O sô Mamade.

No meu primeiro treino no Grupo Desportivo Portalegrense, com nove cheios de vergonha e boca calada, todo eu tremia em desespero e excitação. O fascínio pela bola manifestou-se bem cedo. O jeito, esse, nunca veio. Mas clubes como o meu sempre foram feitos daqueles que o propósito maior era divertirem-se, fazerem amigos, saírem da bolha das bochechas vermelhas e do virar de cara em fingido desinteresse.
O equipamento era feito de roupas velhas: umas meias que tinham sido da minha avó, t-shirt esburacada que não fazia sentido naquele dia frio de setembro. Sem reconhecer ninguém, fiz como ainda hoje faço. Coloco-me num canto e observo. Havia-os mais rotos que eu, mas uma coisa unia-os e deixava-me de fora em descrédito que rapidamente se tornou em stress pré-traumático. Todos tinham umas botas de couro, pretas, com uns bicos que pareciam ter espetados cirurgicamente nas suas solas. Olhei para baixo, enquanto descia por mim a minha gota de suor de aflição. Eu tinha uns ténis atabalhoados, daqueles que escondemos as suas cicatrizes de nossa mãe, pois gostamos tanto deles e que quando ela descobrisse o seu real estado, e uma mãe descobre sempre, seriam abandonados no fundo duma despensa junto às garrafas de gás vazias e aquela panela de pressão que já não se usa.
Hiperventilei. Minúsculas gotículas de transpiração formavam rios no meu corpo. O coração parecia ter embarcado na corrida mais parada e silenciosa de sempre. Fiquei petrificado que nem reparei num alto senhor mestiço, de óculos fundos de sapiência e munido de um sorriso que afagava a mais agitada das criaturas que estava na minha frente. “Tavares, vê se te servem.” Deu-me para as mãos umas botas que se pareciam com as dos meus colegas, futuros amigos. Não brilhavam como outras, tinham até pequenos buracos, frutos certamente de biqueiradas e raspanços que só quem jogou em campos pelados compreenderá.
O senhor Mamade ajudou sem conhecer e percebendo imediatamente que estava ali um puto em apuros interveio. E este era o mote deste enorme homem. Ajudar sem compromisso. Ao longo dos anos fez de mim e de centenas de outros miúdos inseguros jogadores, com o seu olho clínico para quem precisava de ajuda.
Mais tarde na vida, acabei por privar com o senhor Mamade devido à grande amizade que tenho com o seu filho, que teve a sorte de ter um pai que sempre lhe indicou o caminho certo, sem nunca impor a sua vontade. Sempre me deu bons conselhos, muitos deles relacionados com a sua origem religiosa islâmica. Ao contrário do que se possa pensar, o Islão também promove a compreensão, o amor entre as pessoas e a promoção da entreajuda. E isso estava intrínseco na sua génese. Não me lembro de o ver envolvido numa discussão. Pelo contrário, sempre procurou sanar conflitos, ser a voz conciliadora no meio de azedumes. Era a sua voz calma e o seu sorriso eterno que perdurarão na minha memória. Deu-me um abraço quando não o tive. Ajudou-me nos meus curativos de pernas rasgados em carrinhos despreocupados. Aconselhou-me naquelas boleias que me dava até casa em dias de chuva. E ouviu-me sempre, mesmo quando de certeza não me ouviu.
Obrigado, senhor Ossuman. Todos os Tavares, Ramos, Caldeiras, Alves e apelidos sem fim te agradecem.
