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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

O silêncio sem inocentes.

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Imaginem os risos das crianças. No baloiço, cresciam entre vais e vens da vida que iria mudar repentinamente para muitos deles. A sua casa fora de casa era ali. E para alguns aquele era o primeiro abrigo num mundo que não lhes vaticinava facilidades. Ali corriam, dançavam, riam e choravam, sempre no colo daquelas que nunca os deixavam cair, mesmo que os joelhos se esfolassem. O carinho não caía, o amor não saía aos trambolhões. Conseguem ouvi-los? Está a acontecer algum jogo de futebol onde meninos e meninas eram iguais, de equipas diferentes e de amores iguais.

Suspendam o ar até o fechar de olhos vos permita ver as salinhas cheias de carinho e aprendizagem, muita traquinice mas com abraços apertados da mais pura ternura que alguma vez vão sentir. Onde todos eram bem vindos e de onde ao fim do dia já se ansiava pelo próximo. Onde cada palavra era respeitada, aprendida, replicada. Onde cada número era usado, entendido.

Deem a vez ao vosso olfato perdido. E o cheiro da comida feita com alma e coração? Que prazeroso era ver aquelas pequenas criaturas dóceis alimentarem-se de víveres e alimentarem os corações de quem os alimentava com um sorriso de boca cheia. Que nunca ficava alguém com fome, pois algo sempre se arranjaria. A alma também precisa de comida e aqui, essa nunca faltava, Comida com rosto, pessoal, feita por quem mais eles gostavam, por quem aprendiam a admirar.

Abram bem agora os olhos. E vislumbrem em descrédito e vergonha alheia as fotos. Onde outrora se espalhava o amor, prolifera agora a erva daninha, o abandono, o desprezo.

Um lugar de onde parece que todos fugiram à pressa, como se se tivesse tratado de alguma intempérie, terramoto. Pois foi pior do que isso. Ao tentarem esquecer o seu legado, querem tratar de dar o mais rude golpe a uma instituição que tanto deu a esta cidade: desonrar a sua memória ao deixarem que o tempo, esse pilantra, o apague irremediavelmente.

Mais uma vez, como muitas outras, a culpa morre solteira. Mas que ninguém se esqueça que se formaram vidas, pessoas, comunidades neste agora canto esquecido do bairro de São Bartolomeu. E de inocentes só as nossas crianças se podem apregoar.