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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

A cadeira.

 

 

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Com a madeira que se aproveitou de uma azinheira rachada ao meio numa tempestade seca de verão, agosto quente e revoltoso de céu, de trovão imponente seguida do raio fulminante, nasceu a cadeira das nossas vidas. Esta é a minha. Raspei o queimado, como quem expele o mal do mundo em que se trabalha de sol a sol, esquecendo tudo o resto. A pouco e pouco tornei as suas formas reais, como quem constrói um sonho, desde que é projetado nas nossas mentes, até ao dia em que esse mesmo sonho não é mais do que uma realidade dura de alcançar, mas saborosa de ver com forma, feitio e beleza.

As patas, que iriam sustentar todas as lutas de viver num interior de labuta, sem oportunidades, tinham que ser fortes, abnegadas. Não poderia deixar que essas fundações te levassem o teu jeito de recordar aquilo que és e o que te deram, para poderes partilhar com todos os teus, para aprenderem a partilhar o passado para servir de inspiração para o futuro. Nas patas está o coração, que bombeia segurança, quando o mundo abana e parece que vais cair no esquecimento. Onde fluem veias e veios cheios de vida e morte, que te restauram fé e te fazem tremer convicções.

As costas foram feitas para te fazer digno. Para que nunca te falte a postura para lidares com quem te trate mal, pois ninguém te vai espezinhar. Para que olhes de frente e de costas direitas para falares com que respeitas, mostrando que estás com ele até ao fim dos dias e noites. E, principalmente, para que ampares no teu regaço aqueles que mais precisam de proteção, seja o rebento que dorme ou o velhinho que abraças.

O assento, feita de vime e vida, entrelaçado como só um alentejano o saberá fazer. Apertas bem os nós, pois quanto mais apertas, menos sentes a falta de quem partiu na procura duma cadeira mais bonita e mais segura. Apertas até deixares de sentir aquele aperto da terra que clama o teu regresso. Apertas mais ainda, para que os buracos no teu assento não te façam cair no abismo que é a saudade de não regressar ao campo que te fez mas que não te faz mais.

Pinto-te de amor e de carinho, as cores mais belas do Pantone da vida. A cada pincelada, espalhas cada recordação com suavidade, quase esbatida num tom sépia que te faz por vezes duvidar se tudo aquilo que um dia foste no Alentejo, é ainda algo que subsiste em ti. O pai de sacho na mão, de bigode farfalhudo e boina desgastada pelo suor das lides, o terço benzido pela avó, enquanto rezava para te manter seguro enquanto a tempestade passava pelo monte, a santinha que passava de casa em casa, encontrando conforto em cada um dos lares, o pão duro e a água quente, com as ervas mais saborosas do mundo...

A cadeira está hoje rota, desgastada por uma vida de servidão e bondade, aliviando todos e mais alguns que nela se prostravam a um momento de descanso interior. Mas ali se mantém, estoica e orgulhosa, de pé, pela vida que levou e pelas vidas que segurou. E ali ficará para sempre. Nem que seja nas nossas mentes. Tal como as vossas cadeiras.

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