Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Farinha, água, açúcar e amor.

IMG_20190810_110730.jpg

 

São as coisas mais simples que nos encantam, são os momentos mais inesperados que recordamos quando fechamos os olhos no fim do dia, ao fazermos a retrospectiva da jornada. Pelo menos comigo é assim. Enquanto outros se repastam em momentos “gourmet” da vida, eu mais mundano me confesso. Coisas de gente de bairro. Roupas genéricas, tratos afáveis mas sem exageros, comida reconfortante com o essencial que a terra e a genialidade humana, no seio das suas dificuldades alimentícias, criaram.

O povo alentejano será o epíteto máximo do aproveitamento. “Nada se estraga, tudo se transforma”, diria o Lavoisier, se tivesse nascido ali para os lados da Urra. Quem não teve uma avó, um tio, um vizinho assim? Que se zangava com a fatia de pão que ficava verde fungo?

Numa época de consumismo desenfreado e desperdício desmesurado, teríamos muito a aprender com o povo que viveu e cresceu há algumas décadas atrás...

Voltando ao propósito do texto, finalmente: adoro massa frita, brunhol, farturas. Chamem-lhe o que quiserem. Prefiro  a nomenclatura “massa frita” porque é simples, como eu, sem atalhos ou subterfúgios. Diz o que é, sem falsas pretensões ou desígnios enganadores. É quase um nome científico. “Mistura heterogénea entre o cereal e H2O, auxiliado pelo contacto com o óleo vegetal a altas temperaturas”.

Tenho gratas recordações de comer esta pequena bomba calórica, que continua a adocicar-me o coração e os valores da diabetes. 

Da casa da avó ao largo das camionetas, onde estava a pequena barraca de lona verde, era um caminho longo e tortuoso para uma criança esfomeada num sábado de manhã. Apenas neste dia se reunia a aldeia em volta do tacho enorme. 

Seguia-se a espera, em longa fila, de conversa entre vizinhos, do jogo de futebol do fim de semana, Caia - Urra, da Ti Maria que estava entrevada em casa, coitada. 

Não conhecia ninguém. Os sons eram abafados pelo crepitar do óleo, enquanto o mestre fritador, de máquina de alumínio, esguichava a mistela para dentro do tacho de forma perfeita, concentrada, num movimento que me hipnotizava de cada vez que o fazia, criando circunferências cada vez maiores, maiores, lembrando cobras enroladas à sombra, ou um padrão caleidoscópio que nos prendia o seu olhar. 

De vez em quando saía-me a sorte grande. Tinha direito à “cabeça”, pedaço maior, mais grosso e menos perfeito. Que prémio perfeito para o início do meu fim de semana no campo, nesta caçada semanal. 

Polvilhando de açúcar e canela, neve branca e castanha que torna tudo na vida mais fácil...

Na Urra já não há. Há na Praça. Vou de vez em quando reavivar velhos tempos nesta nossa nova realidade. E sabe-me tão bem como antigamente. Já não me calha a cabeça, mas fico bem com o café de saco. 

E tu? Que memórias te trazem a farinha, a água, o açúcar e o amor?

Festas dos Alvarrões pela voz de uma festeira.

received_352776378957869.jpeg

IMG_20190803_222044.jpg

IMG_20190803_232229.jpg

 

 



Amo a minha terra que me viu nascer, que me deu ensinamentos que carrego com orgulho para a minha vida. Nos Alvarrões aprendi com o trabalho no campo das pessoas, que a humildade nos faz melhores, mas não melhor que ninguém. Com a minha mãe aprendi a gostar de mim, e assim a poder gostar dos outros. E com a união, perseverança e uma pequena dose de loucura para organizar uma festa que move a comunidade, aprendi que o trabalho em equipa é fundamental para o sucesso.
As festas em honra do Santo padroeiro são sempre o ponto mais alto de qualquer terra. E a minha não é exceção. As festas em honra de Nossa Senhora da Conceição monopolizavam toda a minha atenção de gaiata.
Volto então atrás no tempo. Desaparecem as preocupações de adulto e restam apenas as alegrias de se ser menina e moça. Costuma dizer-se que a festa começa muito antes da festa. E eu como festeira sei-o bem. Ao entrar no recinto, ainda despido de infra-estruturas, espinha dorsal deste organismo vivo, reajo de forma pavloviana: os meus dedos ganham vida própria e iniciam automaticamente a enrolar pedaços de papéis de quantas cores tem o arco-íris. A quermesse assim obrigava, e as noites antecedentes à festa eram passadas assim. Numa roda de novos e velhos, em cavaqueira de pão e queijo partilhados, de garrafa de licores giratórias e de vinho novo do vizinho, milhares de rifas eram preparadas como se de máquinas nos tratássemos.
Rifas feitas, precisávamos de prémios. E aí íamos nós, os mais novos e sem vergonha na cara, para a Rua do Comércio pedir de sorriso rasgado às lojas que inundavam a mais icónica rua portalegrense: roupa fora de estação, loiça ultrapassada, sapatos com menos saída, recebíamos de tudo. E isso era o que fazia da nossa quermesse um verdadeiro sucesso. Nunca se sabia o que poderia calhar na rifa, literalmente...
O embelezar dos andores. Ui, que recordações. As flores eram ofertadas com gosto, fosse por floristas ou pela velhota da aldeia. Todos tinham prazer e orgulho em contribuir para a ornamentação dos expoentes máximos da nossa procissão, verdadeiras operações cosméticas florais que tornavam os nossos quatro andores os mais bonitos do distrito, sem qualquer dúvida.
A procissão. Algo a que aprendi a dar valor e importância mais tarde. Símbolo máximo de devoção e crença, acreditando que o que tive e tenho, a essa crença o devo.
Mas o melhor de tudo era a festa em si. Quando o céu se pintalgava de negro e o frio da serra começava a soprar, estava na hora de trabalhar. E de me divertir. Nunca a expressão “ trabalhar com gosto” fez tanto sentido para mim. Inocência de criança...
Nas minhas festas, prendíamos primeiro as pessoas pela tradição e pela adrenalina. As afamadas garraiadas dos Alvarrões nunca desiludiam, seja na qualidade das pegas, onde os mais conhecidos forcados de ocasião se digladiavam com máquinas de carne de quinhentos quilos a todo o vapor na nossa praça, fosse no apoio que lhes era dado pelas centenas de pessoas que lá estavam, todas procurando um pouco de ação.
Passada essa descarga de emoções, a barriga dava horas. E é aqui que entrava e ainda hoje entra o nosso ex-libris gastronómico: o leitão frito. O cheiro assola-me neste momento. Portalegre em peso deslocava-se à minha terrinha para saborear este delicioso pitéu, sempre bem acompanhado de cerveja e vinho e animação. Mesas longas, corridas, cheias de animação, de partilha entre desconhecidos ou de reencontros de famílias separadas pela distância a que o emprego obriga. E os festeiros, numa azáfama desconcertante, num corrupio de pedidos, de trocas de barris, de frangos assados por entregar, de salsichas em carvão fumegante, de venda de senhas e contas feitas à mão em papel manteiga.
E para queimar as calorias ingeridas, nada melhor que dançar música popular portuguesa até o dia raiar. Onde os novos se fazem foitos para pedirem àquela menina gira se querem bailar uma moda, onde os velhinhos recordam tempos que já não voltam, entre searas e pastoreio.
Nos Alvarrões festeja-se à antiga, sem grandes mudanças ou evoluções. Tem-se orgulho nas suas origens, naquilo que faz de nós especiais, únicos.
Este fim de semana lá voltei. Vi os meninos e as meninas da terra, cada vez menos, devidamente identificados com as camisolas dos festeiros. Bateu uma saudade... Quis voltar a ser cachopa e ajudar nas mil coisas que há para fazer. Mas percebi que o futuro das minhas festas está assegurado.
Amo as minhas festas. Amo a minha terra. Quadro pintado de tempos idos, que permanece imutável. E ainda bem que assim é.
(Obrigado pelas três papaias, festeira Filipa!)