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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

De bloco e caneta.

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O mundo, os mundos mudam. Com o rendilhar das letras tudo se incorpora. Nas curvas da letra A, perde-se e encontra-se o Amor e o Arrependimento, riscando o que não interessa. Na Retidão do R, forma-se o Respeito e a Razão, mas também a noção do Ridículo. Cada risco e rabisco conta uma estória dentro de uma história. Cada um dos movimentos certos e constantes do desfilar do carvão pelo papel traça destinos, descobre aventuras, inventa conjunções de coisas randomizáveis que tornam caligrafia rasurada em arte admirada.

Piódão.

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O frio faz-se sentir desde cedo, pois por trás da encosta a neblina gelada humedece e enregela o xisto das paredes. Sente-se uma paz incomodativa: depois da entrada na aldeia, depois do restaurante, do café e das barraquinhas de recordações, entramos num silêncio que se falasse pediria ajuda. A beleza do local, construído por mão humana, contrasta com o pouco calor que irradia das pessoas. Parece que o frio atmosférico foi inalado por cada um dos habitantes. Até os animais se mostram amorfos, almas penadas condenadas a vaguear a vaguear pelo xisto eternamente. Viver aqui, detrás dos calhaus, torna quem aqui vive em montes de pedras escuras que esperam pelo progresso que nunca chega e que temem o fogo que os ia destruindo.

Nos vales.

Nas estradas me entorpeces, com o ziguezaguear da serpente. Esquerda, direita. Subindo, descendo. Excitas com choques cromáticos. Verde vida e castanho velho, em plano aberto com o azul celeste que se vislumbra aos poucos no meio da neblina, escondendo-me o sol. No ar puro e virgem me dilatas os pulmões, inundando o meu interior de paz e vigor, expulsando o dióxido de medo que por vezes me intoxica.

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As botas.

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Aqui vos deixo, amigas. Na serra, mais juntas do céu, do sol. Acompanharam-me na subida aos maiores picos de alegria e tristeza da minha vida. Confortaram-me as plantas para me deixarem crescer. Os vossos cordões apertaram-me em momentos em que parecia que ia cair a pique. As suas solas, robustas e gastas, lembram um avô que ensina a andar de cabeça erguida, severo mas carinhoso. Hoje descalço-vos pela última vez. Que outro alguém vos aprecie como eu fiz. Que vos lace e saia por aí, sendo feliz como eu o fui. (As botas não são minhas, já lá estavam!!!)

A escada.

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Gosto de ir. Só isso. O destino é o menos importante. Ir e vir. Adoro vir. Nada como voltar ao conforto depois de ir. Mas não gosto muito de ir pelo caminho já traçado. Dá a ideia que o caminho não sou eu que o escolho, e eu quero é trilhar o meu. Mas esta escadaria... Atrai-me. Que será que se esconde depois dos seus já gastos degraus de xisto? Que bichos se protegem por entre pedras e giestas? Que estórias terão para contar as folhas espalhadas na manta morta que a envolve? Prefiro, desta vez, que as perguntas fiquem sem resposta. Talvez noutro dia as procure. Hoje simplesmente contemplo. Admiro. E imagino.

Rodeados.

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O cheiro das fagulhas ainda impregna as narinas, não deixando ninguém esquecer o mar de fogo que tudo engoliu. Sem fuga possível, resistem os poucos que não perderam os seus bens, familiares ou ambos. Os que se recusam a apagar a chama que emana dentro deles, e que os faz reerguerem-se literalmente das cinzas. Esta pequena aldeia transparece no seu nome o horror que todos os lugarejos perdidos na serra viveram nos piores dias da sua vida. Obstinados, levantam a cabeça para o céu, e rezam ao Diabo para que o Inferno não volte. Rodeado. Mas não morto.

Como cão e gato.

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Cão e gato não se dão como cão e gato. Cão e gato dão-se como cão e cão e gato e gato. Cão e gato são unha e carne, não se largam, partilham passeios e dividem rações e restos colocados por humanos simpáticos. Cão e gato são farinha do mesmo saco. Deambulam pela zona dos pré-fabricados, vivendo no meio da urbe. Os carros esperam que passem, as crianças fazem-lhes festas pacientes e os velhotes desabafam com eles, como se netos fossem. Cão e gato são apenas isso, um cão e um gato. Que se apoiam apesar das diferenças. Que se aquecem sob o mesmo sol.

A ovelha negra.

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É uma ovelha especial. Sempre o foi. Em pequena recusava-se a partilhar tetas com os irmãos e irmãs, encomendando paletes do mais delicioso leite açoreano para suprimir as suas necessidades nutricionais. Sempre irreverente, mandou tingir de negro carvão a sua indumentária, em plena adolescência, fase gótica inspirada pelos filmes de vampiros. E agora, já com idade para assentar, continua a ser a tia louca que foge de convenções e regras, que se faz acompanhar apenas de si própria porque não encontra melhor companhia. Não há mal em ser diferente. Inventa, envergonha-te, pergunta sem pudor, ri bem alto. Demarca-te de todas as outras ovelhas deste mundo. Que seca ser igual a toda a gente.

Na tasca.

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Ao longo do balcão longo e esbatido de mármore, beijado uma e outra vez com risos de abafadinhos e bagaços irados, jaz a vida carcomida de quem a frequenta. Entre um ou dois dedos de conversa, os restantes dedos seguram estoicamente o seu néctar de preferência: o tinto, para a alma madura e vivida; a aguardente, para o jovem imberbe; a mini, para o frequentador diário, que vai à fonte depois do longo dia de trabalho. Falta enaltecer o tasqueiro. Aguadeiro do povo, que com o petisco e uma palavra amiga fideliza mais que Cristo. "In vino veritas" E na Sagres também.

O caminho.

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Na vida anda-se. Muitas vezes de um lado para o outro, outras decididos em frente, e algumas para lado nenhum. Na vida corre-se. Com pressa de lá chegar, para de lá fugir, ou apenas correndo por correr, sabendo que se parar, algo será diferente e isso assusta. Na vida rasteja-se. Para bajular, num ato de vergonha e subjugação sem igual, ou para passar despercebido, deixando a coragem bem enterrada no nosso âmago. Seja qual for a forma de locomoção, pouco adianta. O caminho está traçado desde o início. Estamos confinados a andar quando nascemos, a correr rápido pela vida e a rastejarmos até secarmos no chão.

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