Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Filhos régios.

Filhos régios.

 

Por volta dos anos noventa, o triunvirato Liceu/Escola Industrial/Colégio foi interrompido por uma nova escola que pretendia servir as populações dos bairros-dormitório que circundam a cidade, Assentos e Atalaião, mas que também respondesse à necessidade cada vez mais premente de acolher os alunos das freguesias rurais.

Com tal amálgama de crianças a fervilhar de hormonas e excitação, houve desde cedo uma catalogação de ser uma escola difícil, com alunos difíceis e para alunos difíceis. Lá passei o meu nono ano, mas muitos dos meus amigos lá fizeram todo o seu percurso de segundo e terceiros ciclos.

E a opinião é geral: todos os que rezavam terços de ruindade, que vaticinavam falhas estruturantes na formação de uma futura geração, nunca poderiam estar acertados em relação ao que proferiam de forma desinformada. É preciso ser régio para saber com exatidão o que se passava neste “castelo” formador de crianças de origens diversas em cidadãos de um mundo que se viu forçado a integrá-los, capaz de moldar carácteres desafiantes em almas capazes de transmitir conhecimento e carinho.

Os anos passaram e o estigma é agora tão pequeno como se de uma pequena chama prestes a morrer no fim duma noite fria se tratasse; o Agrupamento de Escolas José Régio é agora fomentador de saber respeitado, ponte de interações e parcerias com instituições de vários quadrantes e inovador na criação e desenvolvimento de projetos que pretendem fazer duma escola muito mais do que aquilo que se lhe exige, assumindo isso com orgulho e uma perseverança que envergonharia os “velhos do Rossio”, vaticinadores de uma realidade que por lá não existe.

Assumo-me como filho régio. E sei que todos por lá andaram a sentem assim. E aos que não conhecem aquela família, como dizia José Régio, “Lá vão essas vidas ocas/
A fingir que são verdade”
.

 

Velho, para onde olhas?

IMG_20210707_181014.jpg

 

No meio das escadas contemplas. Ou paras devido ao cansaço. Tanto faz. Ou recordas os tempos em que descerias estes lances de corrupio, para evitar o picar do cartão tardio na fábrica de toda a Portalegre, ou relembras aquilo que vês à tua frente e não reconheces. Como se fosse um mau sonho, uma pintura deslavada, em hecatombe que nunca imaginaste ser possível.

Suspiras. Ouve-se o bufar profundo de uma alma cansada num corpo cansado. Apoias-te no corrimão como te apoias nos poucos que te são próximos. Apertas aquele frio ferro de forma a procurar alguma espécie de emoção, que o frio se torne quente de carinho, amor. Que dali pulse um presente mais bem vivido, um passado mais respeitado, um futuro que não traga a enfermidade, que a mantenha longe.

Apoias a mão na anca. Deslizas o olhar pelo amarelo e o azul que inundam o céu. Piscas o olho, passas a mão pelo rosto marcado pelas intempéries nas longas jornadas de trabalho que recordas com orgulho. Barba arranjada, penteado imaculado, que um homem nada pode fazer contra as agruras do tempo, mas o tempo nada pode fazer contra a altivez de um homem que se emociona quando se lembra do menino que cedo se vergou na Lanifícios, do casamento de meio século com a namoradinha de janela, dos filhos e netos que longe o enaltecem e enchem de orgulho sem fim.

Como em dez segundos toda a tua vida passa diante dos teus olhos cansados. Como recordas a tua cidade e todas as suas ruelas e agitação que parece ter-ss transformado numa mordaça sem esperança. Dez segundos.

E continuas a descer as tuas escadas. Velho, era para tudo isto que olhavas?