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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

No Mano a Mano.

 

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Ambiente pitoresco, o que nos envolve ainda antes de entrarmos nesta Casa de Pasto. Ao passarmos no fundo da Rua Heliodoro Salgado, é já normal observarmos imensa gente na rua em amena cavaqueira, trocando bafos de conversa e golos de gargalhadas servidos em frasquinhos de cerveja fresca.
Mas a verdadeira experiência na nossa tasca começa quando entramos. Somos imediatamente assoberbados pela rústica pedra longa de mármore, estóica no apoio a imensos braços que se apoiam na sua retitude, segurando o cansado velho reformado que vem petiscar com os amigos, falando de desporto, das suas mazelas de saúde ou apenas para terem desculpa para saírem de casa, bebericando um ou dois copinhos de tinto servidos com um pires de um ou outro enchido, que ajuda a prolongar o diálogo. Segura também aquele operário, o colarinho azul que forma a espinha dorsal desta cidade, que distila uma ou duas médias, momento “zen” do dia, em que os problemas do dia a dia não o atingem. Um refúgio.
A decoração da sala principal não deixa ninguém ao engano: é aqui nutrido um amor maior por uma instituição que rege as emoções do proprietário. O senhor José Manuel Estorninho diz a todos que o queiram ouvir, e a todos os outros também, que o Benfica é de uma importância fulcral na sua vida. E como muitas vezes acontece, a vida intensa e de horários sobre-humanos levam-no a interpretar aquela como a sua primeira casa. E ali criou um ambiente familiar, de júbilo, homenagem e regozijo ao seu clube de coração. Sofre como poucos, festeja como ninguém.
Homem reto, direto, sem contemplações nem papas na língua, faz com que seja respeitado e admirado, até por pessoas de outros gostos clubísticos...
O Mano a Mano faz isto: une quando podia separar, faz gostar quando era fácil menosprezar e odiar.
E à volta do homem coração que é a alma do espaço, vive um fiel grupo de clientes. Não, de amigos. De diferentes espectros, idades díspares, ali todos se encontram e todos se conhecem. Estão convidados a conhecerem este mundo dentro da nossa cidade. O Zé lá estará para vos receber com dois dedos de conversa e uma bebida fresca.
Só não falem mal do Benfica!


Enviado do meu iPad

Os novos Cruzados.

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Não me considero a pessoa mais crente. Seja no que for. Nas pessoas, em entidades envoltas na neblina da dúvida, no governo. Nem acredito muito bem no que vejo, porque os nossos olhos e cérebros pregam-nos partidas à medida que os anos passam.
Mas prezo muito quem acredita. Invejo até. O acreditar em algo, de forma tão forte, inamovível e com tanta dedicação fascina-me.
Aqui entram os peregrinos. Calcorreando o país, munidos de mochila, ténis confortáveis e muita, muita fé. O objetivo é certamente a chegada, a visita à Sua Senhora. Mas este caminho percorrido à custa de muitas bolhas, intempéries, noites mal dormidas e aparente desapego por famílias é certamente muito mais do que um simples registo dum caminho do ponto A ao Ponto B.
Refiro-me aqui à ligação criada entre as pessoas que partilham este caminho de Fátima. O apoio que providenciam uns aos outros, sejam amigos de longa data ou familiares, ou perfeitos desconhecidos que encontram no ombro de alguém o conforto e a força para superar mais um dia de caminhada extenuante.
A logística criada por outros crentes que ajudam outrém a ajudar-se é de uma generosidade que toca a mais fria das almas. Um chá quente, uma refeição retemperadora, aquela massagem nas pernas fustigadas, o canto duma casa para espalhar ao comprido o corpo no pouco confortável saco-cama. Todas pequenas coisas, pequenos gestos que fazem toda a diferença.
O caminho faz-se caminhando bem cedo, entre serras que sobem ao céu, no meio de estradas demasiado estreitas para comportarem peões, com rezas e canções e gargalhadas que animam aquele que teria pensado em desistir. O caminho termina sempre tarde, depois de umas boas dezenas de quilómetros ultrapassados, sempre de bem com a vida e com Deus, apesar das agruras que o caminho da vida lhes pôs.
O que mais me surpreende? Numa sociedade presa ao dinheiro e às mesquinhices da pequenez humana, onde o material é sempre interpretado como mais importante que o espiritual, encontramos estes nossos cruzados nas suas demandas, cumprindo as suas promessas. Mas quase sempre levam recados de outros, encomendas de queima de velas e promessas de quem já não consegue cumprir este caminho. Esta é a verdadeira forma de ser do Peregrino. Agradecer por si, mas essencialmente agradecer pelos outros.
Força nas sapatilhas, caros peregrinos. E que a fé vos acompanhe sempre.