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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Rebobina e Sintoniza.

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Muito do que fomos e somos foi e é definido pelo que vemos. A imitação é a melhor forma de elogio. Eu não sou exceção. Principalmente no que diz respeito à televisão, que era tratada noutros tempos como formadora de mentalidades, quando apenas dois canais nos traziam mundos fantásticos de outros mundos. Que caixa maravilhosa. No fundinho do nosso Alentejo, num país já ele próprio esquecido por tudo e todos nos anos oitenta e noventa, as esponjas de terna idade que éramos absorviam tudo o que nos era dado a conhecer através daquela tela de vidro fosco e por vezes cheio de formigueiro, de sintonizações com antenas que apontavam para um sol que sempre nos deu mais do que aos outros em verões com dias feitos em noite já depois das 22 horas.

Os meus heróis, os meus modelos eram na altura homens e mulheres que nunca tinha conhecido, mas que eu interpretava como família. Quando a situação exigia coragem, força e heroísmo, o Canal 1 dava-me o Stallone, o Van Damme, o Schwarzenegger e o Ranger do Texas, Chuck Norris. Apanhei bastantes vezes alguns “boguengos” na cabeça por me “armar ao pingarelho”, incorporando um destes homens musculosos, cheios de fibra e de resiliência. O ”caga-tacos” apanhava por isso.

As minhas primeiras paixões foram atrizes de Hollywood, que ficavam logo por trás do ecrã. O meu coração sabia que elas estavam mesmo ali, que falavam só para mim... A Michelle Pfeiffer partiu-me o coração várias vezes e inspirou-me a ser professor de formação e paixão, mas eu sempre a soube perdoar a cada vez que reiniciava a visualização do “Mentes Perigosas”.

Mas sabem quem eram mesmo os meus preferidos, os meus amigalhaços, que me divertiam a mim e à minha família, que se unia no sofá, uns no chão, outro sentados no sofá velhinho e batido pelos anos? De copo sempre cheio e perna de frango devorada ferozmente, derrotava todos aqueles que se atravessavam no seu caminho numa América de cowboys arruaceiros, um. De sorriso rasgado, inteligência acima de todos e um sedutor por natureza, o outro. Bud Spencer e Terence Hill, pois claro. “O Meu Nome é Ninguém”, a saga “Trinity”... Cinema desprensioso, sem mensagens subliminares, apenas pura diversão e ação.

Dava por mim por vezes a deixar de vislumbrar aqueles dois a distribuírem porrada a alguns incautos e a olhar para os meus irmãos a rebolarem a rir no chão de tacos de forma desbragada, a minha mãe a sorrir entre dentes, mais comedida, mas super divertida e o meu pai, que ainda hoje vê filmes como poucos, a deixar-se de seriedades introvertidas e passar a ser só alguém a gostar de “western spaguettis” à antiga.

Sinto falta desse tempos. E também dos meus heróis. Do barulho ensurdecedor que rebobinar uma cassete VHS fazia, sempre com medo que a fita se partisse e a malta tivesse uma despesa enorme para pagar no Trinitá ou o Charlot. Saudades de programar com bastante antecedência a gravação de um filme ou programa que iria ser transmitido, gravando por cima de um qualquer inventivo episódio de “MacGyver” ou dos icónicos “Soldados da Fortuna” dobrado em brasileiro. A urgência de não perder aquele momento, pois não fazíamos ideia de quando se poderia voltar a repetir (mais ou menos um mês depois).

Se fosse a vida tão fácil de recordar e gravar aquilo que queremos recordar para sempre, voltar atrás no efémero e saudosista e passar para a frente aquilo que nos magoou. A fita da cassete é a nossa linha da vida, que avança inexoravelmente até partir. Que parta, então! Mas cheia de conteúdo vivido e que não fique um minuto por viver e preencher. E sempre que puderem, rebobinem a mente, a tempos em que éramos rés de gente.

Do Pinoco até ao céu – Parte I.

 

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Naquele tempo dos tempos passados, interessava era explorar. Pelo menos até que soasse o alarme do segundo esquerdo, no som vocálico que se espalhava por todo o bairro se assim quisesse toda e qualquer mãe numa varanda. Com aquele tom certo de barítono e de irritação pelo atraso à hora de jantar, que se não fosse correspondido o mais rapidamente possível, poderia dar origem a uns cascudos ou a umas sacudidelas de pó em forma de chinelos. Isso não era o pior de tudo; o que mais nos deixava lixados era saber que o raspanete iria também ele ecoar por toda a rua e que todos os nossos amigos estariam a gozar, entre dentes, enquanto engoliam o jantar para voltarmos para a rua. E o gozo perduraria toda a noite.

Sempre fomos filhos da rua. Foi lá que crescemos, que nos relacionamos, que aprendemos o que não devíamos e que fomos onde não nos deixavam. O Pinoco era um desses sítios que era visto como um lugar perigoso, onde gente ruim se juntava para fazer coisas ruins. Era onde se passava droga, era onde os casais iam para terem momentos juntos, sem percebermos muito bem o que iam fazer, não fazia muito sentido. Então é óbvio que se tornou imediatamente o sítio a visitar. O plano foi delineado: teríamos que ir de noite, logo após o jantar, para dar tempo para lá irmos, porque era quinta-feira, e nesse dia tínhamos que vir para casa mais cedo. Que meninos certinhos! Não, às quintas era noite de cinema interessante no Canal 2 e já toda a gente estaria a dormir nas diferentes casas espalhadas pelo bairro trabalhador... Vocês sabem ao que me refiro...

Pusemo-nos a caminho. Primeiro passamos pelo olival, mas sempre em alta bisga. Aquela casa tinha um ar suspeito e o homem que lá vivia lançava sempre uns olhares estranhos. Havia quem passasse por lá só para fazer mal, atirar umas pedras, mandar uns gritos na segurança que só o escuro da noite providencia. Não era a nossa missão. Queríamos chegar rápido ao Pinoco e ver qual era o encanto... Passando pelo campo da bola, com as famosas balizas feitas de oliveiras prostradas convenientemente, levando a brigas para escolher a mais pequena e o campo com menos raízes, a subida começava lenta mas endurecia rapidamente. Ainda tínhamos que ter cuidado com as vacas que por ali andavam. Coração sempre em altas, o cimo aproximava-se a uma velocidade que nem nós esperávamos. Porque da nossa rua aquele sítio quase que se confundia com o céu. Escalamos com destreza algumas rochas e os ruídos deixaram de ser da vida animal noturna duma noite tórrida de verão. Vozes, gritos, gargalhadas histéricas. A subida continua. Aqui adota-se a ensaiada postura quase em modo ninja. Sorrateiros, entre sorrisos miudinhos e escorregadelas de chinelos que raspavam os pés. O breu era substituído pela claridade de gente e mais gente em amena cavaqueira, todos mais velhos, todos mais intimidantes. Uma perna escorrega. Uma rocha desmorona-se um pouquinho, e onde antes se ouviam gritos e sorrisos de bocas cheias, dão agora lugar a um silêncio que incomodava. Ninguém se mexia. Podia ser que não fosse nada, será que se foram todos embora?

E eis que vimos e sentimos uma verdadeira chuva de pedras que se abatia sobre estes ronins dos Assentos. Deram pela nossa presença, a nossa missão estava comprometida! A única solução era a fuga. “Bora, baza! Já não vamos aos pirilampos!”, numa corrida desenfreada monte abaixo debaixo de um coro de apupos e ameaças e de pedras que zuniam demasiado perto. Ninguém via o caminho, mas corríamos como se estivéssemos com as luzes do Poli à nossa frente! O medo e o sorriso corriam de mãos dadas na descida atribulada que já não conseguíamos abrandar, tal era o embalo! E de repente, um de nós desaparece! Que terá acontecido? Outro! Caraças, ´tou todo borrado!

Afinal eram apenas covas que  estavam escondidas na imensidão da noite que já envolvia mais aquela noite de verão. Com marcas de guerra, de chinelos e caras rebentadas voltamos a casa, cansados e já a recordar o que tinha acabado de acontecer, planeando já a próxima investida...

Mas hoje já não dava mais; os pais da malta já tinham ido dormir para mais um dia de labuta e tínhamos que ir para o Canal 2...

(continua...)

Brinquem com brincadeiras e depois diguem que se aleijem-se.

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Sextas feiras de verão. O calor pedia uma ida à Municipal, mas não havia papel para o autobruto e a gente morava detrás dos calhaus, era sempre a subir... Zoda-se, zaralho! Apetecia tanto molhar o maço... E se combinássemos ir bater uma pelada e depois íamos tirar o surro? A malta do Largo de certeza que alinha. Quando dizem que aparecem, não falham. Há para aí outras ruas que é só uerouero, combinam as coisas mas depois dão falta de comparência.

As equipas estão desequilibradas. Não faz mal. Chuto já daqui? Bora! Ui... Poste. Ia fondo mas não sendo. Caraças, a pelada está agressiva; há ali dois da outra equipa só querem é fuerada. Não jogam nada, mas só sabem é dar pau! Eles que se metam comigo, levam logo um banano.

Pés descalços. Há quem tenha um andar novo, por causa das bolhas arrebentadas. Não sei se o cloro não vai fazer arder e o chão da Municipal também não ajuda. Até borras-te até à toalha, é só labaredas de fogo naquele piso! A ver se consigo entrar sem pagar, mas acho que já não passo por doze anos. Faz-se o choradinho e pode ser que dê. Gaiatos de má raça, entrem lá todos, lá diz o antipático senhor que nos deixa entrar. Apontam-se as entradas na barra do gelo! Alguém há de pagar!

Pouco havia de melhor do que saltar da segunda prancha, gritar que nem umas cachopas histéricas e impar até chegar à toalha. Chupa, está um briol cá fora! Lá dentro é que se está bem. Bato agora aqui uma sorna até secar...

Abro um dos olhos e já vejo aquele zaranza do meu amigo a subir à terceira prancha. Isto eu tenho que ver... Aqui não vejo bem, estou atrás da baliza. Ah! Só miúfa! Desceu logo que viu o Zé das Bombas a subir. Vai ser o mais gozado até à morte!

A caminho de casa, dá para beber uma granada na Tasca do Velho. Porra, soube bem molhar o bico. Hoje deve ser dia de zamboga. Eu estou batido às escuras: vamos ao Cricket ou à Mouraria tirar o picpic. Só a ver se não me metem beriberi no prato.

A malta gosta de brincar. Aquela já está cheia de ventania no focinho. Alguns estão lá fora a fumar uma talisca. Deve ser dia de me dizerem que bela chiba tinha e da boca saber a papel de jornal. Não faz mal. Amanhã é dia de bola outra vez. A malta já está em Marte. Mas a gazula passa depressa. Amanhã é com a Rua 16 e eles têm lá gajos bons de bola. Quem trabalha, vence! Entramos já rijo na primeira bola para verem que não vimos para engonhar. Brinquem com brincadeiras e depois diguem que se aleijem-se.

Da Pathé à de Elvas.

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A subida era vertiginosa já na altura. Mesmo com corpos enrolados em trapos e mentes de criança que não pensa nem tem que pensar num futuro incerto, vir do fim do bairro até cá acima era uma prova dura, mas de que ninguém se evitava.

A subida começava bem antes da subida em si. Existiam outra altimetrias para subir durante a semana, para que o interregno escolar de dois dias chegasse. Escola e seus trabalhos, escola e suas amizades, escola e seus (des)amores. A semana rodava e rodopiava, num pião que não parava e deixava buracos fragmentados na nossa memória cada vez mais esquiva, seletiva e ocupada com outros fragmentos que nutrem outra importância aos olhos do adulto responsável.

Na quarta-feira já se combinavam as equipas para a tarde de sábado no Pavilhão Municipal, onde dezenas de equipas se juntavam para se encontrarem em campos opostos de pisos levantado e de calor abrasador... Sofrimento, diziam os nosso pais. Sabem lá eles! Hoje sim, há sofrimento no mundo, nas pequenas coisas que acontecem ao nosso redor e nós, engolindo em seco, viramos as costas até que deixemos de sentir a necessidade de as virar.

Eu e os meus vizinhos, companheiros de bola, éramos uma espécie de aspirador que congregava aos poucos e poucos todos os amigos que nutriam daquele amor que não se explica pelo convívio religioso à volta de um pedaço de plástico esférico. Rua por rua, todos se iam juntando, enquanto batíamos o bairro sem esquecermos ninguém. Aquele bairro sempre nos uniu, mas quando chegássemos “lá acima”, era cada um pela sua rua... Chamemos-lhe “rualização”. O verdadeiro jogo começava bem antes do campo: todos juntos em cavaqueira até chegarmos ao Conchinhas. A partir daí, começava a subida e a concentração.

A subida começa longa e sem muita inclinação, como se a pudéssemos comparar aos melhores anos da nossa vida que vivíamos e não sabíamos. Fomos evoluindo, fazendo de nós aquilo que entendíamos, como de massa moldável nos tratássemos. Ali bem perto dos bombeiros, há uma curva que inclina, que faz mudar de direção, que se assemelha ao primeiro encontro com a vida adulta, que nos faz mudar e transformar a forma como a encaramos. A vida no passeio continua inclinada mas estável, talvez estável demais, quando nos parecemos conformar com a vida que temos, quando fazemos o primeiro balanço em que avaliamos se teremos feito tudo para sermos verdadeiramente feliz. Saberemos o que é ser feliz, na realidade...?

Do Charrinho à Rua de Elvas é um instante, sorrindo de antecipação quando chegávamos à Cidade, que sempre fez questão de julgar como diferentes aqueles que vinham dos bairros de gente lutadora e trabalhadora. Aqui éramos diferentes. Aqui uníamo-nos mais, para ultrapassar as dificuldades que só viver num bairro social traz para cima das nossas mesas.

Sempre interpretei esta subida como um teste à perseverança de todos que palmilharam caminho acima, caminho abaixo durante anos, décadas, este traçado de muito suor e de almas cansadas em corpos derrotados.

Subo-a agora e vejo-vos a todos, de sapatos rotos por baixo. Desço-a depois e continuo a vislumbrar-vos, de quase noite escura, com cheiro a empenho e alegria de horas e horas a fazer o que mais se amava. Uns de chinelos, outros até de pé descalço, de bolhas rebentadas que causam um novo desconforto. Mas tudo estará bem no próximo fim de semana. Tudo estará bem para uma nova subida.