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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Aquilo que não vos disseram sobre os professores.

 

IMG_8694.jpegPedaços de vida de gente com noventa dias de férias, largos milhares de euros mensais de fácil ganho e trabalho folgado em meio dia ainda para gozar. Hum. Contem mentiras tantas vezes que acabarão por se tornar verdades insofismáveis.

Seguem outras verdades.

Na turma de trato difícil, o telefone toca. Lágrimas em catadupa, sem palavra ou movimento. Sai da sala e o mundo desaba. A notícia que se esperava, mas para a qual nunca se está preparado. Limpar as lágrimas, inspirar, voltar a entrar. O espetáculo tem de continuar, mesmo de coração partido.

Concursos, tempo de mudança. De famílias separadas por quilómetros de estradas sem fim, de quartos e casas partilhados com estranhos a preços exorbitantes para o pouco que se ganha acima do salário mínimo nacional.

Definha-se de segunda a sexta, para se encher de ar de amor aos fins de semana. Relações que se desgastam se osso com osso, filhos que sofrem pela distância. Não pode é haver famílias sem aulas. Mas os professores podem estar sem famílias. O agosto servirá para fechar algumas feridas de alma, mas setembro rasgará tudo de novo.

Sextas-feiras roda a tômbola, saem colocações. A professora tenta consultar as listas de coração na mão e a outra mão para o céu. Ainda não foi esta semana. O mundo volta a cair, mas a professora recusa-se a cair com ele. Reinventa-se. Farda no corpo, negócio em nome próprio. Só para aguentar enquanto o seu número não sai nesta tômbola malfadada, que corrói quem quer fazer do ensinar e aprender vida. E ainda falam todos os dias da falta de professores.

Três pequenos nós num emaranhado de verdades sem desembaraço possível. Três pequenas verdades num julgamento populista que arrasta uma classe para a lama da injustiça e do preconceito. perpetuar inverdades apenas enfraquece quem já luta todos os dias para criar uma sociedade justa e informada. 

Um professor é um ser cheio de falhas a quem pede capacidades sobre-humanas. Mas se conseguiram ler até aqui, agradeçam a um professor. Se detetam uma ponta de ironia no que escrevo, com um professor aprenderam. E a maior retribuição que pode dar a um professor é não contribuírem para que todas as mentiras que contam sobre eles se tornem verdades aos olhos dos incautos e facilmente manipulados. A corja docente, os parasitas do ensino, vivem lá em cima, onde atam mais nós em vez de os desatar.