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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

A Variante.

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Passas ao lado. Estás tão perto, roçando os teus marcadores na erva que marca limites citadinos. Passas ao lado. Estás tão longe, que viras as costas a quem te albergou, semeando o êxodo e a desertificação. És como veia com golpe profundo, sangrando a terra, deixando sem vida um coração do interior, que não se resigna e não desiste de bater. Frágil, moribundo, mas ainda vivo.

Via rápida. Irrompes pelos campos por explorar, na vã esperança que o sucesso e o desenvolvimento sejam por ti conduzidos, como uma corrente sanguínea que clameja por progresso como quem precisa de ar para respirar. Por entre o céu azul que a todos pertence e o negrume do teu alcatrão carcomido pelo calor intenso, marcas do tempo desfiguram-te, criando fissuras do peso da responsabilidade que te dão.

O verde que te circunda protege-te das falsas esperanças e promessas que nunca se concretizaram, pois esperança é isso mesmo: acreditar em algo, mesmo que nunca se concretize. Porque promessas são frases não cumpridas, e que defendemos até ao nosso fim.

Ao desviares as pessoas de nós, desvias o olhar sobre uma cidade que precisa que olhem para ela. Que olhem por ela. Que os olhos que veem à distância não são os mesmos que entram, visitam, consomem, que fazem da cidade um centro de vida que merece mais.

És a estrada que nos evita. És o percurso que nos levas e trazes. És o trajeto que nos mata e nos reanima.

A Vila.

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Terra singular, plural de qualidades. Comodidades, cultura, beleza arquitetónica, paisagística. E das pessoas.

As pessoas aqui são das mais lindas que conheci. Prestáveis, acolhedoras, aquecem o coração à chegada batida a vento uivado da serra; confortam estômagos com pratos alentejanos regados com azeite e carinho; distribuem sorrisos, abraços e beijos ao vizinho e ao turista, pois amor não tem preço nem se cobra.

A Vila tem vida, com eventos desportivos de expressão internacional; com feiras culturais e históricas, que deslocam o distrito em peso para participar, pessoas ávidas de serem entretidas e maravilhadas; com locais únicos onde se pode usufruir do que de melhor a gastronomia Al-Andaluz pode oferecer, sempre bem acompanhado de água mineral local, cerveja artesanal arenense ou vinho alentejano que retiraria a Baco o desdém pelo nosso povo...

Neste jogo de xadrez que se chama desenvolvimento, cedo se percebeu que as peças do crescimento e investimento seriam fundamentais para se estar sempre três ou quatro jogadas à frente do distrito. E também aqui o aspeto mental ganha preponderância: o investimento e o crescimento foram mais mentais que financeiros. Para haver desenvolvimento, há que ter uma população formatada para saber receber, mesmo existindo alguns constrangimentos ocasionais para alguns, mas sabendo com toda a certeza que todos tirarão dessas situações vantagens inequívocas.

É de saudar também a comunidade estrangeira que se radicou na zona, que acrescenta uma camada de complexidade, originalidade e de trabalho nesta amálgama de diferentes credos, raças, origens, pois todos se apaixonaram pela Vila. Por dentro e por fora.

O CCD.

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Aqui no Alentejo é sintomático que com os primeiros pelos de barba vêm as primeiras amizades com segundas intenções, e é claro, o primeiro contacto com o lado proibido que estava confinado aos adultos. Falo das primeiras saídas à noite.

Ainda sem idade legal para consumir as primeiras cervejas, saíamos, esperançosos que aquela nota de quinhentos escudos que tínhamos merecido ao ajudar em casa ou no biscate com o pai, ou ao suportar uma "overdose" de carinho das avós,  fosse suficiente para que alguém nos servisse álcool para parecermos fixes e confiantes no início da noite e espalhafatosos e agressivos pela noite dentro (chegar à meia noite era por vezes um desafio que não estava ao alcance do comum dos mortais).

O CCD facultava tudo isto e muito mais. A fazer lembrar o funcionamento do mais exclusivo dos clubes, este estabelecimento dirigido por funcionários da Fabrica de Lanifícios, apenas abria ao público em geral nas sextas-feiras das 21h30 às 24, impreterivelmente.

Lembro-me do entusiasmo da viagem de autocarro das 21h15 que vinha do bairro dos Índios, a eletricidade vibrante nos corpos adolescentes que enchiam a traseira da viatura, todos com o mesmo objetivo: sair na paragem da Moagem, descer um pouco a pé, e simplesmente desfrutar das bebidas a preço bem em conta, destacando o bagaço e a vodka laranja, a música excessivamente alta e de gosto duvidoso, o Beto a falar com o Metaleiro, Assentos e Atalaião juntos numa equipa de sueca, ricos e pobres em comunhão etílica, cidade e periferia juntas como uma só.

O tempo e a vida paravam naquelas três horas semanais, e a igualdade era a palavra de ordem. Ao sairmos dali, uns para casa, outros para o Alibas ou PBX, o mais provável era não nos voltarmos a encontrar. Sexta vamos lá?

(Dedicado ao Grupo de Facebook "Amigos do Largo)

Futebol na Urra.

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A minha vida dividia-se em gaiato entre a agitação do Bairro dos Índios, com a escola, os amigos e o B.A. Barracus em português do Brasil nas noites televisivas em família, e a pacatez e paz de espírito que só a aldeia da Urra me podia dar.

De gente humilde e honesta, a vida aqui acontecia como acontece em muitas outras aldeias do Alentejo: devagar, com calma, porque as coisas demoram o seu tempo e aqui dá-se valor à qualidade dos momentos que se vivem, sem pressa ou sofreguidão. Aqui tinha sempre o coração cheio pela minha avó, que me preparava os pequenos almoços mais saborosos de sempre, cachorros na chapa com café acabadinho de sair da "chuclatêra", onde me era permitido ficar até mais tarde a ver televisão espanhola, com filmes bem mais atualizados que os nossos, e onde todas as indulgências apareciam, mas sempre incutindo responsabilidade e carinho. Sinto falta do carinho.

Mas este entorpecimento salutar, esta forma de levar uma vida "zen", de bem com todos e de todos com Deus, era quebrada curiosamente nos domingos à tarde, depois da missa e do repasto em famíia: domingo à tarde era hora de futebol na Urra.

Famílias aos magotes em que as mulheres se juntavam todas, certamente a envermelhecer as orelhas dos esposos e namorados, jovens e idosos do sexo masculino junto ao pequeno bar, que ficava numa posição pouco enquadrada para aqueles que queriam mesmo ir à bola e não só aos copos, e um monte de crianças sempre em perseguição de uma bola esfarelada, de balão à vista, no ringue de futebol de salão.

E era aqui que as gentes da Urra extrapolavam uma semana inteira de frustrações ou de uma vida de aparente pasmaceira; era vê-los gritar e apoiar a equipa da terra, constituída por filhos da mesma, uns com mais jeito que outros; os eternos bodes expiatórios, os árbitros, eram selvaticamente vilipendiados seja pelo conhecedor do desporto, seja pela avózinha que não distinguia um pontapé de baliza de um fora de jogo. O que interessava era fazer barulho, o que interessava era deitar cá para fora amarguras, tristezas, desilusões, cobardias, amores mal resolvidos e traições. Tudo apoiado em 22 homens a correr de um lado para o outro num pelado de onde tinham que retirar as cabras do Ti Chico para o jogo ter início. Não foi por acaso que este se tornou durante os anos que o Grupo Desportivo da Urra andou pelo distrital uma deslocação temida pelos outros clubes da Associação de Futebol de Portalegre.

E se fosse uma equipa de Caia a vir cá jogar... Problemas...

38.

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Porque é que desde que fiz 35 anos me dizem que estou quase nos "entas"? Têm noção que da idade limite para ser jovem agricultor até à idade em que parece que estamos condenados ao marasmo irrefutável das fraldas descartáveis e da sopa dada lentamente por uma auxiliar da Santa Casa vai uma vida toda e não um par de anos? Que estigma ridículo é este com os números?

Bem sei que possuo farta barba grisalha e grande falha capilar no cucuruto. Mas a nossa aparência física e uma data guardada no Registo Civil não nos define. Recuso que assim seja.

Mas em dia de aniversário impera uma retrospetiva, um voltar atrás no filme da vida dos meus aniversários até agora.

Até aos dez anos apenas tenho memória de apertos. Nas bochechas. O rácio de apertos nas bochechas/oferenda de brinquedos foi sempre desrespeitado. Tempos tenebrosos esses.

Da adolescência até ao início da idade adulta vive-se a fase dos cifrões. Meias da avó? Não quero. Adereços para o quarto? Abomino. Cheques oferta, dinheiro vivo? Venham! (todo esse dinheiro acaba por ser gasto em adereços para o quarto e meias, muitas meias).

A partir dos trinta... Desliguei dos aniversários. É apenas mais um dia em que se atendem telefonemas rápidos mas ainda assim se prolongam em silêncios embaraçosos; respondem-se a SMS e mensagens nas redes sociais de pessoas com as quais não falamos há anos, perdurando o ciclo das conversas "quem é mesmo? já não sei... ah, sim, claro que me lembro de ti, senhor X!".

E depois chega-se a casa, vê-se um bilhete cheio de carinho da nossa cara metade no dia de mais um ano passado... E ele contém outra mensagem bem mais assertiva. Isto de estar quase nos "entas" deixa-me sem paciência.

(Ah, convém dizer que me esqueci de cumprir o que estava bem explícito no bilhete. Obrigado gaiata, pelo bilhete e pelo que aturas todos os dias. Obrigado a todos pelas mensagens!)

Amor ao jogo.

Segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado, domingo. três tapetes sintéticos ganham vida, cor e alegria.

Equipados a rigor, desde a menina que ainda ontem não largava as bonecas, ao miúdo já com voz grossa que impressiona pelo físico, metendo já o seu pai debaixo do braço. Todos cabem no lugar mais anárquico e democrático em simultâneo que já tive o prazer de pisar.

O amor na partilha de algo tão simples como uma bola, a pureza nos sentimentos que transbordam à flor da pele, o lado catártico de correr de um lado para o outro, esquecendo a escola e o trabalho, deixando para trás toda a negatividade, a pedagogia envolvida e o reconhecimento dos mais pequenos ao perceberem que evoluiram, é mais que suficiente para aquecerem os corações de todos os agentes envolvidos nesta atividade, apesar do frio e da chuva, da falta de apoios, das condições precárias e da constante desvalorização da formação nos clubes.

Dizem que o futebol português está podre. Pois bem, compareçam em um qualquer dia da semana nos três tapetes sintéticos e deixem-se invadir pelo bem que de lá irradia ao verem miúdos e graúdos em comunhão. Aqui nada está podre, os valores e a felicidade florescem.

Honra a quem possibilita alegria a tantas crianças apenas a troco de um sorriso, independentemente da cor clubística.

Azuis ou verdes, o coração não tem adversários. Só companheiros.

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O Poli dos Assentos.

Bola. Aparecia sempre uma. Do quintal em frente depois de pularmos sem o dono ver, evitando um canídeo chato. Ou então surgia uma "emprestada" dum clube da terra. Nunca uma única bola durou uma manhã ou uma tarde inteira. Ou um super pontapé devolvia-a ao quintal, acompanhado de um coro de assobios e apupos dirigidos ao artista que a tinha lá metido, ou porque um dono demasiado zeloso tinha que ir almoçar ou jantar e não deixava lá a "redondinha", deixando várias equipas em suspenso até que voltasse do seu repasto.

Jogadores. Muitos, imensos, lembrando matilhas de diferentes ruas, com plantéis vastos que permitiam realizar voltas enormes de "bota fora". Entre uma derrota e um novo jogo, dava tempo para irmos três vezes ao quiosque contemplar as novidades carnavalescas, sempre fora do nosso orçamento. Havia tempo para gozarmos com quem jogava, preparar a tática para a próxima entrada em campo, que envolvia sempre convencer o elemento mais fraco da equipa a ir para a baliza, pedir umas gomas ou trocar uns cromos da caderneta de futebol da época em vigor.

Equipamentos. Havia o clássico calção, t-shirt do clube e ténis com buracos na sola ou de "boca aberta", sinais do desgaste do campo acimentado e do ralhete/palmada/sacudidela de pó por ter destruído os ténis que iriam para a escola no dia seguinte, que serviam para a catequese e para o jantar de domingo em família. Havia também o estilo calças de ganga, t-shirt metaleira e botas de biqueira de aço. O que interessava era entrar em campo, passando dias inteiros naquele pequeno retângulo... As nossas canelas que o digam. Anárquico e multicultural, gente tão diferente unida em torno da peladinha.

Balizas. Armações em metal fundido, compostas de madeira prensada fustigada pelas intempéries, pontapés estrondosos e frustrações de derrotas mal digeridas, foram companheiras e mal amadas durante décadas. Não lhes conheci redes, suscitando sempre lances duvidosos, quase sempre resolvidos com justiça e já com os olhos postos no próximo jogo.

Passei pelo campo no outro dia. Está diferente. Tem mais condições. E ia jurar que ouvi gritos com vinte anos de nós em jovens. Fazendo aquilo que era a nossa vida na altura, inundados de sorrisos em mais um campeonato entre ruas, formando amizades que ainda hoje subsistem. Arranjamos dez para uma pelada, pelos velhos tempos? 

(dedicado ao Ivan...)

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