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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Chris.

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Chris é o Tom Sawyer humano. Não anda sempre descalça, julgo eu, mas tal como o pequeno Tom, tenta aproveitar aquilo que a vida lhe dá, por mais pequeno, insignificante ou ridículo que possa parecer a todos os outros, como por exemplo beber quantidades insanas de Coca-Cola para ganhar as fofas sardas deste seu ídolo de infância.

Muitos de nós, tal como eu, conhecemos a Chris por causa da bola. Lembro-me de assistir em tempos saudosos naqueles confrontos futebolísticos entre carros a passar e paralelos de baliza e ver uma figura estranha naquele mundo cheio de pré-testosterona. Figura franzina, cabelo curto e vozeirão. Driblava, batia, fazia golos naquele mundo de calmeirões. Ganhou o respeito sem se impor. Foi reconhecida como igual. E na Rua 16 era presença garantida na sua equipa daqueles torneios entre ruas.

De atitude diferenciada desde tenra idade, preferia o azul, os carrinhos e as figuras de ação na sua metade de quarto. Era ela fora dela e era ela dentro também, sem medo de julgamentos, apoiada por quem mais ama.

Consta que era uma chata. Sempre gostou mais de brincar do que limpar e parece que não era grande companheira de limpezas, eternizando tarefas que se resolveriam num ápice. Chata e esperta, lá está.

E atriz que era também! O seu amor por mel era e é incomensurável, que a fazia fingir incríveis dores de garganta para se poder lambuzar com esse néctar espesso e dourado. Dizia ter “vaginas” em vez de anginas. Causava o riso até à lágrima com a frase:”eu tenho vagina, eu tenho que comer mel!”.

Chris tinha tudo para ser o que quisesse no mundo do futebol. Com boas bases familiares, de infância feliz e livre, o seu talento ia sendo enxergado por todos que a conheciam e também por quem não compreendia que aquele fosse o seu sonho.  E porque quem trabalha vence, e quem acredita merece, a sua oportunidade chegou: representantes da seleção nacional deslocaram-se para a ver jogar. Era o seu momento, aquele que a inspirou durante anos e ao qual aspirou. Mas a competição, a inveja e o talento em demasia acabaram por se manifestar nesse dia. Sofre uma lesão terrível às mãos de uma colega de sonho de futebol, perna partida.

Este seria certamente o fim do sonho para qualquer outra pessoa. Chris manteve a calma, levou o seu tempo a recuperar, fez da lesão coração que não parava de bater. Há amores assim...

E voltou. Voltou a fazer aquilo que mais gostava. Mas Chris, resiliente e apaixonada, tinha mais uma dura batalha pela frente. Pois só essas batalhas formam e definem o verdadeiro eu. Linfoma. Duro. No entanto Chris não estava pronta para desistir. Nunca o fez na sua vida. Todas as agruras que a vida lhe lança foram encaradas com um inspirar profundo, atitude positiva e sorriso no rosto. Transpareceu sempre boa disposição, brincando até com a sua condição no Carnaval, mascarando-se de bebé grande, carequinha e de chucha. Pois na escuridão há que procurar a pontinha de luz, focando-nos nela, desviando sempre o olhar de tudo o que é mau que nos rodeia.

Chris continua ainda hoje ligada ao seu desporto-amor. Figura de proa no projeto de futsal da Casa do Benfica de Portalegre, tem como missão fazer com que todas as crianças que dão os primeiros passos na modalidade seja um pouco como ela: humildes, trabalhadoras e que se divirtam.

Chris é ainda uma das pessoas mais pró-ativas que conheço, embrenhando-se em vários projetos que vão de campos distintos como a arte ao digital, à fotografia e ao marketing, ligando tudo numa amálgama de talento.

Chris é minha, é nossa. É pitada de talento com uma raspa de doçura disfarçada de rudeza. É gargalhada pura e abraço apertado. É amor e sofrimento em partes iguais. Mas que nunca será vencida. Perguntem aos amigos de peladas da Rua 16.

(Um agradecimento especial ao clã Martins.)