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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Quando a noite era vida.

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O vento suão não dava tréguas soprando baforadas que pareciam vir de alguma brecha por onde demónios saíam vindos do inferno que era o centro da Terra e o alcatrão derretido pelos quarenta e muitos graus ganhava alguma rigidez meio gelatinosa quando o sol se punha na cidade. Punha-se tarde, como se castigasse o interior por ser ele próprio. Os longos e fastidiosos dias de criança na coberta, de piscar no olho intermitente, esperando que o fazedor de vida da Via Láctea desse algumas tréguas e nos permitisse viver e conviver.

Ao contrário de muitos outros, na cidade em novos jantava-se cedo. Um gaspacho de pedras e pepino abundantes para acalmar uma sede que não tinha fim. O sofá estava já pegajoso e enojado de nos ter espadeirados durante o dia. A nossa pele e a sua imitação de pele uniam-se quase em simbiose que era dolorosa de separar. Saía-se de casa depois de alguns avisos, mas sem que a preocupação inundasse os pensamentos dos progenitores; a cidade protegia de noite e a noite oferecia refúgios que davam segurança aos mais atrevidos.

De moeda curta no bolso, t-shirt com furos que serviam de arejamento, calção do dia de piscina e o chinelo gasto pelo palmilhar de gente nova que tem quilómetros para dar a toda e qualquer estrada, cada um, cada grupo, tinha o seu destino. Um qualquer patim de escadas que recebia um eterno jogo de cartas regado a refrigerantes e pipas de casca grossa. Um campo de futebol que recebia bem os jogadores noturnos e os fumadores também. O pátio de qualquer escola, cuja rede dum salto era superada, como se o entusiasmo de fazer algo errado metesse molas nos pés dos imberbes. Os jogos das escondidas dentro dos prédios em que rebentavam a bolha por aquela vizinha chata que todos tivemos estar só e não perceber que nós não poderíamos estar. A curiosidade de ir ver o que se passava dentro dos carros dos mais velhos, onde rapaz e rapariga se confundiam em corpos desnudados e em calor e vapor que desvaneciam no seu interior. O correr em desespero e excitação depois de fugir em magotes tocando campainhas pelas ruas silenciadas por um termómetro que se recusava a baixar. Os ajuntamentos territoriais de ruas inteiras em brincadeiras provocatórias com aqueles que lá não pertenciam, que acabavam quase sempre em brincadeira pegara numa união desinteressada que pouco cabe nos dias de hoje.

A cidade à noite unia o que o dia separava. A luz fosca afagante que se sentia, como se de um pequeno lençol de resguardo se tratasse, parece não afagar mais. Ou sou eu, ou somos nós, que já não a conseguimos ver. A cidade de noite só falhou num aspeto: deixou-nos crescer. E eu só queria voltar a sentir o chão quente a escorregar-me por debaixo dos pés.

O Trigó.

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Todos somos impelidos a dizer bem de quem partiu. Está na natureza humana deificar quem em vida nada mais era do que alguém que se conhecia. A minha intenção não é fazer do Miguel o melhor ser humano que passou por mim, agora que é fácil esquecer defeitos e incongruências.

 Mas isto vos posso dizer, sem qualquer embelezamento de personalidade: o Trigó era uma Pessoa para as pessoas. E não há melhores ou mais honrosos elogios que se possam fazer de alguém. Numa época em que o mundo se esqueceu do amor, da partilha e da paz, surgem cada vez mais raramente estes seres que vêm com a missão de ajudar. O Miguel sempre foi uma magnífica amálgama de coisas boas que irradiava afeto e carinho para todos os que com ele privavam. Seja na sua vertente profissional, que sempre encarou como mais do que um trabalho, mas sim uma vocação. No seu empenho associativista, dando o corpo ao manifesto e tornando tudo e todos com que se envolvia melhores. Na missão que acreditava ter neste mundo, que circundava sempre â volta das necessidades de todos. Num comensal que adorava convívios com amigos, divertido e sempre disponível. Num pau para toda a obra, fosse no seu clube de coração, ajudando descomprometidamente com os seus conhecimentos médicos, ou no grupo de amigos, ajudando a formar uma coletividade de “velhas guardas” e a torná-la relevante na cidade.

O Miguel desconhecia a palavra “não”. Não se coibia de beber uns copos em amena cavaqueira, de ajudar o amigo numa obra, na partilha de conhecimento com um colega, de ir mais longe que qualquer pedido que lhe fosse endereçado. E como não sabia proferir essa palavra, sentia-se na necessidade de chegar a todo o lado e a todos. E a frustração, a incapacidade de não o conseguir consumiu-o.

Enfim, torna-se claro que todo este desfecho se tornou inimaginável aos olhos de muitos. Há uns dias disse a alguém que ele sabia esconder muito bem os seus demónios. Hoje já não concordo com o que proferi. Corrigindo, o Miguel tinha os demónios consigo, mas estavam bem escondidos, como se se preparassem para o enganar, tal Cavalo de Tróia. E em qualquer dúvida, frustração e incapacidade, começavam a manifestar-se, toldando-lhe a forma de pensar sobre si. De pouco vale o que os outros dizem de ti, se o que tu pensas de ti é completamente diferente. Bem sei. Estes demónios também me assolam por vezes e é difícil lidar com a nossa cabeça, que nos reafirma a cada falhanço e a cada incapacidade de que talvez seja melhor desistir. Que não prestamos, que somos um fardo. Que aquilo que almejamos nunca será para nós. Que somos fracos.

É uma luta diária. E para que não percamos mais Trigós, é necessário ajudar e saber procurar ajuda. É preciso que olhem para mulheres e homens com responsabilidades, para o vizinho do lado que não sai de casa ou para o familiar que se fechou nele próprio e que os consigam ajudar a ajudarem-se.

Voltaremos a ver-nos, Miguel. Prometo encontrar o talher do teu faqueiro.