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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Positivo.

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Positivo me confesso. Tentei ter cuidado, trancando-me em casa, praticando o distanciamento da alma que se parte e desfaz em mil pedaços, tais quantos aqueles que amo e anseio pela sua companhia. Segui as recomendações de quem desgoverna.

Deixei de ir à tasca beber conversas e falar com lúpulos, cevadas e outros cereais, em ajuntamentos que lembram alcateias de lobos que bebericam o néctar dos deuses depois de um dia intenso de caçada ao ordenado mínimo.

 Abstive-me de conviver com pai, mãe e padrinho, passando a venerá-los de janela altiva, inalcançável e de faces que escondem a tristeza de seis meses de máscara que teima em não cair.

Evitei o toque, o que mais sinto falta no meio desta alarvidade viral. Mãos e dedos encolheram-se quase numa posição fetal de bebé por nascer, que ainda sente somente o roçar de mãe, que não lhe é permitido ligar-se aos outros da forma mais genuína que encontramos para nos exprimir sem verbalizar.

Não me despedi condignamente de quem partiu, porque até isso o vírus sem cheiro pestilento me tirou. Não houve a honra de quem merecia as maiores consignações, não houve o calor que o ingresso na morada final exigia aos corpos inertes, quase que despejados para um buraco de forma breve, pois dizem que a doença encapotada de vírus nem no local do descanso final dá paz.

Não consigo ler caras, não consigo deslindar corações. Quem sabe o que por detrás daquele material cirúrgico, gelado que nem o segundo dia de outubro, se esconde, se teme, se celebra, se deseja partilhar apenas com um rosto que outrora falou tanto sem falar.

Deixei, por alguns momentos, que a desconfiança tomasse conta de mim, como se jogasse de mim para mim uma espécie de jogo doentio, na tentativa vã, infrutífera, demagoga e cruel de descobrir onde andava o bicho. Todos os comportamentos foram analisados, reanalisados e a suspeita não liberta ninguém deste fardo que pesa mais do que a doença em sim. A enfermidade do estigma, do julgar o outro, que nada mais é do que eu no outro lado do espelho, imitando até à náusea os meus próprios comportamentos.

Sim, positivo. E recuso-me a não o ser. Positivo que vamos dar a resposta cabal de que superaremos isto juntos. Que temos que dar as mãos sem que as mãos se toquem. Que temos de encontrar conforto em abraços menos apertados. Que as conversas fluam com a distância social do amor. Que ajudem outros a ajudar outros. Que saibamos ser justos e consigamos defender quem perdeu na berlinda do mal que ninguém vê mas que todos afeta.

Vamos ser positivos. É bem verdade que não vamos ficar todos bem. Mas podemos espalhar o bem por todos. E partilhem a positividade.