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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

A José Régio.

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Sou apanhado de surpresa. Pensava ir para a Escola Industrial, completando lá o meu ensino básico. Proveniência? Bairro dos Assentos. O nono ano seria feito na Escola Básica José Régio, escola equipada, funcional e apenas a duas barreiras extenuantes de distância, para quem vinha da última rua do bairro.
Tocar à campainha do Ed, o vizinho de cima, arrancando numa euforia de gente nova, esmorecendo mais à frente, à medida que íamos encontrando mais companheiros de romaria diária.
Sempre gostei da Escola. Era composta por instalações dignas, às quais só faltavam o pavilhão, entretanto construído. Tinha um grupo de professores que se completava, como que numa experiência de alquimia que correu bem. Professores da terra, com experiência para tentar baixar cristas de alunos problemáticos e alguns docentes recentemente formados, para dar vida e estímulo a um grupo largo de discentes que já pouco acreditavam na vida escolar, pensando já no negócio de construção civil do primo ou na vida de operário fabril que por aí vinha.
De recursos limitados, a educação que providenciaram foi decerto marcante para muitos alunos do Baco como eu fui, orgulhosamente.
Recordo as aulas de Educação Física de verão escaldante e alcatrão a derreter debaixo dos nossos pés com o agora meu colega, o Professor Luís Pernão, as aulas de casaco fechado até ao cimo onde se vibrava com a epopeia portuguesa, debaixo de chuva incessante as dúvidas até às paragem do autocarro, as guerras de comida numa cantina apinhada de malandros como eu, os banhos tomados a medo da malta mais velha, os jogos de basquetebol a todos os intervalos, as festas de fim de ano no auditório a céu aberto com a população a comparecer em peso, o cheiro da Robinson quando o vento para lá puxava, o toque da apanhada em voltas ininterruptas de caixas torácicas incansáveis, a música brasileira na sala de convívio, o silêncio sepulcral da biblioteca, cortado pela risota duma qualquer revista folheada aos magotes com a Cindy Crawford de bikini, as broncas nos colegas que sobravam para todos, as auxiliares que faziam cafuné depois do curativo em queda no empedrado, as torradas às dez horas, os primeiros desamores, pois as raparigas atuavam em bandos, venerando o mesmo rapaz platonicamente.... Que chorrilho de memórias.
Passaram muitos anos. As instalações viram o tempo passar depressa demais. A escola está velha. Mas por dentro, pulsa de vida, dando esperança e sonhos a meninos e meninas que se atrevem a querer ser mais do que aquilo que lhes parece estar escrito num destino sem grandes expectativas. Pés no chão, de caminho seguro, olhos nas estrelas, com sonhos bem presentes e confiança na instituição que vos educa. Palavra de aluno da Escola Básica José Régio.