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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Con(finados).

Com o fim à vista, sem sinal de que os abutres covidescos nos larguem a porta, a família, o coração, que fica mais apertado a cada abertura de telejornal. E para casa vamos. Mas em casa não ficamos. Então de que adianta? De que serve matar negócios, relações, obras, apoios, se a doença vai continuar a matar mais. E muito boa gente e muito má gente parece ter perdido o respeito pela Senhora Morte que insiste em pernoitar nos nossos lares e a tirar o ar aos seres ventilados? De quê?

Confiando, sempre, naqueles que insistiram num natal populista e agora ordenam uma quarentena anarquista, onde os velhos ficam em casa, os novos vão estudar e os velhos e os novos não ficam em casa e têm medo de ir estudar. Até quando será possível confiar em quem nos empurra para o desfiladeiro final? Impunes! Até quando veremos partir quem amamos enquanto assistimos a conferências de imprensa de seres devolutos de compaixão? Até quando a confiança não se tornará ódio e revolta e mudança? O estado jurou não abandonar. E abandonou.

Com finados agora nas centenas, banalizam-se mortos como quem fala de meros números sem alma, sem vida, sem história e sem um legado. São seres simplesmente apagados do disco rígido da pandemia. Aquela pessoa que morre tem um prazo de validade na sua elogia de menos de vinte e quatro horas. Passado esse tempo, dá-se o mesmo tratamento cronológico a mais uma série de mortandade que nunca se viu, mas que não parece assustar nem respeitar.

Confinados estivemos e voltamos a estar. Com medo de um futuro que banalizou a morte. Com um receio do amanhã que não sabe o que estará ainda de pé enquanto as nossas fundações continuam a ser postas à prova todo o dia, todos os dias.

Voltemos a confiar uns nos outros. Mas sempre desconfiando uns dos outros.

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