Com. Sei. São.

Com as tuas mãos, mente e coração viveste uma vida a ajudar os outros, muitas vezes sem pensar no teu bem, dando tudo aos teus bens, sejam eles família ou não. A enfermagem escolhe-se e a vocação aparece, mas o desígnio de ajudar e de amar mais os outros do que se ama o próprio ser não é de todos, nem para todos. Décadas de turnos duplos, de dedicação sem fim no auxílio àqueles que o corpo parecia fraquejar. Tornaste-te mais fria, calculista, pois ver tantos fraquejos de corpo quase imunizam contra o gelo e pedras que dizem quem trabalha na saúde tem. Nada mais errado. Pragmatismo dirão os mais versados, unir coração e cabeça a uma mesa e deixar vencer aquele que faça mais sentido, dirão outros que te conheceram como a alma mais generosa, sem que esse sentimento transparecesse no teu olhar.
Sei que me aceitaste sem reservas no primeiro abrir de boca sobre mim. Sem me conheceres, ajudaste, tornaste-te companheira de muitas conversas em que eu ouvia muito mais do que falava, porque é assim que se faz quando se ouve alguém que sabe mais do que nós. Viajada, conhecias cantos e recantos de que não ouvi falar do nosso Portugal, que descrevias com uma autenticidade e encanto de quem nunca de lá tivesse saído. As gentes que conheceste, as comidas que provaste, as aventuras com companheiras que sentem a tua falta.
Mas na tua casa era onde mais viajavas, na tua hábil mão cheia de cozinheira sempre pronta a inovar no meio de escritos e gatafunhos legíveis, unindo a tradição que te moldou e a sede de aprovação. Na tua casa imaculada, de orgulho enorme no que alcançaste, de linhas humildes e retas, como a tua postura até ao fim definhante. Só a doença mais vil te dobrou.
São os teus colegas que mais te elogiam, que não puderam saudar-te o que podiam em vida, numa precipitação de emoções do hospital até ao fim pouco digno e apagado. Todos que tiveram a honra, o prazer, o orgulho de fazer de ti exemplo máximo de heróis em crise e de descartáveis quando a normalidade chega.
São os teus filhos que erguem agora a tua bandeira, assente em valores como a compaixão, o amor incomensurável pela ajuda ao outro, a humildade como base e a simpatia como topo visível de uma carapaça de emoções que muitas vezes se fecham por eles próprios formando remoinhos de alegria e tristeza.
Será a tua neta, que vai ser lembrada de ti todos os dias até que se aperceba que a avó que nunca conheceu estará sempre ali com ela, sentada, junto à cabeceira da mesa em sábados de almoço em família.
