Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

O Hotel.

Confesso que não tenho muitas memórias vivas deste marco histórico da nossa cidade. Quase toda a minha vida o vi encarado como um "mamarracho", desígnio do que já fomos e difícilmente recuperaremos. A cada passagem pela Avenida da Liberdade sente-se a melancolia desta unidade hoteleira devoluta, que mesmo depois de décadas de abandono, mantém a sua fachada digna e orgulhosa do seu passado. 

Quero acreditar que o seu interior se encontra despido de vida, mas iluminado das lembranças que o percorrem: estadias das mais altas figuras de estado em visita ao deserto alentejano, jantares refinados com os mais puros sabores alentejanos para ingleses e alemães degustarem até altas horas da madrugada, pernoitas, nas instalações "vintage" mas imaculadas no seu aprumo e limpeza, do caixeiro-viajante que fazia vida na estrada, banhos de sol e água resplandecente na sua piscina recatada, fazendo a delícia dos

IMG_20180120_111648.jpg

 

mais novos...

No dia que se apelidou do da Saudade, enjeito essa maneira de sentir em relação a este ícone da cidade, e sugiro que se aplique o sentimento de Pena.

E fica o louvor a quem, apesar das dificuldades, aposta no mundo da hotelaria e continua a mostrar a força da nossa hospitalidade e do saber bem receber.

O Plátano.

IMG_20180120_111023.jpg

Como um avô velhinho que nos abraça com os seus ramos esguios e protetores, o Plátano vigia a cidade. Gerações de portalegrenses procuram repouso do calor esbrazeante com que o sol de maio a setembro nos brinda. O seu tronco imponente de bases antigas e sólidas transmitem a segurança que só um ser secular pode transmitir. Folhas verdes, amarelas, castanhas, e nos nossos pés, fechando e reiniciando cada ciclo, cada ano, com a força de quem já viu muito e muito tem para ver. Conta de cor as revoluções e as sortes na guerra, os corpos em câmara ardente e as derrotas no futebol. Que a tua vida se alongue como os teus veios se expandem até tocarem na Penha. Que continues a enraizar netos e bisnetos no amor à tua terra. E que sejas sempre porto de abrigo para todos os que não o têm. Que as tuas escoras continuem a suportar todo o peso da nossa interioridade. Por tudo isto, obrigado avozinho.

O Centro Comercial.

IMG_20180120_114228.jpg

Já com muitos anos de vida a provar que uma obra desta magnitude fez e faz sentido na nossa cidade, o Centro Comercial Fontedeira foi desejado por demasiado tempo. O intuito nunca foi construir um centro de comércio cinzento, descaracterizado, moldado para o consumismo puro, como acontece com quase todos que temos por aí. A ideia fundadora era unir no mesmo espaço lojistas e negócios que só tinham a ganhar em juntarem-se, mas mantendo uma personalidade singular, enchendo de vida e alma um local que poderia ser frio e distante. E assim foi. A união e a confiança de quem faz de lá vida são quase enternecedoras e fazem acreditar de que a humanidade está sempre primeiro: o vizinho lojista tem que se ausentar, e alguém guarda o estabelecimento de forma descontraída; o fiado com o cliente conhecido é prática comum; e o sorriso e a atenção personalizada são norma e não algo imposto. De vez em quando, trazem os ventos notícias de um novo e gigante empreendimento comercial que se fixará em Portalegre. Enquanto chega ou não chega (acredito que não chegará), há quem vá trabalhando para nos dar e aos visitantes um pouco de tudo o que precisam nesta congregação de comércio tradicional. Fica o elogio a quem nunca desistiu, e a quem faz deste local a referência máxima do setor terciário desta cidade.

O Alentejano.

IMG_20180120_120319.jpg

Neste café o tempo parou. Parece que recuamos cinquenta anos, nos tempos da cidade das searas, dos ventos que sopram a seu favor, das serras que a protegiam do bom e do mau, do progresso e da descaracterização. A sua decoracão inalterada em décadas sugere a grandiosidade de outrora: sofás de canto que juntavam estudantes em animadas tertúlias ou em ensaios de serenatas bem regados. De balcão central, como que a convidar a nossa entrada; ordenadas mesas e cadeiras de fundo vermelho clamam o nosso aconchego. De sala comprida, onde ecoam vozes de gentes passadas que enchiam este local de encontro. Escondida nas traseiras, a sala de jogos, que unia novos e velhos num desafio de taco na mão e bolas nos buracos em amena cavaqueira. E os seus bancos de frontaria, onde o sol da nossa terra beija de manhã quem neles se senta, entre bafos de fumo branco. Neste café o tempo parou. E ainda bem.

O Ciclo.

IMG_20180113_121020.jpg

Depois de quatro anos no conforto da escolinha do Bairro dos Assentos, lidando apenas com os meus colegas de turma, com a Professora Judite e com uma ou outra auxiliar menos bem disposta, seguiu-se a vida escolar na cidade. O Ciclo, Escola Básica Cristóvão Falcão, formatava a legião jovem nos saudosos 5º e 6º anos, onde todos os meninos e meninas dos arredores de Portalegre vinham aprender. As escolas são sempre organismos vivos, e no início da década de 90, essa vivacidade transbordava dos edifícios, tal era o número de alunos que fazia aquela zona pulsar de alegria, gritos e confusão. Os intervalos, onde tudo se passava ao longo do dia: o jogo do lenço, que permitia o toque na/o menina/o favorita/o; os jogos da apanhada, que valiam até em cima das árvores e dentro do tanque nas traseiras da escola, onde se reuniam os alunos mais velhos; as verdadeiras batalhas campais de bola no pé e de pé na canela... Ficam as memórias e algumas das amizades. Ficam os professores e os ensinamentos. Ficam tardes de beijinhos no bar e de frios e calores nas salas, nem sempre devido à condição atmosférica... Venha então o "lavar de cara" desta instituição para que possa continuar a educar com dignidade.

Rua que não se enDireita.

IMG_20180112_113810.jpg

Símbolo máximo do comércio portalegrense, a nossa rua esquina-se em ziguezagues de pequenos locais, uns mais rústicos, outros mais "posh", que vendiam de tudo um pouco. O pano da loiça para o enxoval, o pijama para o marido, a gravata para o dia especial, o café com a mamã, o tinto com os camaradas, a muleta para o azarado, o secador para a "mise", o seguro para o que morreu de velho, o óleo para a motocultivadora, a boleima para o familiar de longe não esquecer as origens... E podia continuar. Podia, mas a rua não conseguiu, e o calor da nossa terreola secou-a. Restam os fortes, que se recusam a desistir dum sonho duma vida. E os "tolos", que não querem acreditar que "o que foi não volta a ser". Que saudades da Rua Direita, em sentido de orgulho pela sua validade e preponderância na capital de distrito do Alto Alentejo. O meu abraço de reconhecimento aos fortes e aos "tolos".

Parabéns, gaiata!

IMG_20171112_123435_Bokeh.jpg

Com a tua simpatia, na tua palavra amiga e na vontade de ajudar toda a gente conquistas o mundo que te conhece, e transforma-lo. Tens a capacidade de vislumbrar o que de bom cada pessoa tem, mesmo que se encontre escondido debaixo de tantas camadas que a vida nos obriga a por. Não desistes de nada nem de ninguém, nem que isso signifique por vezes perderes tu para outros ganharem. Porque quando os teus ganham, tu acabas por ganhar também.

Eu sou o maior exemplo daquilo que fazes por todos. Fazes-me tentar ser melhor, por ti, que tudo mereces... E por mim, que tanto me apoias em tudo o que faço e desejo fazer.

Sou melhor por ti. Obrigado por tudo, gaiatinha... Amo-te! Muitos Parabéns!

A ponte.

Quem nos segura se a vida nos desequilibra? Serão as cordas da família e amigos fortes o suficiente para suportar todo o tipo de desilusões que a vida nos cria? Serão as tábuas de MDF (Maturidade, Dedicação, Força), que nos permitem caminhar em segurança até ao outro lado do nosso percurso? Serão os ventos do desamparo e da instabilidade tão fortes que nos derrubarão em direção ao abismo que é o desconhecido? Então agarra-te! Com força. Até os dedos doerem, e as unhas se despregarem e as veias e os ossos quebrarem e o sangue jorrar até desfalecermos de exaustão. Porque viver não é fácil. Porque equilibrarmo-nos na ponte desgastada e instável exige trabalho. Exige todas as nossas forças conjugadas com todas as vossas forças. Caminha. Não pares. Não olhes para baixo. Segue em frente em direção a um futuro diferente. E deixa para trás a ponte da incert

IMG_20171111_135100.jpg

eza. Só tu a podes transpor.

Mente e coração.

IMG_20171029_185233.jpg

Por vezes é bom olharmos para o espelho da alma que está dentro de nós. Esse espelho tem a mais difícil tarefa de todas: equilibrar coração e cérebro. O coração é o órgão que bombeia alegria por todos os que nos rodeiam, espalhando a bondade a quem quer bem. Por vezes sofre de uma condição que se pode tornar um grave problema, o excesso de amor. Amor em demasia cega, enfurece e faz o corpo fraquejar. E é aqui que entra o cérebro. O cérebro não ri, não chora. Responsável, atinado e sempre a procurar a justiça. Claro que toda esta racionalidade traz complicações. Operando como a máquina que é, sofrendo défice de humanidade, apresenta valores baixos de vitamina C, de Carinho por outrém. E assim há quem consiga equilibrar o coração e a mente. E são esses equilíbrios que tornam os sentidos mais operantes e atentos: a visão que observa o animal abandonado; a audição que permite ouvir as súplicas da mãe que não tem como alimentar o filho; o fato, de quem toca na alma de quem mais precisa. Quem ajuda, a mente muda. Quem apara, o coração repara..

Gato de Rua.

IMG_20171010_111629.jpg

Deambulas junto ao Central, na procura incessante de um rosto conhecido com um saquito de plástico enjeitado, ou duma alma vizinha caridosa que encare contigo, e pela qual te roças de forma interesseira. Não te censuro; há quem faça bem pior com segundas intenções. Tu és um animal, almejando apenas a sobrevivência na rua onde vives com orgulho, recusando a subserviência humana. És senhor do teu destino, és rei do teu Largo.

Sujo, com cicatrizes de guerras territoriais ou de amores incontroláveis. Imobilizas-te perante a nossa presença, na desconfiança eterna de que alguém te faça mal. Felino de genes, felino de postura na vida. Quem me dera que fossemos um pouco mais como tu, Gato de Rua. Mais livres, mais soltos, sem restrições sociais. Sem complicações. Comer, amar, dormir. Quero uma vida assim!

Pág. 1/2