Bairro Aldeia.

A Alice tem que perceber que muito daquilo que os seus são vem daqui. Do pulsar cada vez mais calmo e espaçado de moradores novos e velhos que ecoam o orgulho de aqui pertencer.
Aqui todos se conhecem. Mesmo aqueles que não sabem o nome ou a rua onde vivem. Há sempre alguém que conhece alguém, e num pequeno jogo de “quem é quem” descobre-se um familiar ou um amigo em comum e tudo fica bem na conversa de café, seguindo-se a fofoca sobre o mesmo interveniente. Aqui fala-se e conhece-se assim, nesta aldeia feita bairro.
Os velhotes sentam-se no jardim, apreciando as crianças que por ali passam, o sangue novo que corre nestas veias. Outro anciãos vêm os carros passar, na vã esperança de que um apite ou saúde, num aceno de mão que vale como abraço ou conversa prolongada, que dê ânimo a mais um dia de uma vida que passa com saudades de quem já partiu.
O bairro olha muito para os seus e olha ainda mais para quem não é de cá. Não é que não saiba receber, mas a primeira reação é sempre de desconfiança, de animal amedrontado pelas feridas que o outrora estigma de ser daqui causava. Não somos nós que nos defendemos em demasia, fomos foi muito atacados noutros tempos.
Ao percorrer as suas ruas, a Alice vai distribuindo sorrisos puros e recolhendo outro tantos com a mesma candura. Velhas e velhos de tardes em janelas, viradas para o mundo que lhes calou, observando o mínimo movimento. Uns escondem-se por detrás de panos e cortinas, sempre vigilantes. Outros ainda saúdam o dia no bairro e quem nele lhes surge, com adeus sempre prontos e beijos atirados por pontas de dedos carcomidos pelo tempo e pela vida de trabalho que tudo lhes deu e tirou em igual medida.
Nos cafés vive o inveterado ébrio, que precisa do seu néctar para se sentir completo. São geralmente simpáticos, dependendo da hora e companhia. A transformação que sucede naquelas manhãs e tardes de café e copo cheio podem dar azo a confusões e até escaramuças.
Um empurrão e uma conversa acesa, e amanhã começa tudo outra vez, com um baralho de cartas e um bagaço com o café.
A vida lenta e obstinada do bairro feito aldeia agradou à Alice. E é no meio dos seus que ela irá também crescer.
