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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

O Simão.

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Nas traseiras da Rua Luís Pathé, num empedrado disfarçado de alcatrão, onde a terra inundava fossas nasais de verões de bafo diabólico ou enchiam calças de lama em outonos e invernos de chuva molha-parvos, o Pedro jogava. Sozinho, deambulava por campos imaginários que a sua mente exteriorizava. Fosse com balizas pequenas de pedras feitas, ou com apenas uma do comprimento da fachada do Zé Moedas, de grade a grade, sempre respirou futebol. E com cada fôlego de língua de fora, cada drible desafiador, o Pedro foi crescendo e tornou-se enorme.

Enorme porque lida e precisa diariamente de desafios. Não é pessoa de se acomodar, o monótono aborrece-o e tenta sempre retirar o melhor de si e dos seus.

Enorme porque odeia injustiças. Porque as sente como suas, todas elas, sejam do seu foro mais íntimo ou de uma sociedade em constante mutação que parece cada vez mais castigar quem decide fazer o bem.

Enorme ainda porque vive com paixão e com tudo o que ela traz. Pensar a trote dos batimentos cardíacos, ele é emoção, é raiva, é angústia, é alegria desmesurada. E orgulha-se disso, ombreando as consequências que tal honestidade de sentimentos pode trazer de menos positivo.

E sem me alongar muito mais, porque hoje o dia é dele e ele também gosta de ser orador, termino como comecei, falando um pouco do Pedrinho, aquele do rés-do-chão do Bloco 6: num certo dia de verão, mas ainda sem estar muito quente, o Pedro driblava sozinha uma equipa de gente invisível que o fazia deambular de um lado para o outro entre sorrisos e comentários de quem acaba de fazer cinco cuecas seguidas. A malta da rua começou a chegar para iniciarmos mais uma jornada desportiva interrompida apenas por almoços ou compromissos inadiáveis de fim de semana. Mas o Pedro tinha uma ideia diferente. Desafiou-nos a todos para um jogo de balizas pequenas. Todos contra ele. Bem certo que tinha mais qualidade que nós, mas a quantidade imperaria sobre a qualidade. Ele não queria saber. Anuímos e o jogo durou apenas dez minutos. O resultado não interessa mas certamente sabem qual foi. O Pedro foi embora, de coração e orgulho em cacos, levando a bola consigo. Não houve mais futebol nesse dia.

No dia seguinte, bem cedo porque o lânguido sol não permitia veleidades na cama, começo a ouvir aquele som de um esférico a bater nas grades. Mas quem estaria já a jogar à bola...?

Pois, era o Simãozinho. De camisola listada de verde e branco, corria, chutava como força inesgotável que só a idade pequena permite. Ao ver-me na janela, espreitando pelos estores, vociferou em tom trocista: “Então venham lá hoje todos, que nem tiram os pés do chão!”

Lutador. Determinado. Corajoso. Desde pequeno. E meu amigo.