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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Portalegrense vs. Estrela.

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Há pouco mais de cem anos, debaixo de um bem mais jovem Plátano, já com braços longos o suficiente para proteger quem por ali deambulava, nascia uma instituição com a qual tenho uma relação agridoce. Assumo.

Aqui não se fala de ódios, de dicotomias que não se misturam, do verde ou azul como cores que não permitem simbiose. Fala-se sim de guerras dentro de campo, picardias fora dele e de anos e anos de coexistência de dois clubes que muitos pensavam serem demasiado grandes para uma cidade tão pequena.

Exatamente por esta altura mas recuando no tempo três dezenas de anos, fazia a estreia por aquele que será sempre o meu único clube, o Portalegrense. O jeito para a bola era pouco, mas corria muito e isso era visto como algo positivo por quem nos orientava. Puto tímido, tinha já feito alguns amigos nos treinos daquele peladão duro como se de cimento se tratasse em altura de chuva, que umas horas antes era esbatido por sol forte, criando aquela amálgama no terreno de jogo que fazia de qualquer curto passe pelo solo um verdadeiro desafio ao seu domínio. Chegara a altura da estreia no campeonato. O equipar com os colegas, o cheiro de balneário vivido, as chuteiras emprestadas pelo clube, os atilhos junto aos joelhos para que as meias não descaíssem. Todos sorríamos, brincávamos, como se de mais um treino se tratasse. Mas desta vez contra uns miúdos diferentes da nossa idade.

Mas o mister não partilhava o nosso estado de espírito. Havia um misto de nervosismo com uma ponta de irritação. Um grito ensurdecedor ecoa pelo balneário. O jogo era contra o Estrela e era o jogo que não se podia perder. Aliás, a vitória era o único resultado possível. Todos trememos. Percebemos rapidamente, apesar da nossa tenra idade, que este confronto era mais do que um jogo de futebol. Soube até mais tarde que esta rivalidade separou famílias, irmãos e enamorados. Quais Capuletos e Montéquios, Tom ou Jerry, EUA ou URSS. Aqui vivia-se apenas de um lado da barricada e desdenhava-se o outro.

  Voltando a esse primeiro jogo e primeiro confronto de muitos disputados por essas camadas jovens, os nervos quase nos trancaram nesse jogo. Mas ficou desde aí firme a importância deste derby, daquilo que significava para dois mundos pequenos dentro de uma cidade pequena num interior isolado. As pessoas agarram-se ao que têm e vivem-no de forma apaixonada. Alguns dirão que era apenas um jogo de infantis entre os dois clubes da cidade. Outros encaravam isto como uma batalha junior de uma guerra muito maior que qualquer um dos seus intervenientes.

O jogo foi aguerrido, duro mas justo. As provocações constantes entre adeptos das bancadas, a disputa por cada lance pela viva voz de cada treinador, quase pegados com um pequeno árbitro a separá-los. Os festejos exagerados e provocatórios de cada lance e cada golo, os toques na área, os empurrões e os dribles seguidos do cumprimento espanhol “Olé!”.

Perdemos. E bem. Não houve cumprimentos de fim de jogo. Houve lágrimas. Minhas e dos meus colegas. Lágrimas tão profundas que não amaciaram o peladão, rústico. Fomos amparados até ao balneário onde um banho e uma sandes com sumo apaziguaram almas feridas. O mister, levantando a cabeça lentamente e passando-nos a mão pela cara com um calduço de carinho, profere e vaticina algo que se mantém verdadeiro hoje como há trinta anos atrás: “Sejam bem-vindos à rivalidade da vossa vida”.

O tempo passou, os jogos repetiram-se e cada um foi diferente. Resultados díspares, uma vez o gozão, outra vez o gozado. Os resultados nunca morriam no campo. Eram levados para os grupo de amigos, para a escola. Implacável.

Não guardo ódio ao Estrela. Confesso que nunca treinaria nem jogaria por tal clube e bem sei que nunca precisariam de mim. Agora sei que este despique constante ao longo do meu processo formativo me deu ferramentas que tenho ainda hoje ao meu dispor: honestidade e lealdade, duas das mais poderosas que adquiri.

Tenho amigos, bons amigos no clube. Malta que viveu lá do outro lado aquilo que eu vivi daqui. Que nutrem “carinho” recíproco pelo meu clube. Uns começaram deste lado, outros saltaram a barricada. Mas todos sem exceção vivem hoje em dia um papel bem mais importante do que o que nos foi transmitido na altura. Ambos os clubes têm escolas de formação que tratam os miúdos e a bola com respeito e carinho. E quando isso é feito, nada se pode apontar.

E não julguem, nem por um segundo, de que a malta do meu tempo não vive isto assim hoje em dia. Está tudo lá adormecido. Mas está. Para eles o meu obrigado por serem ainda meus amigos. E “Graças a Deus que não nasci debaixo do Plátano”.