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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Bairro Aldeia.

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A Alice tem que perceber que muito daquilo que os seus são vem daqui. Do pulsar cada vez mais calmo e espaçado de moradores novos e velhos que ecoam o orgulho de aqui pertencer.

Aqui todos se conhecem. Mesmo aqueles que não sabem o nome ou a rua onde vivem. Há sempre alguém que conhece alguém, e num pequeno jogo de “quem é quem” descobre-se um familiar ou um amigo em comum e tudo fica bem na conversa de café, seguindo-se a fofoca sobre o mesmo interveniente. Aqui fala-se e conhece-se assim, nesta aldeia feita bairro.

Os velhotes sentam-se no jardim, apreciando as crianças que por ali passam, o sangue novo que corre nestas veias. Outro anciãos vêm os carros passar, na vã esperança de que um apite ou saúde, num aceno de mão que vale como abraço ou conversa prolongada, que dê ânimo a mais um dia de uma vida que passa com saudades de quem já partiu.

O bairro olha muito para os seus e olha ainda mais para quem não é de cá. Não é que não saiba receber, mas a primeira reação é sempre de desconfiança, de animal amedrontado pelas feridas que o outrora estigma de ser daqui causava. Não somos nós que nos defendemos em demasia, fomos foi muito atacados noutros tempos.

Ao percorrer as suas ruas, a Alice vai distribuindo sorrisos puros e recolhendo outro tantos com a mesma candura. Velhas e velhos de tardes em janelas, viradas para o mundo que lhes calou, observando o mínimo movimento. Uns escondem-se por detrás de panos e cortinas, sempre vigilantes. Outros ainda saúdam o dia no bairro e quem nele lhes surge, com adeus sempre prontos e beijos atirados por pontas de dedos carcomidos pelo tempo e pela vida de trabalho que tudo lhes deu e tirou em igual medida.

Nos cafés vive o inveterado ébrio, que precisa do seu néctar para se sentir completo. São geralmente simpáticos, dependendo da hora e companhia. A transformação que sucede naquelas manhãs e tardes de café e copo cheio podem dar azo a confusões e até escaramuças.

Um empurrão e uma conversa acesa, e amanhã começa tudo outra vez, com um baralho de cartas e um bagaço com o café.

A vida lenta e obstinada do bairro feito aldeia agradou à Alice. E é no meio dos seus que ela irá também crescer.

Saber caminhar sem sentido

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Para onde vais, ó pequeno pedaço de terreno encalhado entre serras e ventos que parecem sempre soprar erraticamente, desviando-nos cada vez mais de um país que vamos reconhecendo apenas da televisão? Ou vais continuar a dizer que vais sem te mexer? É uma mudança mais filosófica do que real, ou não é mesmo uma mudança?

Dói ser daqui. Amar sem esperar retorno é a única forma de verdadeiramente amar, dirão os mais saudosistas e recalcados. Mas caramba. Haverá mais aridez de ajudas, mais escassez de oportunidades, terra mais desprovida de raízes e caules de entreajuda, união e conforto?

Não duvidem por um segundo que nutro uma relação quase doentia de adoração por esta terra e suas gentes, que é a minha terra e as minhas gentes. Quem consegue singrar aqui, consegue em todo o lado, como diz a canção. Nova Iorque? Isso é para meninos.

Os abnegados das indústrias, que anseiam por expansão e lucro para o voltarem a absorver num buraco sem fundo de taxas e impostos, que se endividam para não deixarem o seu sonho morrer.

Os empreendedores, que têm uma resiliência sobre-humana, investem a alma e o sangue para que novas ideias e projetos consigam singrar no interior de quem se lembram de quatro em quatro anos.

Mas a esperança subsiste. Dizem que é a última a morrer, mas aqui é desfibrilhada a cada ideia lançada, a cada negócio de sucesso, a cada criança que aqui nasce.

É preciso ensinar a cidade a gostar dela própria. Ser vaidosa, até. Tanto há que pode ser feito, que já foi tentado e que será novamente. Mas é preciso que não desistam dela, que não a deixem definhar até a um esquecimento de nevoeiro de dezembro. Por favor, não podemos desistir dela. Todos somos responsáveis, todos podemos fazer algo. Não esperemos pelos profetas eleitorais, pelos bazófias que defendem que lá no outro lado é que é bom, pelos que julgam dentro e fora da nossa muralha impenetrável de fé no nosso e nos nossos.

Caminhemos pelo nosso pé na mesma direção: viver aqui é de facto um sonho. Só temos que acordar e realizá-lo.