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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

A Escola de Enfermagem.

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Pensei ter sido uma fase. Mas não o foi. Em certa altura da sua vida, desde aquele primeiro ensejo infantil, seja na precoce adolescência, a meio de uma frustrante primeira escolha académica, ou já depois de enveredada uma carreira profissional, inúmeros amigos e conhecidos sentiram o chamamento da enfermagem. Desde há muitos anos que isso é algo comum na nossa cidade.

Poderia ser coincidência, ou uma moda como outra qualquer, que seria mastigada até à exaustão por um número sem fim de pessoas, que mais cedo ou mais tarde se iriam desiludir com o curso, ou pior, já no decurso dessa mal fadada escolha. 

Eu nunca tive esse chamamento. Nunca pensei ser um membro desta comunidade. O respeitinho é muito bonito e é isso que eu sinto por todos os intervenientes na ação médica.

São precisas doses iguais de conhecimento específico, coragem e um amor incondicional para ajudar o outro, qualidades que não possuo na quantidade desmedida que eles têm. Venero quem lida com os problemas dos outros, muitas vezes sem solução, e lhes tenta trazer paz corpórea e de espírito.

E nem quero pensar na distinção que tem de ser feita entre vida profissional e familiar, a dor que deve causar quando elas inevitavelmente se cruzam. Porque acima de tudo são humanos, e às vezes não o podem ser.

Portalegre é terra de enfermeiros, e isso deve-se inteiramente à instituição que os forma, que os mune de ferramentas científicas e psicológicas para desempenhar tais tarefas de precisão incrível e de tecnicidade imperdoável.

A Escola Superior de Saúde de Portalegre é um ícone do nosso património, bem como um marco a nível nacional de como o conhecimento pode ser adquirido mesmo no meio da desertificação e da falta de progresso de que sempre nos acusam.

Talvez já merecessem umas novas instalações, mas com saber, profissionais com vontade de transmitir o que de melhor se faz na ação médica, e acima de tudo, vontade de formar aqueles que acreditam poder vir a ser os melhores profissionais de enfermagem de Portugal, curso após curso, os louvores inevitavelmente apareceriam.

Cursos cheios, alunos de inúmeras partes do país a escolherem estudar aqui, enfermeiros cá formados a trabalhar nas melhores e mais consagradas instituições médicas portuguesas, e no mundo inteiro há profissionais com ligações formativas a Portalegre.

Portalegre tem que gostar mais dela própria. E a Escola Superior de Saúde faz o mundo gostar mais de Portalegre. Obrigado a quem sente o chamamento. Obrigado a quem transforma o chamamento em profissão.

De olho no futuro.

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P´ra onde olhas, menina?

De olho honesto e puro

Curiosidade bem rabina

De alma aberta no futuro.

 

Olhas para onde quiseres

Pois o mundo é p'ra explorar

Basta mesmo só quereres

Com teus pais a ajudar.

 

Espreitas as nuvens no seu lugar

Cheias de castelos encantados

Vês a vila a mexer devagar

De imensos prazeres vislumbrados.

 

E no alto de seu honrado forte

Vês todas as avenidas e ruelas, 

Quem visita tem a maior sorte

Quais delas as mais belas?

 

Banhada em doce chocolate

Tranformas-te em Vila Natal

Tão valiosa como qualquer quilate

Terra das mais belas de Portugal.

 

Pois então olha, querida menina

Guarda a vila na memória,

As suas gentes na retina

E o seu legado na História!

 

(Adoro Óbidos...)

A Corredoura.

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Muito haveria para dizer sobre o que foi este local para muitos de nós, e sobre aquilo que tanta celeuma tem causado ao longo dos anos. Eu cá prefiro recordar o que de bom sempre teve este local.

Patos e cisnes, de beleza inegável e de feitio irascível. Os peixes vermelhos, que nos acompanhavam na passagem, na procura de um "motreco" de pão, no seu ondular pacífico e "zen".

O lago, mesmo aos nossos pés, de água verde no verão e castanha no inverno, quadro pintado num lindo espectro de cor. O parque, que fazia as delícias de pequenos, entretidos, e de graúdos, por poderem gozar momentos de paz entre leituras da revista "Maria", ou simplesmente pela contemplação de ver crianças divertidas.

A Aranha, estrutura maciça, sítio mais aconselhado para gente a partir do sétimo ano, que treinava a destreza, a velocidade e a força, bem antes da sociedade nos dizer os benefícios do exercício a brincar. Será que os filhos de ontem, que são os pais de hoje, deixariam brincar as suas crianças naquela teia de ferro?

Baloiços, para a frente e para trás, por vezes como jeito de embalar quem descansava das aulas, num gesto repetido até à exaustão. De outras, agitado freneticamente, acelerando corações, disparando adrenalina, como se estivéssemos num barco prestes a naufragar, atingindo alturas impressionantes, entre o ranger das tábuas velhas e desgastadas por anos de brincadeiras.

Esconde-esconde. o jogo intemporal, que ganhava contornos de verdadeira aventura e desafio, tal era o tamanho do jardim e os seus inúmeros esconderijos: fosse junto a uma pedra monstruosa, no cimo de uma árvore em flor ou por detrás do escorrega que parecia prolongar-se do chão ao infinito, criando medo e excitação em quem o descia a alta velocidade, para muitas vezes sermos atraiçoados pela queda e esfolarmos um joelho. Nada que impedisse que a diversão continuasse.

Flora variada. Salgueiros e choupos imponentes, de cimento partido pela força das raízes, que nos resguardavam do verão que não dava tréguas e da chuva que caía forte, enquanto esperávamos que amainasse para podermos correr até à mais próxima paragem de autocarro, esperando sempre pelo próximo veículo que nos levasse a casa, sempre mais tarde do que mais cedo; nem dávamos pelo tempo a passar.

Namoricos, cervejas e cigarradas debaixo do chorão, local que ganhava propriedades mágicas, pois conferia total invisibilidade do mundo que rodeava os que lá estavam, pequeno recanto do mundo onde não havia leis nem restrições.

As Festas da Cidade, que davam mais vida ao jardim, existindo simbiose entre pessoas e a natureza, bem no centro da nossa cidade. Os cheiros. Primavera, pólen, erva seca, onde nos deitávamos a olhar para o céu, sem uma única preocupação no mundo. Inverno, geada, terra molhada, onde cresceria de novo vida.

Os sons. Folhas secas pisadas, gritaria desenfreada, música do rádio do senhor responsável por abrir e fechar o parque, respostas a pais irados pelo tempo perdido ali, "Já vai ...!".

Dizem que estamos velhos quando lembramos tudo com uma saudade incomensurável, quando a frase "no meu tempo é que era..." sai mais vezes do que devia da nossa boca. Eu, que me recuso a envelhecer por dentro, não tenho qualquer pudor em afirmar que não gostei das mudanças radicais feitas neste parque da nossa vida.. Mas também isso talvez seja um sinal de velhice, a resistência à mudança... Quem gosta usufrui. Quem não gosta, goza as memórias. Desde que se dê uma oportunidade à mudança...

O Crisfal.

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"Goldeneye". A épica série de Ian Fleming estava de volta, Pierce Brosnan dava mais uma vez razão à mulherada que defendia que o sotaque inglês é algo irresistível, e Portalegre parou nessa noite de inverno dos já quase eclipsados anos 90. O cinema estava de volta à nossa cidade! 

O entusiasmo era enorme, não se falava de outra coisa. O CineTeatro Crisfal iniciava nova época de ouro. A capital de distrito tinha de novo entretenimento cinematográfico! Esperei imenso tempo nas filas, com mais alguns amigos cinéfilos de VHS "Trinitá", para comprar os tão desejados bilhetes que nos dariam acesso a hora e meia de "suspense", ação, explosões e "bond girls" de trajes menores. Isto numa época onde a Internet, apesar de já começar a mostrar timidamente as suas enormes potencialidades, que hoje temos como parte integrante da nossa vida mundana, fazia desesperar quem se atrevia a mexericar nela, um impulso telefónico de cada vez.

Aperaltei-me, melhor (e única) camisa de riscas verdes e brancas, calça de bombazina castanha e ténis "Ritex". Se o James precisasse de um "wingman" para o ataque aos russos, para ir beber um Martini a um qualquer casino monegasco, ou ainda para engatar de forma de forma sofisticada e inteligente uma agente implacável do KGB, eu estava lá para ele. E vestido para a ocasião.

Bom, ele teria que esperar por mim, porque os meus bilhetes eram apenas para a terceira sessão... Que começava à meia noite. Mas de pouco importava a hora da aventura, ou se tinha de ficar sentado ao lado de dois velhotes que não se coibiam de falar um com o outro sobre se o esquentador tinha ficado desligado depois de terem dado banho à neta, acabando por sair ao intervalo. Ou se do outro lado tinha um dos meus compinchas, que já tinha baqueado. O sono tinha-o derrotado. Mas não a mim.

Acho que não pisquei os olhos desde que entrei no majestoso balcão, pois a sua imponência remetia-nos logo para outros tempos, visitas reais para peças teatrais de épocas requintadas; a madeira trabalhada que marcava com classe as longas filas de bancos generosamente almofadados; o som adormecido por momentos, para de seguida nos explodirem, parecendo estar a acontecer ali, mantendo-nos no fio da navalha; o requinte das casas de banho marmoreadas, o bar anos vinte, dotado dos melhores refrigerantes, caramelos e pipocas, servidos sempre com um sorriso.

Depois de tudo aquilo, sabia que tinha de voltar. E assim fiz, semana após semana. Sozinho ou acompanhado. De calções ou munido de cobertor. Com chocolates no bolso a cinco escudos, ou com a cervejinha de contrabando, que tornava o perigo de ser apanhado um elo que me ligava às aventuras do ecrã, fossem "hobbits" ou super heróis, comédias românticas para ver de mão dada, ou Bruce Willis para gritar com amigos ao lado.

Voltei muito. Mas cada vez com menos gente. As pessoas foram abandonando a nossa sala de espetáculos. As sessões foram escasseando, os filmes já não eram apelativos. Cinco anos depois, fui visionar o meu último filme lá. Voltei a ajudar o meu companheiro de armas James, no filme ironicamente intitulado em português "Morre Noutro Dia". E não foi noutro. Foi nesse dia que morreu para mim. E em breve, morreria para toda a gente.

Ficam as refeições "sui generis" de "Hannibal", as aventuras élficas do "Senhor dos Anéis", a magia das crianças com "Harry Potter", as gargalhadas histéricas de "Doidos Por Mary", o heroísmo de capa de "Batman", o temor do "Parque Jurássico", a choradeira pegada de "Titanic", o amor impossível de "Romeu e Julieta"...

Acho que já estou a ouvir o "jingle" que nos fazia disparar os corações e as luzes a diminuírem de intensidade... Xiu, vai começar!

(Sugiram sítios icónicos sobre os quais escrever nos comentários. As minhas memórias são as vossas!)

O Leão d'Ouro.

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Não nego que esta memória é daquelas que dói ao escrever. Dói por ver o que foi e como está. Ou neste caso, não está. Como se assistíssemos em "slow motion" à implosão de um sítio que muitos consideravam porto de abrigo, e com ele vidas do antigamente reduzidas a um lugar abandonado. Enfim, recordemos o bom que por se lá viveu e que recusamos deixar fugir do nosso pensamento.

O Bar Leão d'Ouro albergava diferentes tipos de público, e era por isso que toda a gente o frequentava, numa qualquer parte da sua vida. Havia uma espécie de grupo, que vou apelidar de residentes, que vivia o Leão de uma forma que poucos faziam: era claramente uma primeira casa, servindo o António como seu progenitor, que os alimentava com os seus cachorros, que os hidratava a imperial e sangria, que lhes dava um sítio para dormir ou apenas descansar um pouco, naquela exígua cozinha. Lá estudavam em grupo para os testes, preparavam as festas da semana seguinte, sendo eles os dinamizadores das mesmas, jogavam e zangavam-se às cartas, vibravam e apupavam futebol, elaboravam dissertações escolares nos intervalos de uma jogatana de matraquilhos. As mesas à entrada pertenciam-lhes, como direito adquirido.

À medida que avançavamos na sala, outras falanges de pessoas eram descobertas. Os "snipers", atiradores de setas profissionais, não pela sua qualidade no jogo mas no tempo e no número de moedas dispensadas na máquina entre rodadas de médias. Escusado será dizer que com o avançar da noite, a mira descia muito de qualidade.

Junto ao balcão, os inveterados do café e dos "shots". Pareciam antagonistas mas acabavam por se confundir. Porque quem chegava e pedia um café, dizendo que ia embora daí a 5 minutos, duas horas mais tarde já gritava por mais uma série de "kalashnikovs", forte no amargo do limão e no aliviar do açúcar em chamas. E aqueles que iniciavam a noite com o desígnio de se embebedar com pequenas doses de etanol engarrafado, terminavam a noite com um café para se recomporem. Isso, ou com uma visita ao WC, bem pequena, que assim aparava os clientes mais instáveis.

Junto ao "pinball" e aos "matrecos", habitavam os nómadas, malta que rodava de bar em bar, na procura incessante de mais álcool ou companhia amorosa.

Recordo com saudades títulos do Benfica lá festejados, encontros de amigos e canecas, noites de folia e tardes de ressaca...

As causas para o seu desaparecimento são-me desconhecidas. Mas que me dói quando por ali passo, dói. Custa o definhar de que padece, e da sua aparência que todos recordamos... Nada resta. Cabe-nos manter a sua alma viva nas nossas memórias.

A mais ouvida do Alentejo.

 

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A mais perfeita sinestesia da minha já longínqua criancice prende-se com o cheiro a café na casa da minha mãe e o ranfonho falar de um rádio. Audição e olfato em uníssono. Era aquele som constante de música predominantemente portuguesa e de diálogos constantes entre locutores bem dispostos, com a audiência muito participativa, numa manifestação precoce de interatividade que todos os "media" praguejam hoje.

Na minha imberbe inocência, cheguei a pensar que aquelas pessoas que passavam as músicas badaladas nos "Discos Perdidos", que promoviam os passatempos no "Programa da Manhã" e os relatos apaixonados dos embates distritais de futebol, fossem realmente gente que vivia em minha casa, como família. E será isso tão errado? Num distrito onde a mudança é perra e a adaptação a novas realidades fazem ranger os ossos das máquinas do comodismo e da habituação, a voz da Rádio Portalegre dá alegria a quem se fecha, traz companhia e ombro amigo ao idoso isolado, promove cultura e diálogo numa área onde seria mais fácil mudar e seguir a receita pré-fabricada que todas as estações de rádio de maior dimensão seguem escrupulosamente, promove aquilo que é nosso para que não se perca no tempo.

É isto que lhe fornece uma identidade única, singular, que lhe permite subsistir, apesar de todas as contrariedades inerentes a um projeto desta magnitude.

O seu conceito familiar continua a transmitir através de serras, montes e searas há mais de 30 anos.

Fica aqui o meu agradecimento como ouvinte de sempre a todos os profissionais que se dedicam de alma e coração a enriquecer o universo radiofónico, arte considerada menor, a cair em desuso pelas novas gerações. Mas não aqui. A família continua unida.

"- Mãe, vais ligar para a rádio? O Padre Borga! Boa! Dás-me café?"

10000.

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Obrigado a quem lê. A quem partilha. A quem recorda comigo. A quem volta atrás no tempo, sem medo de lembrar o que foi e não volta a ser. Obrigado a quem gosta da minha, da nossa cidade, a quem é positivo, a quem vê o copo meio cheio.

Novidades em breve nesta nossa viagem.

A Escola Industrial.

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Sétimo ano. Puto assustado com o tamanho das coisas. Escola grande, colegas enormes e assustadores. O sorrir de soslaio de que sabia ter chegado "carne fresca". Era claramente um desafio à parte, aliciante pelo desconhecido e temeroso pelo peso da responsabilidade. Já não éramos crianças, e seríamos tratados de acordo com este novo estatuto. Adolescentes.

O desbravar desta instituição escolar assemelhou-se muito ao compreender o funcionamento de diferentes matilhas, de grupos concentrados de gentes de interesses comuns que os faziam funcionar como comunidades independentes dentro de um cosmos partilhado, algo que era pertença de todos e de ninguém ao mesmo tempo.

A Varanda, terreno marcado pelo cabedal e pela ganga, peles que cobriam criaturas de fartas cabeleiras e de vozes guturais descompassadas. Não toleravam a presença de outros lugares comuns estudantis, atraindo por vezes incautas vítimas para uma sessão de demonstração de poder, a famosa "rodinha", onde eram pontapeados os "intrusos", num claro aviso para as restantes tribos.

Junto ao campo de basquetebol, habitava um clã de som diferente, não menos pujante e atraente, o "hip-hop" que ganhava os primeiros fãs. Aqui todos eram bem-vindos para um desafio de 3 para 3 com uma bola "Spalding" com ar a menos de dono incerto, imperando o rei Ibra como chefe máximo da comunidade.

Junto ao bar, na garagem escolar, ecoavam ao longe os sons motorizados do grupo que por aqui fazia vida. O tema de conversa tinha sempre como ponto comum as motas: "scooters", DT 50, Ténéré, provas de todo o terreno, subir a Rampa e passeios em grupo, primeiros voltas que serviam muitas vezes para levar a casa aquele interesse especial, o carinho, o princípio de amor que punha o motor coração a mil suspiros à hora.

Na frente da escola, junto à grade que separa este mundo do real, habitavam os desafiadores, os rebeldes. Atos de rebeldia embutidos em pequenos tubos de tabaco, quando fumar era ainda considerado como algo que só o pessoal "fixe" fazia. Alunos mais velhos davam umas passas no seu "status" social, lado a lado com professores de olhar resignado... Que seria feito desta juventude?

Seja a que grupo pertencesses, ou se fosses simplesmente um indigente como eu, recordas estes tempos nesta escola. Com corpo docente exigente, mas interessado no nosso desenvolvimento. Dizem que por lá tudo permanece igual. E se por lá passarem, podem confirmar se ainda cheira a gasolina queimada, se se veem as nuvens de fumo branco à entrada, se se ouve o LL Cool J no campo e os Whitesnake na Varanda...

E tu? Qual era a tua tribo?