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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Da Pathé à de Elvas.

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A subida era vertiginosa já na altura. Mesmo com corpos enrolados em trapos e mentes de criança que não pensa nem tem que pensar num futuro incerto, vir do fim do bairro até cá acima era uma prova dura, mas de que ninguém se evitava.

A subida começava bem antes da subida em si. Existiam outra altimetrias para subir durante a semana, para que o interregno escolar de dois dias chegasse. Escola e seus trabalhos, escola e suas amizades, escola e seus (des)amores. A semana rodava e rodopiava, num pião que não parava e deixava buracos fragmentados na nossa memória cada vez mais esquiva, seletiva e ocupada com outros fragmentos que nutrem outra importância aos olhos do adulto responsável.

Na quarta-feira já se combinavam as equipas para a tarde de sábado no Pavilhão Municipal, onde dezenas de equipas se juntavam para se encontrarem em campos opostos de pisos levantado e de calor abrasador... Sofrimento, diziam os nosso pais. Sabem lá eles! Hoje sim, há sofrimento no mundo, nas pequenas coisas que acontecem ao nosso redor e nós, engolindo em seco, viramos as costas até que deixemos de sentir a necessidade de as virar.

Eu e os meus vizinhos, companheiros de bola, éramos uma espécie de aspirador que congregava aos poucos e poucos todos os amigos que nutriam daquele amor que não se explica pelo convívio religioso à volta de um pedaço de plástico esférico. Rua por rua, todos se iam juntando, enquanto batíamos o bairro sem esquecermos ninguém. Aquele bairro sempre nos uniu, mas quando chegássemos “lá acima”, era cada um pela sua rua... Chamemos-lhe “rualização”. O verdadeiro jogo começava bem antes do campo: todos juntos em cavaqueira até chegarmos ao Conchinhas. A partir daí, começava a subida e a concentração.

A subida começa longa e sem muita inclinação, como se a pudéssemos comparar aos melhores anos da nossa vida que vivíamos e não sabíamos. Fomos evoluindo, fazendo de nós aquilo que entendíamos, como de massa moldável nos tratássemos. Ali bem perto dos bombeiros, há uma curva que inclina, que faz mudar de direção, que se assemelha ao primeiro encontro com a vida adulta, que nos faz mudar e transformar a forma como a encaramos. A vida no passeio continua inclinada mas estável, talvez estável demais, quando nos parecemos conformar com a vida que temos, quando fazemos o primeiro balanço em que avaliamos se teremos feito tudo para sermos verdadeiramente feliz. Saberemos o que é ser feliz, na realidade...?

Do Charrinho à Rua de Elvas é um instante, sorrindo de antecipação quando chegávamos à Cidade, que sempre fez questão de julgar como diferentes aqueles que vinham dos bairros de gente lutadora e trabalhadora. Aqui éramos diferentes. Aqui uníamo-nos mais, para ultrapassar as dificuldades que só viver num bairro social traz para cima das nossas mesas.

Sempre interpretei esta subida como um teste à perseverança de todos que palmilharam caminho acima, caminho abaixo durante anos, décadas, este traçado de muito suor e de almas cansadas em corpos derrotados.

Subo-a agora e vejo-vos a todos, de sapatos rotos por baixo. Desço-a depois e continuo a vislumbrar-vos, de quase noite escura, com cheiro a empenho e alegria de horas e horas a fazer o que mais se amava. Uns de chinelos, outros até de pé descalço, de bolhas rebentadas que causam um novo desconforto. Mas tudo estará bem no próximo fim de semana. Tudo estará bem para uma nova subida.

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