Quando a noite era vida.

O vento suão não dava tréguas soprando baforadas que pareciam vir de alguma brecha por onde demónios saíam vindos do inferno que era o centro da Terra e o alcatrão derretido pelos quarenta e muitos graus ganhava alguma rigidez meio gelatinosa quando o sol se punha na cidade. Punha-se tarde, como se castigasse o interior por ser ele próprio. Os longos e fastidiosos dias de criança na coberta, de piscar no olho intermitente, esperando que o fazedor de vida da Via Láctea desse algumas tréguas e nos permitisse viver e conviver.
Ao contrário de muitos outros, na cidade em novos jantava-se cedo. Um gaspacho de pedras e pepino abundantes para acalmar uma sede que não tinha fim. O sofá estava já pegajoso e enojado de nos ter espadeirados durante o dia. A nossa pele e a sua imitação de pele uniam-se quase em simbiose que era dolorosa de separar. Saía-se de casa depois de alguns avisos, mas sem que a preocupação inundasse os pensamentos dos progenitores; a cidade protegia de noite e a noite oferecia refúgios que davam segurança aos mais atrevidos.
De moeda curta no bolso, t-shirt com furos que serviam de arejamento, calção do dia de piscina e o chinelo gasto pelo palmilhar de gente nova que tem quilómetros para dar a toda e qualquer estrada, cada um, cada grupo, tinha o seu destino. Um qualquer patim de escadas que recebia um eterno jogo de cartas regado a refrigerantes e pipas de casca grossa. Um campo de futebol que recebia bem os jogadores noturnos e os fumadores também. O pátio de qualquer escola, cuja rede dum salto era superada, como se o entusiasmo de fazer algo errado metesse molas nos pés dos imberbes. Os jogos das escondidas dentro dos prédios em que rebentavam a bolha por aquela vizinha chata que todos tivemos estar só e não perceber que nós não poderíamos estar. A curiosidade de ir ver o que se passava dentro dos carros dos mais velhos, onde rapaz e rapariga se confundiam em corpos desnudados e em calor e vapor que desvaneciam no seu interior. O correr em desespero e excitação depois de fugir em magotes tocando campainhas pelas ruas silenciadas por um termómetro que se recusava a baixar. Os ajuntamentos territoriais de ruas inteiras em brincadeiras provocatórias com aqueles que lá não pertenciam, que acabavam quase sempre em brincadeira pegara numa união desinteressada que pouco cabe nos dias de hoje.
A cidade à noite unia o que o dia separava. A luz fosca afagante que se sentia, como se de um pequeno lençol de resguardo se tratasse, parece não afagar mais. Ou sou eu, ou somos nós, que já não a conseguimos ver. A cidade de noite só falhou num aspeto: deixou-nos crescer. E eu só queria voltar a sentir o chão quente a escorregar-me por debaixo dos pés.
