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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Corações de fumo.

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O reboliço que fervilha dentro das tuas casas de máquinas sempre fascinou o catraio Manuel. Desde que largou o cordão umbilical e teve força para se agarrar às saias de sua mãe, dependurado, enquanto a mãe entrava ao batente. As tuas portas imponentes, de verde esgarrado, recebiam todo um mundo bem cedo pela manhã para deixar um outro pela altura em que o sol dava por terminado o seu dia de lavoura. Manuel conhecia-as bem. Demasiado bem. A escola nunca foi uma hipótese, e Manuel ia conhecendo ao detalhe o seu destino dentro daques paredes caiadas de branco que tremelicavam com a força do carvão que iluminava mais forte que nascer do sol em Marvão, onde tinhas vindo ao mundo, a meio caminho entre o céu e o teu pai falecido, antes de seres gente para conheceres gente.

Tua mãe era porta para a Robinson. E era na porta que a deixavas e deambulavas, entre passos trocados e corridas de fuça no chão, que aquele monstro se tornou casa, refeitório, ofício, lar. Empinavas-te no topo das carroças que traziam a cortiça por amanhar, e vociferavas aos animais que as puxavam que fizessem um último esforço. As máquinas clamavam por trabalho, inexoráveis. Deste nome a todas elas, numa vã esperança de que elas se afeiçoassem a ti e nunca te fizessem perder algum dedo, num descuido de criança. Afagavas-lhe as correias, válvulas, para que as avarias ou substituição de peças não fossem apenas azedumes ou queixinhas de máquinas com almas cansadas. Festinha a festinha, explicavas ao monstro estagnado que o queijo que ele mais gostava só seria comprado se a mãe recebesse a jorna, e que já estava um bocado cansado das azeitonas salgadas da sua tia. Aquela bilha ainda estava cheia delas; parecia uma fonte que não parava de as multiplicar...

Cresceste, Manuel. Encontraste mulher, que era moça criada em quinta abastada. Vinhas para a cidade a pé, olhando sempre em frente, guiando-te pelos dois corações ao alto que bafejavam fumo, agraciando o teu caminho pelo dia e pela noite, quando voltavas a casa. O que mais gostavas era o cheiro que daquelas torres era emanado. Tanto te diziam. Se ia chover e a samarra tinha que sair da arca em madeira de teus avós, ou se o calor do dia seguinte te faria levar o velho chapéu de palha que teu pai te deixou.

Hoje estás velho, Manuel. Aceitas a palavra. Atribui-te experiência, conhecimento, uma vida inteira de vidas para partilhar. Já não sorris para a Fábrica, porque ela deixou de falar contigo. Já não está moribunda como antes. Morreu. E tu morres com ela, definhando uma rolha de cada vez. Golo a golo, bebes para não recordares tempos que já não voltam, sons que já não ouves, cheiros que já são pó e cinzas.

Volta à vida, Manuel. Deixa que o teu coração se acelere com algo na vida. Mesmo que os teus corações de fumo não bajefem nunca mais.