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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

A Pastelaria Oliveirinha.

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Há muitos anos que a dona Deolinda e o senhor Manuel tratam bem as pessoas do Bairro dos Assentos e de quem o visita. Comigo também sempre foi assim. Poucas coisas mudaram: o balcão alto e corrido que não me deixava ver ninguém é a que mais marca. Durante os meus anos imberbes, pensei inclusivé falar com uma alma não corpórea que me trocava dinheiro por chupas e gomas, numa espécie de troca espírita sem mediação de charlatães psíquicos. O que é certo é que era sempre saudado pelo meu nome, como se o o tal espírito fosse meu amigo, preso naquela casa e obrigado a trabalhar para todo o sempre.

Entretanto cresci um pouco. E do lado junto à porta apareceu uma vitrine que sempre considerei mágica. Ao acompanhar os meus pais no café depois de jantar em meses de verão quente, ou num intervalo duma jogatana de bola entre pedras e carros, pedindo um copo de água fresca para retemperar forças e líquidos, a minha boca não deixava de permanecer aberta durante longos segundos, como se de um portão avariado se tratasse, com um ocasional fio de baba escorrendo pelos meus beiços abaixo. A vitrine estava repleta de doces e salgados, criando um paradoxo no meu apetite voraz de miúdo de doze anos. Papar um "escargot" à alentejana, cheio de creme de ovo e frutas cristalizadas? Uma pata de veado ainda fresquinha, ainda com aquele cheiro caraterístico de "caça" acabadinha de sair de um qualquer panfleto alertando para os malefícios do diabetes? Ou então os salgados: empadinhas acabadas de sair, mornas, de carne deliciosa e massa estaladiça, que nos diziam para não comer logo, pois poderia causar "destempero" intestinal... 

Continuei a crescer e cheguei ao balcão. E finalmente conheci as almas do estabelecimento. O senhor Manuel, de cuidado bigode, sempre com assunto de conversa, seja o futebol com fervor, ou as notícias da televisão ou do jornal. A dona Deolinda, de sotaque carregado e de uma simpatia extrema.

Os anos passaram. Vou menos à Oliveirinha. mas tudo permanece igual: espaço de pequenas dimensões, mas com uma alma gigante, com os seus proprietários que abraçam todo um bairro...

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