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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Amor de cimento.

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Imaginem que têm um móvel. De pequenas gavetas, onde tudo tem que ser sempre muito bem arrumado, pois o espaço limitado define o que podem ou não ter. Agora definam que cada gaveta tem algo diferente. A organização é vossa, da vossa gaveta. Mas todas as outras gavetas estão cheias de outras coisas, que não vos pertencem e que, obviamente, desconhecem. Estranham. Pensam em despejar a vossa gaveta e talvez arranjarem um armário só para vocês. Mas o material de arrumação está caro e isso não é uma opção viável para vocês nos próximos cinquenta anos.

Analogia parva? Talvez. Mas para mim isto capta um pouco da essência do que é viver num prédio.

Nunca conheci outra realidade. A vida a partir do momento de que me lembro sempre aconteceu no segundo esquerdo da última rua dos Assentos.

Acordar com o despertador do vizinho de cima, tentar adormecer com os gritos de discussão acesa no andar de baixo. Viver verdadeiramente em comunidade.

 A chávena de farinha ou açúcar que se pedia descendo ou subindo as escadas. Os odores que emanavam e invadiam o prédio vindos da gaveta no rés-do chão, a erva doce das broas e as frituras das azevias. O vizinho que se temia, não por ter feito algo que nos fazia pensar assim, mas porque pensava o mesmo que nós, por não se dar a conhecer, vivendo numa varanda ou por trás de uma janela, desejando estar ali connosco, num dos inúmeros jogos de bola.

Os tijolos que dividiam cada diminuto espaço familiar abriam-se para manhãs de jogos em consolas velhas em manhãs de chuva nos fins de semana de escola, em jogos de cartas em vãos de escadas, que eram o mais fresco que se encontrava no verão tórrido do bairro.

As conversas de varanda para janela, quando a melhor rede social envolvia a presença de todos os intervenientes. Os fios com balde que passavam informação, bebidas frescas e animação, para cima e para baixo dos varandins onde se vivia a partir das nove da noite, pois a televisão tinha dois canais e as mães não abdicavam da Porcina e do Zeca Diabo...

Tantas outras memórias ficarão certamente por contar em cada uma destas gavetinhas cheias de pessoas e histórias. E não serão esquecidas. Porque o que as une é tão forte como o cimento que as constrói: amizade e amor.

A Ti Emília.

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Mulher rija de coração mole. Sempre assim a conheci. Desde novo que nos habituamos a vê-la pelo bairro dos Assentos, seja na sua motorizada ruidosa, sempre carregada de sacos na frente e na traseira, seja a pé, com legumes em sacos de plástico, com peso que envergonharia qualquer culturista.

Mulher de outros tempos, a Ti Emília era muito vista a trabalhar no campo, num pequeno terreno que lhe pertencia a caminho do Ribeiro do Baco. Ficava fascinado, a caminho da escola, subindo aquela barreira interminável que se iniciava na última rua do bairro. A desenvoltura com que manejava ferramentas  tão habilmente, por vezes com mais acutilância que homens de barba rija. O uso da gadanha a cortar a erva que alimentava os animais que tratava com carinho, a foice com que transportava enormes quantidades de feno que serviria de cama para a sua pastorícia.

Sempre só. Concentrada na sua arte, na sua razão de viver, interrompida apenas para dar duas palavras de mimo austero ao imberbe estudante que lhe roubava laranjas. Sempre o soube, sempre ralhou. Transmitia uma espécie de carinho, que nos mantinha em alerta quando nos chamava do alto do seu tom de voz poderoso. De poucos sorrisos e afetos, mas que alimentou com a sua fruta "emprestada" gerações de estudantes que subiam e desciam.

Hoje, voltei atrás no tempo. Esta super mulher, da qual soube sempre pouco, e que nunca me saiu da mente, estava com a sua gadanha a cortar erva para alimentar animais, num outro espaço que penso possuir. Como se não se tivessem passado quase trinta anos.

Obrigado, ti Emília. E saúde para si.