Amor em tons de azul.

Com dez anos não tomamos escolhas conscientes. Deixamo-nos ir, somos influenciados. Por vezes decidem por nós. Mas há algo em que acredito piamente desde tenra idade: a predestinação é algo real, palpável e decisivo no percurso sinuoso que é viver.
E o que tem isto a ver com o Grupo Desportivo Portalegrense? Sim, foi este que representei como jogador e é assim que me vou referir neste "flashback" da minha vida. Tem TUDO a ver. Porquê? Passo a explanar.
Dez anos feitos e o amor pela redonda já exalava por mim em todas as gotas de suor que banhavam os meus recreios, fins de tarde escolares e dias inteiros de pausas letivas. O futebol de rua era perfeito para mim porque, como puto tímido que era, representava a socialização que me faltava, a interação com os meus pares de ténis rotos que almejava, sem passar pelo martírio de ter que me dar a conhecer.
Dentro do campo com balizas improvisadas tudo era mais fácil para mim. Podia interagir com os colegas que me achavam já um bocado esquisito, naquele sentimento de pertença que só a união do balão pode trazer. Podia mostrar que era útil perante os outros e perante mim. O não entender porque se é diferente pode mexer muito com a cabeça duma criança. E ali, enquanto o jogo durasse, eu era mais um do bando, alguém em quem podiam confiar.
O talento era quase nulo, mas o que me faltava em capacidade de controlar a bola, sobrava-me em empenho. Sempre gostei de dar tudo a jogar futebol, mesmo que esse tudo não fosse muito. Era o que eu tinha para dar. Um colega decidiu ir prestar provas ao GDP, e para não ir sozinho, levou-me. Não foi fácil convencer a dona Felismina de que aquilo seria bom para mim. Anuiu, a custo, e lá fomos nós, pelo meio do olival que separava a selva de betão à areia dura do pelado.
Apesar do mau estar inicial e de diversos primeiros olhares desconfiados, assim que a bola começou a rolar... Senti-me bem. Em casa. Sorri durante oito anos de GDP ao peito. E apesar de não ter conseguido ganhar nenhum título, pois a geração que nasceu debaixo do Plátano era realmente muito boa, e onde tenho grandes amigos, sempre me senti um vencedor. Ganhei valores como humildade e a vontade de trabalhar, que me moldam ainda hoje. Tenho amigos desde essa altura que ainda trato como irmãos. Guardo maravilhosas recordações desses anos que me enternecem e divertem a cada reconto das mesmas entre amigos. Eu vi o GDP ser campeão nacional, caramba!
Ser do Desportivo é isto. Mais do que ganhar títulos, forma homens. Mais do que o lucro, fomenta-se a união e o espírito de entreajuda. E por isso é tão satisfatória ver hoje em dia, quase em exclusivo, atletas do clube, retirados ou não, a darem o exemplo que lhes foi transmitido por outros homens. Seja em estruturas técnicas dos diversos escalões, seja na própria direção, dinamizando o nosso clube em prol de todos nós que o amamos. As pessoas não são as mesmas, o clube mudou de nome, mas o sentimento é o mesmo. É esse sentimento que nos torna diferentes e invejados.
Fica o meu muito obrigado à coletividade cheia de homens que forma homens, de calor em lances disputados, de bravura em momentos em que desistir e fechar portas seria mais fácil, de almas eternas, QUE NUNCA MORREM!



