Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Com. Sei. São.

IMG_20210605_142807.jpg

 

Com as tuas mãos, mente e coração viveste uma vida a ajudar os outros, muitas vezes sem pensar no teu bem, dando tudo aos teus bens, sejam eles família ou não. A enfermagem escolhe-se e a vocação aparece, mas o desígnio de ajudar e de amar mais os outros do que se ama o próprio ser não é de todos, nem para todos. Décadas de turnos duplos, de dedicação sem fim no auxílio àqueles que o corpo parecia fraquejar. Tornaste-te mais fria, calculista, pois ver tantos fraquejos de corpo quase imunizam contra o gelo e pedras que dizem quem trabalha na saúde tem. Nada mais errado. Pragmatismo dirão os mais versados, unir coração e cabeça a uma mesa e deixar vencer aquele que faça mais sentido, dirão outros que te conheceram como a alma mais generosa, sem que esse sentimento transparecesse no teu olhar.

Sei que me aceitaste sem reservas no primeiro abrir de boca sobre mim. Sem me conheceres, ajudaste, tornaste-te companheira de muitas conversas em que eu ouvia muito mais do que falava, porque é assim que se faz quando se ouve alguém que sabe mais do que nós. Viajada, conhecias cantos e recantos de que não ouvi falar do nosso Portugal, que descrevias com uma autenticidade e encanto de quem nunca de lá tivesse saído. As gentes que conheceste, as comidas que provaste, as aventuras com companheiras que sentem a tua falta.

Mas na tua casa era onde mais viajavas, na tua hábil mão cheia de cozinheira sempre pronta a inovar no meio de escritos e gatafunhos legíveis, unindo a tradição que te moldou e a sede de aprovação. Na tua casa imaculada, de orgulho enorme no que alcançaste, de linhas humildes e retas, como a tua postura até ao fim definhante. Só a doença mais vil te dobrou.

São os teus colegas que mais te elogiam, que não puderam saudar-te o que podiam em vida, numa precipitação de emoções do hospital até ao fim pouco digno e apagado. Todos que tiveram a honra, o prazer, o orgulho de fazer de ti exemplo máximo de heróis em crise e de descartáveis quando a normalidade chega.

São os teus filhos que erguem agora a tua bandeira, assente em valores como a compaixão, o amor incomensurável pela ajuda ao outro, a humildade como base e a simpatia como topo visível de uma carapaça de emoções que muitas vezes se fecham por eles próprios formando remoinhos de alegria e tristeza.

Será a tua neta, que vai ser lembrada de ti todos os dias até que se aperceba que a avó que nunca conheceu estará sempre ali com ela, sentada, junto à cabeceira da mesa em sábados de almoço em família.

A dona Mena.

IMG_20210609_094207.jpg

 

 

A dona Mena.

 

Apresento-vos a dona Mena. Trabalha numa escola do nosso concelho como auxiliar de educação, mas bem se poderia denominar de mãe, cozinheira, cuidadora, psicóloga, animadora e todas as outras funções que são e não são da sua responsabilidade.

Comparo a dona Mena a um polvo cheio de amor, que dá conta de um sem número de crianças espevitadas, de todos os seus problemas maiores que a vida e que se curam muitas vezes com um carinho, um beijo e um abraço. Um polvo com tentáculos duros, que o serviço aperta e há que estar em todas as frentes, pois um serviço de três está concentrado nela e nela só.

A dona Mena corre para um lado a resolver uma queda no campo de futebol. A dona Mena desliza para o outro, para mediar uma querela entre amigos que precisam de ser relembrados desse facto.

A dona Mena cuida da mini-horta plantada no recinto escolar e envolve os alunos nesta tarefa, mostrando-lhes quão prazeroso pode ser fazer crescer, passo a passo, umas simples couves que são alvo do maior orgulho naqueles olhos imberbes e impressionáveis.

A dona Mena é de uma simpatia e honestidade brutal com os outros agentes educativos que se deslocam ao seu pequeno mundo escolar perto de Portalegre. A mãe que está doente e de quem cuida, o pai que se desloca em canadianas, são referências constantes em conversas que servem de desabafos de quem tanto ouve outros desabafos. O orgulho que fala dos seus progenitores e do seu percurso são enternecedores.

E depois do desabafo, a que ela se permite com a periodicidade de um curto e efémero intervalo escolar, lá vem de novo a alegria, o desembaraço e os tentáculos do amor e carinho voltam a aparecer.

Esta é a minha homenagem a todas as donas Menas que trabalham nas escolas do nosso país. Que não vos falte vontade, alegria e paciência!