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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

A Portagem.

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A verdadeira aceção da palavra "portagem" pretendia separar, diferenciar margens, culturas. É hoje algo quase ultrapassado, olvidado por planos duma Europa comum, aberta no conhecimento, dada à partilha e ao bem comum.

Mas uns quilómetros antes, bem perto de São Salvador da Aramenha, no último reduto português antes da grande e quente Extremadura espanhola, guardada lá no cimo pelo castelo marvanense, encontra-se a Portagem, de maiúsculas pela sua importância no turismo e na qualidade de vida que proporciona a quem os visita.

A Portagem faz inveja a outros centros turísticos do país pela sua concentração de serviços essenciais para quem quer passar um dia em família perto do rio Sever, para quem pretenda tirar as fotos sensação de redes sociais, para quem vem para se deliciar com a gastronomia e aproveitar bom tempo que aqui impera de primavera e verão.

O seu Centro de Lazer engloba diversos serviços que têm como função servir quem o visita, com qualidade, prontidão e com preços acessíveis. Três piscinas, servindo adultos e crianças, e ainda uma que dá banho de rio. 

E a vista? Árvores enormes albergam as sombras, abrigando os turistas no conforto das suas mesas e bancos, que sabem bem receber, sempre com a limpeza e apresentação que este sítio idílico merece. A relva, de cor verde vivo todo o ano, aconchega e recebe portugueses e espanhóis. Convém é chegar cedo, pois os melhores locais são marcados bem cedo de manhã. As melhores coisas desta vida são grátis, mas envolvem algum sacrifício e menos uma hora de cama pela manhã. E bem que vale a pena. E lá em cima, Marvão. Não será preciso dizer mais nada, pois não?

Anfiteatro para concertos e bailes animados, polidesportivo para eventos para os mais entusiastas do futsal, do ténis ou de qualquer outro tempo passado entre amigos numa competição saudável, parque infantil para o gáudio dos mais novinhos, vários restaurantes e bares nas imediações para suprir necessidades de barrigas a dar horas ou de bocas sequiosas, eventos que ligam a cultura e a religião, onde a história se mistura com o presente.

Antigamente separava países. Hoje em dia, a Portagem une povos, cativando pelas infraestruturas e arrebatando pelo bem receber, como só o alentejano sabe fazer.

O Quiosque dos Assentos.

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Os residentes do bairro tinham uma relação muito especial com este pequeno quiosque verde, reformado de azul muito anos depois, antecedendo o seu declínio e encerramento.

A romaria ao Quiosque do senhor João, ele próprio uma figura icónica do bairro e do seu valoroso trabalho no comércio do bairro, adoçando-nos a boca há décadas, tinha dois momentos em que dividiam a azáfama do pequeno ponto junto à primeira paragem de autocarros.

Pela manhã

O menino, de mães e pais acompanhados, pediam uma carteirinha de cromos da caderneta de futebol da época, na esperança de encontrar o autocolante raro que serviria de inveja a todos os colegas. O cromo nunca colado, muito exibido e fartas vezes roubado...

A adolescente, que se enamorava pelas capas da Bravo, onde as "boybands" eram estrelas, partindo corações e fazendo suspirar as imberbes catraias, acompanhadas de pulseiras e outros adereços de cores garridas, que as faziam lançar-se em súplicas maternais para gastarem 500 escudos em fotos de rapazes e artigos sobre o mundo glamoroso do entretenimento.

O residente pendular do bairro, que comprava as notícias do dia para se atualizar sobre o país e o mundo na pausa para café ou então no fim do dia. Isto numa época onde a informação era escolhida e selecionada, obrigando-nos a procurá-la, sem sermos alvos de ataques sensacionalistas de pseudojornalismo... Outros tempos, diz aqui o cota.

O dedicado reformado, que dava a sua volta matinal, encontrando os seus pares neste verdadeiro ponto de encontro de gerações, pedindo uma água fresca para aligeirar o calor, ou um chocolate quente que aquecia gargantas e almas, sempre acompanhados de um sorriso e dois dedos de conversa simpática.

Pela noite

Adolescentes, mais rapazes que raparigas, juntavam-se no Quiosque para um momento de cavaqueira e confraternização entre ruas, depois de acalorados jogos noturnos no Poli dos Assentos. Ali esqueciam-se os lances duvidosos e as porradas distribuídas ou recebidas dentro de campo. Havia uma aura de tranquilidade e sossego enquanto se saboreava um Epá, ou para os de finanças menos abonadas, os famosos rebuçados frutados de um escudo, que se lambuzavam pelo plástico envolvente de açúcar derretido.

No Carnaval, o rei dos disfarces, bisnagas e bombinhas de mau cheiro tinha aqui o seu reino. Num espaço tão exíguo, que pouco parecia albergar, registava uma panóplia considerável de artigos para a folia. Era como se assistíssemos ao perfeito jogo de "Jenga", a alguém que seria certamente o melhor representante na arte do "Tetris" dos produtos. Bastantes patifarias sem maldade foram feitas por essas ruas dos Assentos durante a noite...

Enfim, a arte de bem servir, receber e tratar foi levada à perfeição neste pequeno espaço de dimensão mas enorme de coração. Obrigado ao senhor João pelas boas memórias que nos deixou e pela marca positiva que teve na vida de toda a gente que fala com saudade do tempo em que comprar um gelado ou uma revista era acima de tudo um ato de socialização. 

A Mercearia de Marvão.

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O grande poder dos quase extintos locais comerciais que agora são reavivados um pouco por todo o lado é o portefólio de produtos que parece não ter fim. Espaços geralmente exíguos, de tetos baixos, apresentam num aparente pânico ordenado o quilo de sal que se deixou acabar, o sabão que não se adquiriu na última visita à cidade para deixar a roupa à cora e o garrafão de azeite que não se comprou à vizinha da mercearia. A gestão de "stock" devia ser dos diabos...

E é neste conceito básico de servir toda a gente com tudo, misturando cultura, produtos do dia a dia e bem receber que nasce e prolifera a Mercearia de Marvão. A aposta não terá sido fácil. Ou então terá sido a opção mais fácil dos seus proprietários...

Marvão, a "Mui Nobre e Sempre Leal Vila", de castelo protetor do Alto Alentejo, clamava por um negócio desta índole. E na visão de empreendedores guerreiros, cerraram fileiras, e propuseram-se a servir uma população envelhecida mas cheia de vigor e iniciativa nas suas necessidades mais prementes, mas fornecendo também a quem os visita outro tipo de alimento que tem importância derradeira: alimento para a mente.

A Mercearia e os seus obreiros não interpretam certamente este seu filho imóvel como algo puramente económico. Manter identidades e registos que desvanecem como ampulheta que finda a sua areia são decerto parte importantíssima desta aventura.

Apoiando sempre o produto regional, a Mercearia é já um ícone alentejano, reconhecido pelos seus e por quem visita a vila mais bonita do mundo.

Divulgando e apoiando as iniciativas locais, e criando as suas próprias, a Mercearia de Marvão tornou-se uma com a vila, numa simbiose perfeita entre um passado que se preserva e um futuro com os olhos postos no horizonte, até onde a imaginação e a força de vontade conseguirem enxergar. Futuro esse que se prevê cheio de novos produtos com o sabor de antigamente, com um "twist" de algo novo, e sempre com a consciência de que quando se faz algo que se adora, não há limites para o que se possa alcançar, independentemente da altura do desafio! E convenhamos... Vocês já partem com uma vantagem de algumas centenas de metros...

E em boa moda antonina, aqui deixo uma pequena quadra para terminar:

De sardinha e vinho a martelo,

Hoje festeja-se o São João.

Parabéns marvonense Castelo

E viv'á Mercearia de Marvão!

 

(foto retirada do sítio innmarvao.com)

Quando crescer quero ser criança.

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"Quando crescer quero ser criança". Quero olhar para cima para toda a gente, puxar-lhes as calças pelos joelhos clamando por atenção. Quero ser o rei, a rainha e toda a corte de toda a gente, sem dividir atenção ou carinho. Quero ser eu e mais ninguém.

Quero cair antes de andar. Quero gatinhar, muito depressa de mãos assarampatadas no chão da cozinha. Quero andar, pé ante pé, antes de deixar que a vida corra por mim, sempre depressa demais.

Quero ter colo. Quero sentir o calor que o amor emana no regaço da mãe e da avó. Quero ser lançado no ar, voando por segundos, para aterrar em segurança em ti, rindo sempre alto demais, com gritinhos desmesurados mas autênticos.

Quero comer iogurtes. De sabores coloridos. Quero a sopa na colher do aviãozinho, que deambula até ao hangar na minha barriguinha. Quero a chicha cortada, e já de garfo, desobedecer a todas as regras de etiqueta, e comer com a mão o arroz, enquanto metes as mãos na cabeça pela confusão causada na tua imaculada cozinha, mas de sorriso disfarçado.

Quero rir com caretas tontas, repetidas sem cansaço. Quero o "bichinha gato" quantas vezes for humanamente possível. E depois quero mais uma. Porque sei que o farás por mim. Quero chorar porque algo me dói, por que estou mal, ou ainda porque estou sem paciência para tias que apertam bochechas e me sufocam com beijos.

Quero bater com força nas mesas, nas cadeiras e nas vossas cabeças, porque estou feliz, e como ainda não falo, é assim que expresso o bem que vocês me fazem. 

Quero morder tudo o que apanho. Porque os dentinhos são uns chatos, e porque se não morder tudo, não saberei o que é bom, mau ou proibido para mim. Quero experimentar; não quero uma redoma à minha volta.

Quero que brinques comigo enquanto eu quiser. E quero que me faças brincar contigo quando eu deixar de ter vontade.

Quero acima de tudo que me faças feliz, por que eu sei que se estiver bem, tu estarás bem comigo.

"Quando crescer quero ser criança." E que bom é crescer nunca esquecendo essa criança que sempre fui.

A Praça de Touros.

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Não vou emitir juízos de valor, nem personalizar o que penso sobre aquilo que toda a gente pensa sobre este edifício com mais de 80 anos e a sua função. Não lhe vou chamar arte, nem chamarei abominação sobre o que aqui acontece. Não usarei o escudo da tradição que deve ser mantida, nem a arma de arremesso utilizada por grupos de apoio às vidas dos animais.

Pretendo celebrar a sua importância, aquilo que já representou para a nossa cidade. Nada mais. Quem acompanha este "blog" sabe que tenho uma vertente positiva em tudo o que escrevo sobre Portalegre, sobre as suas gentes, sobre os seus edifícios e instituições. Este "post" não será exceção. 

Localizada na Herdade da Misericórdia, nos arredores de Portalegre, propriedade do homem que lhe dá nome, a Praça de Toiros José Elias Martins foi em tempos um centro dinamizador de riqueza e atração para a cidade. Esta Praça, de segunda categoria, só ficando abaixo das maiores Praças do país, tem uma lotação considerável de 5000 lugares.

Recordo-me de com 8 anos ter ido à boleia do meu padrinho assistir a uma tourada neste recinto. Apesar de não me lembrar da verdadeira razão de lá ter ido, pois não recordo nada do que se passou na arena, fiquei encantado com as pessoas. Muitas mesmo.

A romaria a Portalegre na altura tauromáquica era algo que impunha respeito, unindo gentes de diferentes estratos sociais. O agricultor que vinha da terreola para vivenciar o espetáculo. O ganadeiro que vivia a festa como ninguém. O "hermano" espanhol que apreciava uma diferente forma de viver e fazer touradas. A mulher, vestida a rigor, lembrando Sevilha e suas danças. 

A música era uma constante nas imediações da Praça: vozes espanholas, com almas "gitanas", palmas compassadas, e a palavra mais utilizada que acabaria por romper convenções e se espalharia para muitos outros universos bem diferentes dos da tauromaquia, "Olé!", com força na garganta, cheio de "salero".

O petisco estava também representado nas barraquinhas que cercavam o edifício, com a típica sardinha assada de pele crocante no pão alentejano com pingo generoso, a carne grelhada pincelada a loureiro, o frango assado no carvão que nos enchia daquele cheiro a fumo que dá vontade de inalar, como se nos alimentasse.

E depois a entrada no recinto. De portas altas, o pequeno eu sentia-se assoberbado pela sua grandeza. O barulho que ecoava assustava e prendia em iguais medidas. A excitação era inigualável para o Paulo de 8 anos, mão dada e apertada com força, e boca aberta em regozijo.

Já sentado no meu lugar, ao sol, "pois aqui gozamos do sol e do espetáculo, aqui fica o genuíno aficionado", alguém dizia claramente emocionado com a sua presença naquele espaço. Como já referi, não liguei nenhuma ao que se passava naquela circunferência de terra fina. Passei o tempo todo a observar as pessoas e a vivenciar o espetáculo pelos seus olhos. Os bocas abertas, estarrecidos por uma manobra a cavalo, talvez. Os que mordiam as unhas, no nervosismo que cala todos antes de uma pega. Os vociferantes, que vibram com tudo o que se passa, seja pelo amor que sentem pelo que estão a ver e sentir, seja pelo excesso de álcool que tinham no organismo...

No fim, uma saída apressada entre empurrões e comentários sobre as prestações dos diferentes intervenientes. Mas no geral, havia a comunhão de um dia bem passado.

Como outras, esta é uma discussão válida e que merece e precisa ser aprofundada. Mas sempre exigindo respeito pelo que o outro pensa.

Eu cá gosto, sim, de coisas que façam Portalegre gostar dela própria. 

A ESTG.

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Na multiplicidade de centros educativos presentes na nossa cidade, um grande edifício, de "design" arrojado, saúda-nos na periferia da cidade.

A Escola Superior de Tecnologia e Gestão faz desde há anos uma aposta clara na formação em áreas de grande dinamismo e cooperação, acolhendo os engenheiros de amanhã, os projetos de empreendedores da área digital, os "geeks" com valências no vasto reino da informática, os futuros "freelancers" da criatividade publicitária, os génios dos números que têm de ser geridos, bem como o desenvolvimento de gente capaz para fazer crescer o emergente mercado dos biocombustíveis.

Há quem recorde esta instituição como o parente pobre do quadrado superior do distrito. A escola e os seus docentes eram associados a uma ideia de facilitismo, de uma última oportunidade para o típico "baldas", que anseia somente por uma oportunidade de passar alguns anos fora da alçada parental. Nada mais errado.

A realidade destrói o desprevenido. Rigor, qualidade e exigência regulam o seu funcionamento, bem como regem os seus cursos. Pouco a pouco, essa ideia preconceituosa foi mudando, e a ESTG torna-se finalmente aos olhos de todos uma notável forra de inegável reconhecimento nacional e internacional, premiando a inovação e a excelência, colhendo hoje os louros dessa persistência.

Cursos que esgotam as vagas, taxas de empregabilidade altíssimas, a dádiva da oportunidade de quem não pôde estudar e mais tarde decide investir na sua formação. Dezenas e dezenas de amigos e conhecidos que são hoje profissionais de referência comprovam o valor que lhe é merecido.

O rumo estava traçado, e apesar dos obstáculos que foram tentando abrandar a escola, ela arrepiou caminho para um presente fundamentado e assente num futuro que se adivinha ainda mais brilhante. Pelos vossos serviços à nossa cidade, cada vez mais reconhecidos, obrigado. E a minha barriga também agradece pelos anos passados na festa que marcava o final do ano, de porco assado para todos!