Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Nos carris da memória.

O cheiro intenso pela manhã. É o que mais recordo ainda passados tantos anos.

O frenesim das pessoas, de malas e corações cheios. O fumo que se avista ao longe. O barulho compassado, que se aproxima que nem cavalo mecânico a galope certo.

Degraus enormes para alcançar o interior da máquina, que com o empurrão do avô se tornam meras lombas de excitação para o que se segue: a escolha aleatória de lugares, onde todos correm para as janelas, evitando a todo o custo os lugares das "arrecuas", que se juravam causar má disposição e "fazia a vida andar p'ra trás", diz alguém em todas as viagens. Só muito mais tarde percebi o que queriam dizer com aquela expressão tão sintomática do que vivemos. 

O respeitável "pica", de cara fechada para quem apresentava os bilhetes, sempre de horários e ligações na ponta da língua. Nada de pés nos bancos nem brincadeiras na casa de banho, ok meninos?

Mas andar de comboio envolve tantas mais coisas. Admiram-se paisagens e paragens. Gostava de contemplar aqueles quadros berrantes de vidas a acontecer em cada estação, como se estivesse num museu em perpétuo movimento.

Lanches fartos, em que a partilha entre famílias viajantes se regava com vinho para os graúdos, groselha para os miúdos e gargalhadas de todos, celebrando novas amizades.

Ontem voltei à estação. Despida da vida do antigamente, resiste uma pequena máquina que teima em cruzar este nosso Alentejo. Devagar, atrasada e sem população no interior. Imagem do que aqui vivenciamos diariamente? Não sei. Eu só quero voltar a andar de comboio, que me leve a esse passado cheio de memórias felizes.

IMG_20180224_165129__01.jpg

 

A Praça.

Quem passa na Praça, não passa sem lá "praçar". 

O conceito de " praçar" depende do que lhe apetecer a si. Um café e uma imperial numa das esplanadas direcionadas para o céu ensolarado que nos aquece por dentro e por fora. 

O Coreto arranjado, que serve de mestre de cerimónias para encontros de ranchos populares, manifestações regulares do melhor que a nossa cultura tem e não quer deixar morrer.

O empredado largo, que assiste a brincadeiras e jogos sem fim de pequenas vidas cheias de frenesim e amor e alegria, vigiados ao longe por progenitores que assistem atentamente, sorrindo pelo bem que aqueles seres de luz resplandecente trouxeram à sua existência outrora monótona e sem cor. 

O anfiteatro, que suporta grupos organizados vestidos respeitosamente de negro, cores estudantis, que contrastam com o caleidoscópio de felicidade que transborda de conversas e canções e copos cheios.

É aqui que a cidade se une, é aqui que o velho brinca com o novo, que o cão cheira o gato, e que Portalegre lambe as feridas  e recebe umas festas da sua população, como animal abandonado a quem muitos viram as costas e fingem não ver.

IMG_20180218_120704.jpg

 

 

 

 

 

 

No Centro dos Assentos.

No meu tempo de jovem do Bairro, o "ir à cidade" envolvia uma viagem de autocarro com dinheiro e autorização que não tinha, ou então um verdadeiro conquistar dum Machu Pichu com púlpito nas traseiras do Cemitério Municipal, de altimetria tamanha, obrigando à contemplação do que estava lá em baixo: prédios sociais, descampados e pouco mais.

Mas não é isso que me faz escrever hoje.

Ser dos Assentos sempre foi uma espécie de naturalidade que nos distinguia, e o facto de nos começarmos a afirmar como comunidade dormitório, levou a que uma série de serviços fossem criados para servir a sua população em constante evolução. E assim nascia o Centro Comercial dos Assentos. Parcas lojas numa linha reta de dimensões reduzidas, tornou-se por direito próprio no centro nevrálgico do Bairro.

Aqui suspirei pelos ténis de Marca Ritex, que custavam sempre mais mil escudos do que o dinheiro que a minha mãe trazia na carteira, senti o cheiro prazeroso dos novos livros escolares cheios de conhecimento, salivei pelos frangos assados da cor do sol de agentes da autoridade, revelei os meus primeiros rolos fotográficos quase todos com fotos de praia, de mar e família. Fiz também recados de mercearia, onde a maçã à borla e uma festa na cabeça seguiam no saco, comprei gomas e rebuçados em "vaquinhas" com amigos, comidos à porta do café no chão. Ajudei a minha mãe a escolher roupa para o meu irmão bébé, bem como algumas fraldas de pano. E fugi de proprietários zangados, entre o susto e o sorriso escondido, porque jogo de bola era dentro do Centro Comercial! Sim, dentro! Os pés nunca foram grande coisa e ai de nós se a bola fosse ao vidro do senhor João...

Hoje há algumas lojas fechadas e apenas duas das originais se mantêm fielmente na labuta. Gosto de por lá passar de vez em quando, e ver se vocês lá estão a dar uns pontapés na redonda. Posso jogar? Eu pago os melões ácidos!

IMG_20180129_114230.jpg

 

O IPP.

Não tinha alternativa. Ou estudava na terrinha, ocupando um qualquer curso genérico de Educação, ou agarrava na trincha e no andaime e dedicava-me à pintura da construção civil. Para alegria de uns, e pelo desdém de outros por não conseguirem mão de obra barata, e aproveitando que nem era um mau aluno (facto que hoje em dia é considerado descartável), optei continuar a estudar no Instituto Politécnico de Portalegre, mais concretamente na Escola Superior de Educação. 

Não vos vou falar das festas, dos namoricos, dos apertos de estudos em cima da hora, dos exames, do companheirismo e das amizades formadas ao que parece ter sido há uma vida, e que durarão uma outra. 

Falo de isenção, de profissionalismo, de responsabilização, de rigor, de apoio, de orientação e de qualidade de ensino que só um organismo como o IPP poderia apresentar em todas as suas vertentes e pólos que o constituem. 

IPP é, para mim, sigla

IMG_20180209_114455.jpg

 

de Importante Polo de Progresso. Os casos de sucesso proliferam, e todos têm em comum esta organização à serra plantada. Nada mau para um lugarejo de segunda, não é?

O Jardim do Tarro.

Alvo de remodelação e melhoramento tendo em vista um olhar mais moderno sobre o espaço, dirão uns. Amputado e desvirtuado da sua beleza natural, dirão muitos mais. 

O certo é que não deixa ninguém indiferente. Desde há décadas que acolhe no seu regaço verde toda a gente: o utente do lar, velhinho, que vem apanhar um pouco de ar puro enquanto a força nas canetas o permitirem, munido de bengala e do rádio ranfonho; o imigrante que descansa num dos bancos solarengos numa tarde prazerosa de primavera, ponto de encontro de línguas e culturas que se misturam com a nossa, numa amálgama de vidas; famílias e suas crianças, com animal de estimação de patas no ar e de bola na boca, numa união de risos e descontração; o Coreto, que continua a albergar a libertinagem, com camuflados namoricos, bem como o cigarrinho e a cerveja adolescente...

Moderno ou amputado, mas sempre útil e bem apresentado, este jardim serve de cartão de visita a quem nos visita e de albergue a quem por cá vive.

IMG_20180120_114542.jpg

 

A Sé Catedral.

Podemos dizer que somos pequenos. Fechados. Atrasados no progresso. Retrógrados. Sem muitas instalações que promovam e edifiquem atividades culturais. Sem dinheiro. Absurdamente fechados em nós. 

Mas no que diz respeito a lugares de culto religioso, temos dos mais belos locais do país. Atrevo-me a dizer que a nossa Sé Catedral não destoaria em beleza numa Barcelona erudita ou numa Florença dos mestres do Renascimento.

A primeira impressão é muitas vezes a que mais interessa, e é isso que acontece quando lá metemos pé pela primeira vez: a sua imponência, que mete respeito; a sua beleza, de janelas e frontaria que impressionam o mais viajado dos turistas; a robustez da pedra-mármore que inspira confiança na palavra de Deus proferida de seus pulpitos; o silêncio que traz paz de espírito, que se sente através dos seus mais de quatro séculos de existência, que acalma e centra a alma de crentes e não crentes.

Por que não promover mais esta franja de turismo que se torna cada vez mais apelativa, o turismo religioso? Já tenho um " slogan" à maneira: " Peque na doçaria, absolva-se na nossa Sé. Há pecados que só podem ter perdão".

IMG_20180115_192837_002.jpg