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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Orgulho de professor.

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Lá vão eles para mais duas semanas de férias, os mandriões. Isto está bom é para eles, que não fazem nada. Cambada...

Vocifera-se muito facilmente sobre aqueles que cai muitas vezes não só a responsabilidade de ensinar os devaneios tornados leis de Newton, as aventuras heroicas de Camões ou as contas intrincadas de Pitágoras. Mas também de como se comportarem em sociedade, de dizerem “por favor” e “obrigado”, de saírem do frio que a cada vez mais comum pouca estruturação familiar transmite e aninharem-se no quentinho que o amor e o respeito dado e recebido nas salas de aula e nos intervalos, de darem valor a tudo o que faz deles melhores seres e cidadãos. Estas funções não vêm em nenhum contrato. Nem teriam que vir. O ser professor é acima de tudo zelar pela humanidade que nos resta e fazê-la replicar-se nos pequenos projetos de homens e mulheres com os quais lidam dia e noite. Sim, dia e noite.

 

Ganham muito e pouco fazem! Aos milhares e a passearem pelo país... Entram tarde na segunda, saem cedo na sexta! E depois, fim de semana para descansar. Corja...

Os novos saltimbancos andam de trouxa às costa, desde que a penugem surge na face até que o grisalho os invade, sem qualquer vínculo que não seja o emocional por onde passam, sem sítio de trabalho que chamem seu, mas tratando todos como se lhes pertencessem enquanto a vela do fim do ano escolar não se apaga. E em setembro volta tudo outra vez, na lotaria dos concursos. Onde se vai trabalhar? Será que se vai trabalhar? Haverá onde ficar? Os custos serão suportáveis? Levam-se os filhos, complicando a vida, ou deixam-se os filhos, complicando a vida? Vidas de milhares são postas numa tômbola gigante que distribui os seus desígnios, que os vai distribuindo, num conta-gotas cada vez mais de buraco largo. Os professores são já quase uma raça em extinção, pois ninguém gosta de instabilidade e de falta de apego familiar. Só o amor a uma profissão que se encara como se de um projeto de amor se tratasse, distribuído pelos filhos dos que difamam e injuriam. Mas nada importa. Não depois de ver uma criança que sorri. Não depois de abraçar um jovem que alcança os seus objetivos. Não depois do balão de amor ter sido partilhado e ter ficado vazio, para que numa nova chamada telefónica a trezentos quilómetros de distância, ele se volte a insuflar para mais uma semana longe dos seus, mas perto dos seus novos seus.

De que reclamam estes protegidos? De que se queixam aqueles que nada fazem e tudo exigem? Escumalha...

Aqui as pessoinhas têm razão. Há professores que se queixam. Sim, que têm alunos com fome nas escolas, que há quem não tenha material para desempenhar as tarefas, que faltam apoios para quem tem mais dificuldades. Estas são as queixas reais de gente que tenta enraizar valores e conhecimento nestas pequenas árvores de carne e ossos e vida. O professor pouco pede. Respeito para quem ensina e respeito pela sua nobre profissão. Quem não respeita os seus educadores, não se poderá chamar nunca de educador, seja de crianças, animais ou sequer de comportamentos. Um professor é metades iguais de razão e coração, em constante batalha, mas sempre de vencedor anunciado. O coração vence sempre, o amor inunda as nossas escolas, a simpatia e a vontade de ajudar estão sempre lá, mesmo que a vida corra mal, mesmo que todos digam que assim não o é.

Respeitem os professores.

Professores, respeitem-se. E tenham orgulho daquilo que fazem todos os dias, uma ação de cada vez, para continuarem a transformarem este mundo para melhor.

Con(finados).

Com o fim à vista, sem sinal de que os abutres covidescos nos larguem a porta, a família, o coração, que fica mais apertado a cada abertura de telejornal. E para casa vamos. Mas em casa não ficamos. Então de que adianta? De que serve matar negócios, relações, obras, apoios, se a doença vai continuar a matar mais. E muito boa gente e muito má gente parece ter perdido o respeito pela Senhora Morte que insiste em pernoitar nos nossos lares e a tirar o ar aos seres ventilados? De quê?

Confiando, sempre, naqueles que insistiram num natal populista e agora ordenam uma quarentena anarquista, onde os velhos ficam em casa, os novos vão estudar e os velhos e os novos não ficam em casa e têm medo de ir estudar. Até quando será possível confiar em quem nos empurra para o desfiladeiro final? Impunes! Até quando veremos partir quem amamos enquanto assistimos a conferências de imprensa de seres devolutos de compaixão? Até quando a confiança não se tornará ódio e revolta e mudança? O estado jurou não abandonar. E abandonou.

Com finados agora nas centenas, banalizam-se mortos como quem fala de meros números sem alma, sem vida, sem história e sem um legado. São seres simplesmente apagados do disco rígido da pandemia. Aquela pessoa que morre tem um prazo de validade na sua elogia de menos de vinte e quatro horas. Passado esse tempo, dá-se o mesmo tratamento cronológico a mais uma série de mortandade que nunca se viu, mas que não parece assustar nem respeitar.

Confinados estivemos e voltamos a estar. Com medo de um futuro que banalizou a morte. Com um receio do amanhã que não sabe o que estará ainda de pé enquanto as nossas fundações continuam a ser postas à prova todo o dia, todos os dias.

Voltemos a confiar uns nos outros. Mas sempre desconfiando uns dos outros.

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