O antes e o agora.

Meninos descalços de pés em ferida de volta do esférico vazio de ar mas cheio de atenção. Os olhos embevecidos e incrédulos de novos e velhos com as lunetas de papel com lentes de azul e vermelho, descobrindo uma nova televisão que desconheciam até então. (Já não se vê televisão. Liga-se um qualquer aparelho ligado a todo o mundo para que debite informação que não pedimos de temas que não nos interessa. Ver qualquer coisa que entretenha o espírito, comer algo que satisfaça o corpo.)
Um pequeno rapazote de cabelo espetado e cauda símia fazia parar os fins de tarde, sempre com fome, de comida e de superação. Corridas perseguidas de gargalhadas e amuos nos dez-pés, apanha-apanha, desde que o sol nascia com o primeiro toque na campainha até ao recolher munido de chinelo na mão já a noite pedia o jantar. (Notícias, sempre notícias. Programas de variedades que de variados têm muito pouco. Intenção dos mesmos? Fazer explodir cada um dos nossos neurónios funcionais, um por um.)
Bochechas cor de rubi e de coração na mente, com uma boca envergonhada com o que se sente pela primeira vez, batendo-se o pé quando o que se queria era fazê-los levitar ao som do jovial e pueril amor. (O amor já veio para ficar e ramificou-se para a descendência. Pouco tempo mais há para amar em primeira pessoa.)
A música que ecoava nos rádios FM na maré de uma antena que deambulava entre o som agressivo do grunge e a balada americanizada, passando pelos sons eletrónicos que ecoavam de uma Alemanha distante e a popular música portuguesa de ídolos que já não se recordam. ( A rádio toca aquela que é paga para tocar, daquele artista que paga para tocar. O negócio comeu a alma da mais virtuosa das artes, a música.)
A reunião em volta do caixote mágico, onde apenas dois canais providenciavam alegria para toda a família, comprovando a teoria do “menos é mais”. Sítios de aventura com sotaque do Brasil, onde depressa se sentia o descompasso entre a boca do ator e a voz que parecia emanar do mesmo. Algo estranho que se entranhou. (Centenas de canais inócuos, cheios de programação vazia de conteúdo, de formatos vazios como se de um balão com um pequeno furo se tratassem, morrendo um por um, até uma nova sopradela do mesmo ar amorfo e sem originalidade.)
As noitadas de conversa, de jogos de cartas cheios de batota, risos. De desejos de ser grande e fazer coisas que os grandes faziam. Trabalhar, ter dinheiro, enamorar-se da vizinha que se admira da janela, fazer-se grande para fazer pequenos iguais a si, num núcleo familiar tão unido e difícil de separar como se tratasse de um núcleo de um átomo. (Os encontros dispersos no tempo e com pouco tempo recordam que nunca mais o que foi, voltará a ser. Um chorrilho apressado de momentos passados, com a perfeita noção que o tempo de criar novos, morreu.
O subir e descer em velocidades vertiginosas dos patins daquelas escadas feitas de pedaços de mármores e recordações de jogos que aborreciam a vizinha mais velha. Vai para a escola, vem do treino, vai apanhar o autocarro que não espera por ninguém, vem desanimado porque aquela disciplina não corre bem. Aquelas escadas estoicas que tudo aguentaram. Sapato sujo da lama, ténis que os pisam com força desmesurada de alguém que vem claramente contrariado, seguido por uma mãe cheia de sacos e compras que vocifera o porquê de não ter ajuda. (As escadas ainda lá estão. Imunes e mudas. Prontas para nos receberem por passos que são agora mais lentos, mais espaçados. As escadas entendem que já não corremos, escorregamos de um princípio que já foi, para um meio em que se sobrevive, a caminho de um fim que farão com que as escadas, finalmente, nos esqueçam.)