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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

A Professora São Cotão.

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Crescer nos Assentos tinha os seus desafios. Todos que por lá passaram sabem bem disso. As agruras de uma vida sofrida, um crescimento a ferro e fogo, ser até desdenhado por uma cidade que sempre se achou superior aos seus bairros que sustentam ainda hoje as suas entranhas de funcionamento, os dentes desgastados das rodas rodadas.

Mas para que o bem impere onde apenas o ruim é esperado, são necessários seres que consigam ser uma espécie de tábua de salvação para quem sempre ouviu dizer que não seria ninguém, que a vida nunca seria mais do aquele corre rua acima rua abaixo do bairro que diziam malfadado para tantos e tantos jovens que por cá se tornaram homens e mulheres de valor incontestável.

Um desses seres já não está connosco fisicamente há vinte e cinco anos terráqueos, mas vive certamente nos corações de quem teve a honra de com ela crescer e aprender muito mais do que uma escola se entendia que devia ensinar.

Falo de Maria da Conceição Mourato Videira Cotão , mas todos a tratavam por Professora São Cotão. Quem a recorda fala sempre da sua candura na compreensão, no trato respeitoso mas com a quantidade certa de afeto e acima de tudo de uma vontade inesgotável de fazer todos os seus alunos de escola e de vida acreditarem em si e nas suas capacidades que só ela parecia ver. Lembra-se o seu acenar de mão e sorriso aberto ao passarmos no quiosque do senhor João na parte superior da vivenda que fazia esquina. Já na escola, onde alunos rebeldes eram muitas vezes castigados da forma que já o eram em casa, semeando nas suas pequenas almas confusas apenas mais indiferença, a Professora São Cotão sentava-se pertinho dos seus meninos e meninas, afagando-lhes o cabelo ou apertando-lhes carinhosamente as bochechas vermelhas do frio das manhãs de janeiro. Num bairro criado muitas vezes em violência, a escola dava uma resposta diferente daquela que a retidão invergável da educação parecia exigir. Onde cabe o ensino tem que caber em igual medida o amor. E a Professora São sempre foi o pináculo desta verdade que hoje parece vulgarizada.

A sua bondade e compreensão vinha certamente da sua ligação ao Evangelho e aos desígnios de Deus. Numa geração onde a revolta seguia no leme, guiar até eles o seu barco de amor divino foi certamente sempre o seu maior desafio e conquista.

A Professora São Cotão deixou saudades. Mas plantou um pouco de si em cada um que se tornou seu. Como educadora carinhosa, catequista abnegada, mãe extremosa e esposa dedicada.

E sei que cada uma dessas pessoas ainda olha para a parte superior da vivenda que faz esquina ao lado do quiosque do senhor João, à espera que alguém lhes acene de volta.

A Rua do Bargado.

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A noite já vai longa e a vida noturna fecha na Praça. Passando pelo Coreto, vira-se numa direita a noventa graus e o som da música garrida e dos festejos etílicos desaparece quase de imediato, como se uma barreira sónica se abatesse pela ruela estreita de subida ligeira. A típica aglomeração de gentes e gerações tão diversas como luz e negrume faz da rua do Bargado, hoje mais conhecida como Rua França Borges, merecedora de ser percorrida com todos os sentidos atentos e em alerta.

Os nossos olhos começam por vislumbrar as aparentes altas frontarias, que não são mais do que um golpe visual. É uma rua que impõe respeito, de paralelo gasto e calcorreado por muitos, de solas que sobem e descem em passo apressado para uma aula que começa ou um autocarro que cumpre o horário, ou de sapato ortopédico com pés que já não deixam confiar nas pedras escorregadias em dias de temporal, apoiando-se numa bengala em direção ao seu café com as amigas, na aquisição da raspadinha que parece não bafejar de sorte o esperançoso idoso ou ainda num simples deixar de vida correr num dos bancos da Praça que se partilham com pombos.

À medida que começamos a subida lenta da quase claustrofóbica quelha, o contraste de decibéis é inequívoco: o início da rua indica o declínio do centro citadino, com imóveis devolutos e casas silenciosas pelo abandono dos idosos. Mas à medida que vamos subindo, vamos ouvindo em gradual basqueiro o raspar de pratos de uma refeição regada entre estudantes, o avô que pede ao neto o comando da televisão que o Fernando Mendes tem encontro marcado lá em casa como se tratasse de uma entidade divina, e ainda a jovem aprendiz de música que dá os seus primeiros acordes desafinadas de guitarra no colo.

Dependendo da hora, os cheiros também perfumam a travessia, com destaque para a airosa roupa branca lavada com notas de alfazema em dias mais quentes, pois nesta rua fechada em si própria o sol não abunda, ou a carne grelhada de mini-assador à porta enquanto se beberica uma cerveja e se conversa com a vizinha da frente que vive há muito sozinha.

A Rua do Bargado é como outras ruas da nossa cidade, onde tudo e todos coabitam, mas que por vezes parece que cada um vive isolado na sua caixa. Celebremos a diversidade em conjunto. Tornarão as ruas mais fortes, com mais vida e mais solidárias.