“Bom dia, senhora professora!"
Dedicado a CA.
Começa mais uma semana, levando o seu tempo, acalmando da correria de uma típica segunda-feira de manhã, para que cada um conte uma pequena aventura trivial, se esteve com o pai ou com a mãe, se a gata já teve os filhotes. Tudo tem a mesma importância, tudo é relevante. A participação ordeira, o tom de voz moderado e o sorriso, ah, o sorriso sempre presente. Escola é mundo novo de alegria e partilha.
A cópia é vista e revista. Cada letra é escalpelizada ao pormenor. Trabalho minucioso mas de enorme valor, pois na semente prepara-se a flor. A reprimenda dos trabalhos de casa que não se realizaram torna-se numa lição de responsabilidade. A senhora professora corrige a postura, puxando cadeiras deslizantes por baixo de pés inquietos, envolve os dedos pequenos e trapalhões em volta duma caneta azul, tal como varinha de condão que recita instruções mágicas para textos de imaginação daqui até aos planetas mais distantes.
Analisa-se o comportamento da semana, reflete-se sobre atitudes com colegas e adultos. Há pedidos de desculpa, sinceros e munidos de abraços. Ensina-se que o mundo, ainda pequeno destes futuros cidadãos, olha para o respeito e compreensão como valores intrínsecos daquilo que uma sala de aula tem que ser, servindo de laboratório, que experimenta e educa. Não há comportamentos dentro e fora da escola; estes são unos e inseparáveis de tudo o que estes pequenos seres em formação são e serão. A escola é casa e casa também deverá ser escola.
A senhora professora, ao som de Vivaldi, desenha cada letra graciosamente e levando o seu tempo. A perfeição que exige é primeiramente a sua. Há que forjar o ferro enquanto está quente, enquanto estas mentes-esponja não foram ainda corrompidas por um mundo que premeia o facilitismo e aquilo que é apenas suficiente. Ouve-se muitas vezes a palavra “brio”. No que se faz, como se comunica, na apresentação, no modo de estar, viver, sentir.
A senhora professora exige, mas dá na mesma moeda. Porque será que que a opinião geral das pessoas não retribui o bem que é feito? Quem dá colo nas escolas vai sempre muito além das suas obrigações. Pena que as senhoras professoras não sejam por vezes mais acarinhadas. Mas não se importam. A sua sala é a sua ostra. Mas todos são bem-vindos para um cafuné, ou para ouvirem “As Quatro Estações” de Vivaldi.