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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Até breve. Até já. Até nunca.

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Até breve. Portalegre, meu amor, vou partir. Não chores a minha ausência. O problema não és tu, sou eu. Perdoa-me se não me habituei às tuas taras e às tuas manias. O quereres sempre que fique contigo, quando me dás tão pouco. Sinto-me por vezes uma planta ressequida de amor e atenção, que sem os quais não consegue crescer, desenvolver-se e permitir que pousem sobre o teu solo as minhas raízes, que quero bem assentes numa vida tranquila e segura, sem sobressaltos de desemprego ou de insegurança. Não chores por mim. Não digas que sofres, porque hoje sou eu que parto e amanhã será outro alguém que o fará. Não te é permitido o luto, pois a debandada dos jovens, do teu futuro, assusta-te bem mais a ti do que a mim. Limpas as lágrimas que te são permitidas chorar, e definhas em ti própria, num marasmo repleto de saudade e ânsia por dias melhores. Apenas a certeza que um dia, mais tarde do que mais cedo, voltaremos para amparar as tuas pernas velhinhas, impedindo que te desmorones sobre ti própria sem que te consigas alguma vez mais levantar.

Até já. Vou ali estudar e já venho. Contigo aprendi tudo o que sei, mas se o mundo é a minha ostra, porque me hei de ficar com o pedacinho de casca que tu me ofereces? Quero mais, preciso de muito mais. Não te sintas ofendida, contigo aprendi grandes lições. Mas já não consigo viver somente de teoria. As asas que me deste precisam de ser abertas e lançadas aos ventos deste mundo, as velas que me ajudaste a moldar precisam de céu, sol e sal que aqui nunca vou sentir. Bem sabes que o tempo passa a correr, e eu a correr virei para ti. Deixa-me viver um pouco, sonhar mais alto. E prometo-te que virei mais maduro, mais confiante. Parto para voltar, para te fazer melhor, para te proteger, para fazer de ti a melhor senhora que o Alentejo já viu, formosa na tua vivência, bela na tua história, irrepetível por seres única.

Até nunca. Não te perdoo. Nunca te perdoarei. Fechaste-me em ti contra a minha vontade. Controlaste os dias e as noites, e um seguiu-se ao outro, e mil seguiram outros mil, sem que o tempo passasse por ti e passasse por mim inexoravelmente. Eu tinha planos para mim, sabes? Eu ia ser tudo aquilo que poderia ser. E por causa de ti, sou apenas poeira estelar no meio de constelações. Centraste-me num corropio de trabalhos sem aspirações, numa promoção daqueles que sempre estiveram mais perto do poder. Assobias para o lado quando te exigi mérito, baixas a cabeça quando te pedi por tudo que me era mais sagrado que fosses honesta e menina de bem. Não te perdoarei jamais. Por mais vento que sopre nas serras esfaimadas por ordenamento, por mais telha que falte no teu centro histórico que proteja o velho e o novo, por mais meninos de bem que ponhas a trabalhar em vez de viverem de conhecimentos... Nunca mais te quero ver. Levo o teu cheiro de boleima quente e roupa branca lavada a corar. E não preciso de mais nada teu. Adeus.

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