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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

O Bebé Vinte Vinte.

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Olá. O meu nome é Vinte Vinte. Vinte do pai e Vinte da mãe. Decidiram não me dar um primeiro nome próprio até que o consiga dar a mim próprio. Que a decisão tem que ser minha, que nasci em tempos incertos, onde tudo é decidido por outros. E então parece que merece chamar-me o que quiser, ser quem sou com um nome daquilo que sou e me tornarei. Achei confuso. 

Os meus pais não sabem mas eu percebo tudo o que eles dizem, só não consigo responder-lhes. É melhor assim. Tenho imensas perguntas para lhes fazer e não sei qual seria a sua reação se um bebé nascido no ano passado lhes começasse do nada a perguntar o que é a pandemia, porque ficam eles sempre em casa, porque discutem e depois se fecham no quarto e vêm bem mais felizes do que quando entraram. Enfim, dúvidas existenciais duma criança especial. Convencido, eu? Realista!

Vou falar-vos um pouco sobre mim. Nasci em março de 2020, o que presumo seja de onde veio a inspiração dos meus pais para o meu nome único. Sei que a minha família é o meu pai e a minha mãe. Vieram no meu primeiro natal umas pessoas que me inundaram com carinhos, prendas e apertões de bochechas completamente desnecessários aos que respondi com uma birrinha daquelas. Nunca mais apareceram. Isso fez com que a mãe e o pai andassem tristes desde aí. Os pais também choram, como se soubessem que nunca mais iam ver aquelas pessoas mais velhinhas de rugas fofas e dentes que abanam por todo o lado. O que lhes terá acontecido?

Tenho alguns amigos que conheci nos poucos meses em que fui à escola. O pai fala em saudade, palavra que parece fazer com que ele fique mais em baixo. Saudade. deve ser isso que sinto dos meus amigos. Digo muitas vezes em bebezês que quero voltar para aquele sítio onde posso brincar, rir, chorar, sempre na companhia de outros como eu que brincam, riem, choram. Acho que os meus pais não me percebem. Devia ser proibido pais não saberem falar a nossa língua especial. Ou será que se esqueceram quando cresceram? Não quero crescer, então. Quero ir para a escola, para os meus amigos.

Sou muito observador. Devo ter herdado isso dos meus pais. Eles estão sempre a observar os monitores dos computadores, seja de manhã, de tarde, de noite quando brinco com eles nas nossas brincadeiras de tradução perdida. Devem mesmo gostar daqueles ecrãs. Falam com pessoas, gritam com pessoas, choram sozinhos. Tento sempre animá-los quando têm um bocadinho para mim: rio-me para eles, mexo-me muito, sei que gostam, e de vez em quando com o entusiasmo sujo uma fralda ou duas. Os meus pais não se importam. Gostava que não se importassem também com aqueles ecrãs dos gritos e dos choros.

O meu nome é Vinte Vinte. Quero conhecer mais bebés como eu. Que tentem alegrar os pais nos momentos de desespero, que os confortem quando a vida corre mal.

Mas quero essencialmente que me respondam a umas coisas, que eu vou fazer agora um ano e tenho umas dúvidas pertinentes de infante prematuro de conhecimentos: digam-me, bebés, o sítio onde nós todos vivemos tem apenas estas quatro paredes? Que luz é aquela que encadeia os meus olhos, que me faz ver amarelo e depois preto quando os fecho? Serei sempre só eu, o meu pai e a minha mãe? Onde estão os meus amigos? Esta é importante, queria devolver a bola ao João. Nome estranho, João, não é?

Vou dormir agora, o leite da mãe parece ter qualquer pó mágico que me leva para o outro mundo. Vemo-nos por aí, num dos ecrãs do pais e da mãe.

Beijinho,

Vinte Vinte