança na família, sinal de mudança e renovação... Felicito os pais, mostro contentamento, augurando já o acontecimento negativo que reporá o equilíbrio.  Dia seguinte, aquele avô querido, que se encontrava a aproveitar os seus anos dourados, falece de morte súbita.

A promoção da vizinha, naquele emprego que ela não queria, deixa toda a gente no prédio orgulhosa. Cumprimento-a, mascando uma qualquer broa caseira com a qual partilha a sua felicidade com os restantes condóminos. Mas... O vizinho do 3ºC era alérgico a nozes... Fulminante, o INEM não chegou a tempo. Eu sabia.

O golo da nossa equipa que é festejado... Para dois minutos depois, vaticinar a resposta da equipa adversária odiada, com a bola dentro da baliza do nosso clube do coração.

Não é fácil viver assim. Amigos poucos, família nenhuma. Mas ao menos tive uma boa surpresa: Vou viajar, pois ganhei uma semana num destino tropical, embora odeie praia. Acho que vou aproveitar. Sair deste meu destino, nem que seja por um curto espaço de tempo. Acham que devo ir? O que me pode acontecer? 

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O avião caiu. Despenhou-se no meio do Atlântico. Sem sobreviventes. Sem caixas pretas. Sem destroços.

Eu? Não fui, fiquei por cá. Perdi o avião. Sorte, não? Vou para casa. Tentar desviar este "karma" da rota do resto da minha existência. Quem sabe, posso ter desequilibrado a balança de vez. Quero muito acreditar nisso.

O texto da A.

"Tudo começou há três anos atrás, eu era uma rapariga feliz, até que no verão de 2011 o meu pai começou a adoecer. A minha mãe começou a notar que os braços do meu pai estavam a tremer, pensou que fosse por causa do tabaco que ele fumava e aconselhou a mudar de marca. Ele mudou para outra, mas os braços continuavam a tremer.

Até que um dia, a minha mãe disse ao meu pai para ir ao médico para ver a que se deviam os tremores. Como o meu pai é muito teimoso não queria ir. A minha chorava e dizia-lhe que ele tinha uma doença qualquer que vinha da cabeça, mas o meu pai aborrecia-se e até se zangava de ela dizer essas coisas.

A minha mãe insistia que ele tinha que ir ao médico, mas ele, teimoso continuava a não querer ir. Um dia a minha falou com ele com um tom mais sério e disse-lhe para o fazer, se não fosse por ele, que o fizesse pelos filhos.  Então o meu pai foi ao médico.

A médica mandava fazer análises e mais análises e o meu pai ia fazer. Mostrava depois os resultados, e a médica dizia que era da coluna e receitou-lhe uns medicamentos. Mas o meu pai não melhorava; pelo contrário, piorava cada vez mais.

 

 

O meu pai foi com a minha mãe a outra médica. Fez novas análises, e identificaram artrites, e que tinha de ficar internado para observação. A minha mãe chegou a casa , contou-nos e eu fiquei muito triste. Eu e o meu irmão começámos a chorar, e a minha mãe também.

De seguida, deram alta ao meu pai. Eu fiquei muito feliz, e fui a correr para lhe dar um abraço...

Mas os braços do meu pai continuavam a tremer, e a minha mãe foi com ele aLisboa. Lá, fez novamente imensos exames e vieram mostrar os resultados ao médico aqui de Portalegre.

De seguida, mandaram o meu pai fazer uma ressonância magnética a Évora. Descobriram que tinha uma doença grave, esclerose lateral amiotrófica... Seguiu-se uma consulta num neurologista em Lisboa, no Hospital Santa Maria.

Aí, explicaram tudo o que ia acontecer ao meu pai. Mas o meu pai não acreditou no que lhe disseram. Mas ele continuou a piorar, a ter menos força. Começou depois a fazer fisioterapia, e a minha avó começou a ajudá-lo a vestir-se. Mas a minha avó já tem os seus problemas, sofre de depressão, e um dia recusou-se a ajudá-lo...

A seguir foi internado no hospital, pois a minha mãe não tinha quem cuidasse dele... Conseguimos depois uma vaga para ele em  Arronches, onde ia ter mais condições. Mas o meu pai não queria ir; dizia que já estava habituado a estar no hospital, e assim acabou por ficar em Arronches apenas dois meses, pedindo transferência para São Tiago, na Urra.

Entretanto o meu pai estava cada vez pior. Já não se percebia a falar, engolia mal e engasgava-se muito. O médico informou-nos que ele tinha de ser operado para meter um tubo no estômago, mas o meu pai não queria. E assim foi transferido novamente para o hospital depois de ter estado nove meses na Urra. Mas ele não queria ir, porque sabia que lhe iam meter a peg (sonda) para comer. Ainda aguentou algum tempo sem a sonda, mas voltou a engasgar-se ,e assim tiveram que a colocar. A peg entopiu, e teve de voltar ao bloco operatório, retiraram, e voltaram depois a colocar...

Bem, eu tento ser forte e não me ir abaixo, mas há dias em que só me apetece chorar. Eu não gosto de ver o meu pai assim... Há dias que escondo a minha tristeza por detrás de um sorriso.

Estou sempre alegre, não gosto de mostrar aquilo que sinto, guardo tudo para mim..."

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E queixamo-nos nós do quê?

A carta do fim.

Se estão a ler estas minhas palavras, é porque já ardi. Sim, literalmente, que eu deixei especificamente escrito que queria ser cremado. E se bem vos conheço, meus queridos familiares, amigos e gente que está aí simplesmente porque existe uma mesa farta de comida, e foram entrando com o som da música angelical da ti Rita: Marco Paulo, época cabelo farto de dois amores, cumpriram esta minha vontade muito tempo depois de eu me ter finado, sendo queimado já a cheirar a lixo de dez dias. Obrigado por isso. OK. Ela que desligue isso, que vamos dar início a isto.

Ao longo da minha vida acumulei imensos tesouros. Embora tenha tido uma boa vida, recatada e sem grandes luxos, fui poupando para um dia de chuva, para uma intempérie que felizmente nunca chegou. A  mulher faleceu antes de poder comprar o grande cruzeiro que ela desejava fazer, apesar de enjoar sempre que metíamos pé num cacilheiro. Enfim, a ideia romantica que a deixei ter até ao fim de uma viagem a dois, longe das preocupações duma vida partilhada durante três dias e quarenta anos. Segue-se então, da forma mais objetiva possível, quem recebe o quê:

  • Aos meus afilhados, hoje homens e mulheres feitos, que vi pela primeira e última vez em ecografias que me foram enviadas pelos seus progenitores, deixo-lhes a incapacidade de amar outrém. Acho que combinam perfeitamente com os feitiozinhos de crianças mimadas que pude acompanhar nas suas diversas intervenções nas redes sociais. Ah, e boa sorte a viverem às custas de quem quer que seja o resto da vida. Isso vai resultar; estou a torcer por vocês.
  • Aos meus dois filhos, que abandonaram a mãe quando a sua doença se tornou um fardo insuportável. É de louvar aqueles três dias que a largaram ao abandono naquele que devia ser o conforto do lar de alguém a quem nunca faltou com nada para os criar. Dou-vos o dom da reciprocidade: é isso que levam... Nada deram, nada recebem. Espero que vos pese a consciência para o resto da vida. Cruel? Não. Se o quisesse ser, dir-vos-ia que caminham rapidamente para o abismo da terceira idade, e que com o exemplo dado, certamente vos irá acontecer exatamente a mesma coisa. Pode ser que tenham sorte no lar onde vão ser enfiados e esquecidos!
  • A toda a restante família, quero partilhar convosco o que de mais importante deixo neste mundo efémero: o sol. Dizem que quando nasce é para todos, mas boa parte dos nossos familiares deixaram de o ver quando a doença chegou. Escondidos, amarrados, impedidos de viver os últimos anos com dignidade. Que usufruam deste meu presente, que gozem a energia retemperadora que o astro máximo providencia... Enquanto vos for permitido. Enquanto tiverem poder de escolha. Enquanto não vos reutilizarem as fraldas descartáveis, enquanto não tiverem o corpo coberto de escaras, hematomas e odor nauseabundo.

Como podem constatar, não existem bens materiais para ser distribuídos. Distribuí tudo com quem precisava realmente: IPSS, creches, centros de dia. Podem confirmar com o senhor de aspeto sério que está a ler este texto, logo depois de fecharem a boca de espanto e descontentamento com estas minhas decisões. O velho estava mesmo maluco, não estava?

 

Cumprimentos e até qualquer dia,

 

Assinado: Pai de um filho e filha abusadores

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O velhote.

No fim da minha rua vive um senhor bem velhote

Já me falaram outro dia da sua tamanha sorte

Ganhou o euromilhões, é então um milionário

Mas parece que se porta, tipo, como um otário.

Não percebo a atitude. Porque é que ele é assim?

Está de mal com o mundo, não lhe vejo um bom fim.

Atirou-me uma pedra e mandou-me "foder"!

"Eu tenho dinheiro, sou feliz a valer!"

Com uma resposta daquelas, não podia desistir

Niguém vive bem assim, tive mesmo que insistir

Voltei todos os dias, durante um mês inteiro

Sempre a ser mal recebido,"tu és um interesseiro!"

Mas a cada ida minha, somente para conversar

O velhote foi cedendo, a custo e a protestar...

Percebi que estava só, há muitos anos sem família

E que vivia sem os filhos, em eterna quezília.

"O dinheiro separou-nos, em vez de nos unir

E eles não querem saber de mim, querem-me punir!"

Chorou tanto e sem parar, durante imenso tempo

Coitado deste homem, que vive neste tormento.

Vários anos passaram, e o tempo tem o seu peso

E ninguém lhe consegue escapar, ninguém sai ileso

Deixei de o ver; nunca saía de seus ricos aposentos

Fui lá um dia, já crescido, dar os meus cumprimentos

Estava lá uma criança, não sabia quem eu era

Brincando junto à porta, dizia chamar-se Vera

Perguntei pelo avô, julgando ser ela a neta

"O meu avô está no céu, foi para lá de avioneta!"

Sorri por fora e por dentro, senti-me quente, feliz

Pois o velhote avarento, finalmente... Teve o que sempre quis.

 

 

O pequeno grande homem.

Falei ontem com o melhor jogador da nossa equipa. Ele anda triste, não tem treinado, o estado de saúde não tem permitido. Com tão tenra idade, já passou por tantas operações, médicos e consultas que a maior parte das pessoas não passa por uma vida inteira. Está sempre impedido de fazer o que mais gosta, se lhe limitam uma vida normal de adolescente, com amigos (e amigas...), com galhofas, com experiências espetaculares que a vida lhe deveria estar a proporcionar... Mas não. Está em casa. O melhor jogador da nossa equipa está confinado a quatro paredes, quando o que ele mais queria era estar connosco. Perguntou-me: "Mister, o que se passa com a equipa? Somos melhores, certo? Porque perdemos? Porque é que não somos já campeões? Não percebo!". Tentei explicar-lhe que os adversários também têm mérito, que as coisas não têm corrido bem, e que talvez estejamos a acusar a pressão. Como eu estou arrependido de ter usado esta expressão. Respondeu-me de forma rápida e, pelo que me pareceu, muito irritado:

"Pressão? Mas eles querem falar em pressão? Já não sei quantas vezes fui operado, sempre com problemas a surgir, sempre com obstáculos a impedirem-me de ter a minha vida normal, e eles acusam a pressão? QUE PRESSÃO? Não consigo perceber, e peço desculpa mister, mas até fico ofendido por dizerem isso! Se são melhores, provem-no! Dêem tudo em campo, tal como eu dou na vida! Mesmo jogando pouco, eu mereço esse campeonato, EU QUERO SER CAMPEÃO! SEM DESCULPAS!"
Já era tarde e hoje era dia de aulas. A conversa terminou, sem que eu conseguisse dar-lhe uma resposta. Engoli em seco. O nosso melhor jogador tem razão. 

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Uma postada diferente: 3 melhores álbuns do ano.

Esta é uma humilde mini lista, de gosto muito pessoal. 2016 tem sido um ano bastante profícuo no que diz respeito a boa música. 

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3º lugar: Frank Ocean - " Blonde"

Ou "Blond". Há muito tempo que me apaixonei por este portentoso talento do "r&b" americano. Saindo muito para além dos contornos da "caixa" onde se poderia encaixar (há uma necessidade de arrumarmos as coisas por géneros, não é? Chega a parecer um comportamento obsessivo compulsivo!), Frank andou desaparecido durante anos, revelando-se este ano com um álbum estranho, intercalando canções mais experimentais, que fogem ao estigma aplicado a Frank, o de cantor de canções pungentes de "soul", com laivos dos hinos "gospel" que o catapultaram para a estratosfera musical. Ah, e conta com interessantes convidados: Beyoncé, Andre 3000, e ainda com uma "cover" dos The Carpenters... 

Benvindo de volta, Frank. E não nos abandones mais.

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2º lugar: Flume -  "Skin"

Sou fã deste produtor/Dj há imenso tempo. Desde tenra idade que cria e produz com maestria tanto as músicas "radio friendly", como os sons mais arrojados e experimentalistas na cena eletrónica atual.

Com este "Skin", torna-se mais melódico e mais abrasivo ao mesmo tempo. Para estas duas facetas aparentemente tão diferentes, conta com convidados igualmente bipolares: Tove Lo e Kai, cantoras em voga no mundo da "pop", e Vince Staples e Raekwon, representando o que de melhor há no mundo do hip-hop.

Só faltou mesmo Chet Faker neste álbum...

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1º lugar: James Blake - "The Colour In Anything"

Delicado como sempre, James evolui e muda as regras do seu próprio jogo. Toda a sua parafernália eletrónica é induzida de alma, humanizando-a. O seu "falsetto" continua a circundar em "loops" longos, demorados, até entrarem dentro de nós, e lá ficando, aninhando-se junto do nosso coração. Frank Ocean e Justin Vernon dão um pouco de si, mas mantendo esta hora e tal de música numa experiência muito intimista, como só o inglês nos sabe proporcionar.

Obrigado, James!

Nunca sozinho.

Voltar atrás. Recuar. Reviver situações, criar novas realidades com o conhecimento prévio do que é certo e errado, adequado ou não. Há quem peça fortunas. Ele queria apenas vê-la. Mais uma vez. Não se importava quando ou em que circunstância.

Podia ser no duche, a usar o seu champô de eleição que não lhe saía das memórias olfativas, passassem os anos que passassem.

Podia ser também enquanto cuidava da mini horta que tinham decidido criar, onde após horas de empenho, apenas tinham germinado umas mini alfaces com muito mau aspeto e muita terra fertilizada pelo cão da irmã dela. Mas ele sabia o quanto ela apreciava aquele tempo em que estava em paz, em contacto com a terra.

Não ia ser exigente, mas adorava encontrá-la apenas mais uma vez... a dormir. A verdadeira forma de um anjo. Pureza, inocência. Acreditava que todo o ser é inundado de bondade quando a sombra tapa o mundo com o seu manto, protegendo-nos a todos.

Mas isso não iria acontecer. O desconhecido tinha-os separado para sempre. Afastados cada um em seu mundo, sem veículo de comunicação possível.

Mas sempre que ele olhava para a sua cama, justamente quando a sombra vinha despedir o mundo do calor e conforto do dia, via a sua marca nos lencóis de cetim. A noite trazia-a até ele. Diz, orgulhoso, que não dormiu uma única noite sozinho.

Inspira. E expira.

Inspira. Absorve o bom que deste mundo extrais, e torna-o teu. Complementa-te. Cresce. Sê melhor. O teu sistema respiratório irá deixar de fora tudo o que te preocupa, que te tira o sono. Dinheiro. Família. Sociedade. Emprego. Concentra nesta golfada de ar absorvida toda a pureza que podemos retirar da vida. 

Expira. Tudo tem que sair cá para fora. Longo e pesado, tudo o que emanas: as más vibrações, os sentimentos de culpa, as injustiças ignoradas, os pecados cometidos. Rejubila com a leveza de espírito proporcionada com este simples gesto.

Vamos outra vez?

Inspira. De forma uniforme e prolongada, captando agora como se fosses sol todos aqueles momentos que te fizeram e fazem feliz. Aquele dia especial, do nascimento, da conclusão de uma etapa, da simples convivência com aqueles que já não estão contigo. Prende essa inspiração, como se te agarrasses a uma vida perfeita que já viveste.

Expira. De forma rápida, para expelir a negatividade que se encontrava alojada nos teus orgãos, na tua carne, na tua essência, até. Aquela pessoa querida que faleceu, o reboliço da vida, as frustrações acumuladas. Alivia esse peso. Contempla as preocupações agora exteriores a ti. Já não te pertencem.

Dizem que respiramos vinte mil vezes por dia, aproximadamente. É imaginar o que de bom respirar assim poderia trazer às nossas vidas, nem que fosse uma ínfima fração dos totais diários. Vamos a isso?

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