Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

A Mariana.

4d199f87-755c-4dd6-92da-b7e821577f77.jpeg

Esta miúda irrita-me. A sério! 

Com doze anos, no seu cantinho da sala, olho vivo e sempre atento, espera pacientemente pela sua oportunidade de participar. Não se impõe, não vocifera. É-lhe dada a oportunidade e a resposta sai serena, justificada e totalmente certa. Não era a maior fã da disciplina da nossa língua, mas isso não afetava em nada o seu compromisso de dar o seu melhor.

E fez disto o seu mote: na vida escolar, obviamente, mas levou o compromisso ao seu epíteto no desporto dito dos homens, o futebol. De cabelo atado e figura franzina, sempre acompanhou os colegas nas suas jogatanas que a tratavam com respeito na sua maioria. Conheciam-na, sabiam das suas capacidades. Acredito que por vezes não tenha sido fácil lidar com o estigma masculino, mas depois de a verem com a bola nos pés, fez e faz de céticos fiéis.

Evoluiu, fez do seu crer certeza, largou as dúvidas num apoio maternal incondicional e cresceu para além de si. Percorreu o país em busca do sonho, sem nunca descurar a sua profissão de estudante e representou dos maiores símbolos nacionais.

Há pouco tempo, decidiu ficar no nosso grupo. Seria mais fácil envolver-se numa equipa totalmente feminina, ganhar destaque, ser figura. Mas eu não vos disse que a miúda me irrita? É mesmo por isso. Equipa de juniores, homens feitos, olharam com desconfiança, dúvida e até algum tom jocoso. Mas depressa calou toda a gente com um simples domínio de bola, um encostar neles sem medo, com uma finalização digna de craque.

Ganhou o seu respeito, tratam-na como igual, porque o é. Com trabalho, perseverança, amor ao clube e aos colegas. É a primeira a chegar, ouve com atenção cada exemplificação de exercícios e dá tudo de si em campo, sem desculpas, sem levantar de braços.

Já não é a minha menina de doze anos, embora não tenha crescido muito (algo que ela vai adorar ler, se surgir essa oportunidade). É pote concentrado e efervescente de carinho e simpatia. Mas o olho vivo é o mesmo, a vontade de lutar por si e pelos seus até ao último minuto. Gosto muito de ti, Mariana. Toda a gente gosta.

Já te disse que me irritas?