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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

E se...?

 

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Façamos um pequeno exercício de pensamento rápido. Recuemos dez, vinte, trinta, quarenta voltas ao imaculado Sol que irradia vida. Recuemos os que forem precisos. Larguem as vossas carcaças cheias de vícios e cansadas da mortalidade que tarda mas não falha.  Vão haver apenas perguntas, as respostas serão vossas, pessoais e sempre transmissíveis, para os mais dados a conversas de um passado que tanto parece incomodar e aborrecer os mais novos, que sabem tudo no meio da sua eternidade fingida. Que importância terão mesmo as coisas pequeninas? E serão elas tão pequenas assim? Começamos?

E se...?

E se a vossa avó não vos tivesse feito os pequenos almoços feitos de pão e leite quente, tal como o coração que vos aquece agora a pensar nela? Seriam vocês ainda hoje construídos em partes iguais de falhas e carinho para dar? Seriam os vossos amores-perfeitos, ímanes recetores de energia positiva que vos alimentam com algo bem mais preenchedor que comida?

E se não fossem repreendidos e castigados, seja de lambada, chinelo e vassourada em tempos que insistiam em não perceber o mal que as coisas más fazem? Teriam crescido justos, com sentimento de que a experiência traz cabelos brancos mas também respeito de quem ainda luta para se pôr de pé? A palavra rude no tempo certo fez-vos evoluir para um ser humano eternamente de lágrima no canto do olho, ou para alguém que entende perfeitamente o conceito de amor duro?

E se aquele primeiro beijinho, de olhos fechados e de coração escancarado,  tão puro e inocente de mundos cheios de egoísmo e negatividade, fosse mesmo o primeiro contacto com o amor que se cria com o estranho, com duas almas diferentes que se fundem numa só coisa melhor que todas as coisas...?

E se aquele primeiro pontapé na bola de sapato rasgado não fosse o veículo condutor para quem acaba por crescer de ti e contigo? Se não fosse daqueles meninos franzinos e de olhar envergonhado, que corriam e gritavam ao teu lado, que iriam nascer as mais bonitas amizades que levas deste percurso curto de viver para morrer? Como seria essa infância, de cara grudada na janela, esperando por uma aberta de sol que iluminaria as pedras e o alcatrão do teu/meu/nosso campo de futebol?

Voltemos ao nosso fado de hoje. E então? Haverá quem possa menosprezar o que foi vivido? A sua influência no que nos transformamos hoje com orgulho e naquilo que sempre nos negamos a ser?

Na dúvida, na incerteza, no medo, na insegurança, voltemos a ser aquilo que já não poderemos ser. Nem que seja por momentos. E teremos sempre orgulho naquilo que representamos para quem gosta de nós. Pisquem o olho àquele menino ou menina que ficou lá atrás e abracem aqueles que vos fizeram assim. Não deixem que eles partam antes de o fazer, para que eles possam sentir o bem que fizeram a essas crianças viradas gente grande.

No meu patim de escadas.

 

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Fui visitar os meus pais ao meu bairro. Encontram-se bem. Vemo-nos menos do que queremos, tocamo-nos quase como que por engano, a tentar enganar o vírus invisível que parece ver tudo. Despeço-me, combina-se um almoço onde irmãos se voltam a reunir, onde um sentido de normalidade volta por algumas horas, onde os sorrisos esquecem meses de isolamento e os corações distanciados se aproximam.

Descendo as escadas, uma por uma, fico um ano mais novo de cada vez que pouso o meu pé num novo velho retângulo de mármore. Um por um, sinto-me mais novo, a pele enrija, o cabelo volta a crescer, ouço o riso de quem brinca ao fundo do último patim de escadas.

Tenho dez anos. A vizinhança está toda reunida para mais uma partida de Subbuteo. Bonequinhos que ganhavam alcunhas de jogadores famosos da altura: Cruyff, Zico e Paulo. E Pedro. E Edgar. E Marco. E Sérgio. No patim gelado de mármore branco e azul éramos companheiros de equipa um toque de dedo indicador de cada vez.

Continuo a descer. Os sorrisos intensificam-se e intensificam-me, mais altos, mais prazerosos. Naquele mesmo patim, o cenário é agora totalmente diferente.Vizinhos e vizinhas brincam ao bate-pé. Entre risos miudinhos e nervosos e incitamentos, surge o inocente beijo. Desajeitado e pueril, formam-se novos mundos de descobrimento dentro de corações pequenos que mais tarde seriam transformados em amores maiores que a própria vida.

Desço mais um patim vindo eu do segundo andar, quase a chegar ao rés do chão. Os sons mudam novamente. O riso descontrolado domina as ecoantes paredes dos blocos do Bairro dos Índios. Alguém conta anedotas desbradagamente, saídas de uma qualquer brejeira revista de índole duvidosa. As palavras feias, desconhecidas até agora, ganham importância e descobertas de novos continentes e ligação entre amigos. As palavras perigosas, muitas delas ligadas a mundos que só seriam descobertos mais tarde, são usadas a torto e a direito, como torto era o seu significado para nós, que por vezes não conhecíamos de todo. Eis que a vizinha não tolera tal chorrilho de obscenidades e sai de vassoura em punho, expulsando-nos do nosso fresco pedacinho de mundo em tempos de verão efervescente.

Dobro a última curva para a esquerda e chego, ansioso, ao patim da minha vida. Não vejo nem ouço ninguém. Degraus limpinhos, porta metálica que já não é de madeira. Mas não fico triste. Sempre que quiser voltar a estes tempos, basta-me inspirar de olhos fechados, e lá estou e vocês, amigos, de chinelo no dedo e de dentes à mostra... Sempre.