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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Rossio.

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Numa volta da rotunda quase nada se vê. Demos então mais uma para que nada escape. Entramos ao ver a fonte, símbolo do centro da cidade, recuperada, que serve de ponto de abrigo aos transeuntes das quartas-feiras de mercados, ou aos "habitués", que veem ali a vida a passar, nunca saindo da rotunda rotina que os seus anos dourados lhe trouxeram. A volta dá mais uma volta, até os olhos ficarem em bico. Exemplo disso é o empreendimento oriental que já foi nosso, mas agora é deles. Não podemos parar numa rotunda, tal como não podemos parar o progresso, pois não? A meio do nosso carrossel rodoviário encontramos o imponente Plátano, árvore que se falasse cobriria quilómetros de linhas; é como se fosse um avô que sempre ali esteve, que tomou conta de nós. Antes de completarmos os 360 graus de envolvência, as tascas. Intitulo-as assim, mas não com sentido pejorativo. Beber um copo numa tasca, local castiço, rústico, é algo incomparável. O encontro de indivíduos desconhecidos que se abrem pelo álcool proporciona momentos de alívio a quem abre o coração, e de aprendizagem a quem ouve falar a experiência. Se na rotunda vivemos, nesta me fico. Porque dentro desta repetição aparentemente incessante, há pequenas diferenças que nos fazem voltar a andar à roda.

Salto no azul.

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Na Piscina Municipal nasceram amores de verão sem fim, arrefecidos por "bombas" disparadas da terceira prancha, com corpos projetados vindos do que parecia ser o céu. O chão vermelho e poroso tornava os movimentos rápidos, com receio de que a planta do pé se tornasse lava, obrigando à dor para entrar e sair da água fresca; uma espécie de prazer depois de sofrer e vice-versa. No fundo dos quatro metros e meio, celebramos o fundo do mar como nos documentários de Jacques Cousteau no Canal 2. Tornavamo-nos tubarões como em "Jaws", trauteando o som icónico da película de Spielberg, mordiscando uns dedos dos pés das incautas "vítimas". E trinta anos depois destas memórias, a estóica torre mantém-se imponente, descansando mais um inverno, esperando que o sol volte e aqueça, para servir e divertir mais uma geração de Portalegrenses.

Vamos à bola.

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Milhares de pessoas a vibrar entre ofensas, cânticos e apoio cego à sua equipa. Oitentas e noventas foram anos em que o absolutista desporto-rei reinou na cidade de Portalegre. As equipas da cidade degladiavam-se numa rivalidade intensa, que fazia com que membros de família se deixassem de falar e que amantes terminassem relações. Época em que tudo era vivido ao extremo, amainada ou acelerada por um copo no bar ao intervalo. Foram também tempos de grandes conquistas, inclusive com títulos nacionais no currículo. Não vou fazer a comparação com o que se vive hoje em dia. Recuso-me a ser um Velho do Rossio, remoendo em eterna melancolia pelos tempos que já não voltam. Mas uma coisa tem que ser dita: há hoje quem com pouco faça muito. Há quem treine em erva seca ou inexistente. Há quem corra por amor a uma camisola, nada mais, na tênue esperança que as ninfas do Estádio Municipal voltem para fazer crescer um novo futuro que honre o passado das instituições.

Mãe e filho.

Aqui te deixo, meu filho. Quando voltares a mim, serás meu e dela também. Quando nos virmos daqui a uma pequena hora, um pouco de ti será transferido para outro alguém. Mas não faz mal. Aquilo que nos une jamais será quebrado. Pelo contrário. A partir de hoje todos os sentimentos serão multiplicados por todas as pessoas que se juntam através do teu novo estado civil. Aqui te deixo, filho. Aqui te saudarei, novo esposo.

Aqui me deixas, mãe. Hoje entra uma nova pessoa que amo no nosso pequeno círculo. Prometo que cuidarei dela como tu sempre cuidaste de mim e dos meus irmãos: carinho, amizade e uma vontade infinita de nos fazer felizes e melhores pessoas, apesar das dificuldades que encontraremos. Essas, irão unir-nos ainda mais e estaremos cada vez mais fortes, sempre contigo a vigiar-nos. Aqui me deixas, mãe. Aqui e em todo o lado, amo-te, mãe.24989245_10214794578004691_943078038_n (2).jpg

Vinho e amigos.

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No rubi da tua cor vejo as bochechas dos meus compinchas. Alegres, não pelo teu efeito, mas sim porque ser amigo torna-nos mais risonhos, mais felizes, aquece-nos por dentro e por fora. No fundo do teu copo alto ouço as estórias contadas até à exaustão, mas que têm sempre graça, apesar de mais ninguém achar. Do teu cheiro soltam-se notas adocicadas de momentos bem passados, bem como a adstrigência das agruras da vida. Do teu sabor frutado relembramos notas da nossa infância, e da tua intensidade recordamos objetivos, funções e planos delineados. Façamos então mais um brinde à vida, celebremo-nos antes que a garrafa acabe, e com ela, tudo o que somos quando nos juntamos.