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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Dá-me valor.

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Não devia ter que o pedir, mas aqui vai: dá-me valor. Entende que o que fiz por ti, fiz por amor. Porque me foste destinado, desígnio sagrado. Porque sempre te amei, sempre quis fazer de ti alguém feliz, bem formado e preocupado com quem já foi grande na vida e agora mingua um grão de tempo de cada vez.

Dá-me valor: os teus pais tiveram que sair. Uns porque a vida estava dura e tu ias atrapalhar o coalhar de tostões para voltar. Outros porque eras apenas um empecilho num encontro a dois não desejado, fruto de uma noite em que se desenvolve uma vida. Outros ainda que te desejaram mais que tudo, e que te partilharam na alegria do celebrar da tua vinda.

Em todos estes mundos alimentei-te com aquele iogurte que insistias em deitar fora, naquelas fraldas mudadas que cheiravam a tudo menos a iogurte. No eterno abraço de um adormecimento com uma ladainha que já era cantada por quem me adormecia, nas brincadeiras de cruzes dobradas, em que a dor era suplantada com os teus sorrisos de criança feliz.

Dá-me valor: cresceste em tamanho e em interesses. Sempre te apoiei nas tuas decisões erradas e efémeras de adolescente, indo por vezes contra o que pensavam os teus progenitores, não por pirraça ou porque te quisesse mesmo apoiar, mas muitas vezes por medo que, ao não te apoiar, me deixasses para trás nesta viagem alucinante que és tu a crescer. Com bens materiais te ajudei, mas dei-te bens de coração, bens de personalidade, que te alimentarão o espírito para sempre.

Dá-me valor: és grande agora e grande é a distância que nos separa, apesar de residirmos a meros quilómetros. A estrada está mais cuidada, é mais fácil vires até mim. Mas não vens, a tua estrada está agora cheia de raízes que levantam piso, que não te deixam vir até mim. Tem apenas uma faixa que te leva para longe de mim, de tudo o que vivemos. O piso da tua estrada é irregular, e a única regularidade é estares noutro lado e não aqui. O tempo passa, e eu não te vejo, nem aos teus, nem à tua família que agora formaste.

Mas nunca te esqueças: um dia serás como eu. Velho, cansado, aborrecido, com tanta coisa por dizer sem ter a quem. Sem te ter a ti.

Por isso... Vou eu até ti. Palmo caminho para te ver, por mais duro que ele seja, por mais árduo que possa ser para estas pernas cansadas de uma vida inteira a ir ao teu encontro. Por mais que me ardam os pulmões do esforço desta velha figura, e que me doa a carcaça que guarda esta alma eternamente enamorada de ti.

Nunca te esqueças: dá-me valor. Como eu te dou a ti.

Noventa Invernos.

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O tempo não para. Por mais que o tentemos acelerar nos momentos que nos custam a passar, ele não cede. Se o tentarmos abrandar, na vã expetativa de prolongarmos aquele pedaço de vida que se quer eterno, ele voa por nós, inexorável.

E em noventa invernos houve muitos que pareceram durar o tempo que o tempo quis, bem mais do que aquele que nos seria justo. O trabalho foi sempre muito, no meio do campo lavrado, das mãos gretadas pelas ferramentas usadas a contragosto, mas sempre sem facilitar, pois a certeza duma estação vindoura mais acolhedora fazia o mais inóspito homem do campo lançar-se no raiar do dia gelado em lides que afugentavam corpos mais inertes. O trabalho tinha que se fazer, inverno a inverno, cada vez com mais lentidão e menos certeza nos movimentos, com a curvatura da espinha dorsal com maior ênfase, como que se homenageasse a terra em sinal de obediência a quem lhe deu pão, teto e calor.

E eis que veio o inverno em que não houve mais invernos de labuta. As pernas enregelaram, subindo pelo tronco um frio que o tempo trouxe, que sempre traz. As mãos encarquilharam, como ramos secos que se desprendiam da foice e da pá. Chegou o tempo do inverno ser para curar as mazelas ao lume, contando vidas de outra vida e deixar um testemunho para quem fica, de que o ano termina no mais profundo inverno, mas que a seguir a ele vem a esperança primaveril que nos faz começar mais uma vez de novo a cada 365 dias.

Os invernos são noventa. Mas os atos de amor e compaixão que os aqueceu são muitos mais.

Feliz inverno noventa e um.