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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Do Pinoco até ao céu – Parte I.

 

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Naquele tempo dos tempos passados, interessava era explorar. Pelo menos até que soasse o alarme do segundo esquerdo, no som vocálico que se espalhava por todo o bairro se assim quisesse toda e qualquer mãe numa varanda. Com aquele tom certo de barítono e de irritação pelo atraso à hora de jantar, que se não fosse correspondido o mais rapidamente possível, poderia dar origem a uns cascudos ou a umas sacudidelas de pó em forma de chinelos. Isso não era o pior de tudo; o que mais nos deixava lixados era saber que o raspanete iria também ele ecoar por toda a rua e que todos os nossos amigos estariam a gozar, entre dentes, enquanto engoliam o jantar para voltarmos para a rua. E o gozo perduraria toda a noite.

Sempre fomos filhos da rua. Foi lá que crescemos, que nos relacionamos, que aprendemos o que não devíamos e que fomos onde não nos deixavam. O Pinoco era um desses sítios que era visto como um lugar perigoso, onde gente ruim se juntava para fazer coisas ruins. Era onde se passava droga, era onde os casais iam para terem momentos juntos, sem percebermos muito bem o que iam fazer, não fazia muito sentido. Então é óbvio que se tornou imediatamente o sítio a visitar. O plano foi delineado: teríamos que ir de noite, logo após o jantar, para dar tempo para lá irmos, porque era quinta-feira, e nesse dia tínhamos que vir para casa mais cedo. Que meninos certinhos! Não, às quintas era noite de cinema interessante no Canal 2 e já toda a gente estaria a dormir nas diferentes casas espalhadas pelo bairro trabalhador... Vocês sabem ao que me refiro...

Pusemo-nos a caminho. Primeiro passamos pelo olival, mas sempre em alta bisga. Aquela casa tinha um ar suspeito e o homem que lá vivia lançava sempre uns olhares estranhos. Havia quem passasse por lá só para fazer mal, atirar umas pedras, mandar uns gritos na segurança que só o escuro da noite providencia. Não era a nossa missão. Queríamos chegar rápido ao Pinoco e ver qual era o encanto... Passando pelo campo da bola, com as famosas balizas feitas de oliveiras prostradas convenientemente, levando a brigas para escolher a mais pequena e o campo com menos raízes, a subida começava lenta mas endurecia rapidamente. Ainda tínhamos que ter cuidado com as vacas que por ali andavam. Coração sempre em altas, o cimo aproximava-se a uma velocidade que nem nós esperávamos. Porque da nossa rua aquele sítio quase que se confundia com o céu. Escalamos com destreza algumas rochas e os ruídos deixaram de ser da vida animal noturna duma noite tórrida de verão. Vozes, gritos, gargalhadas histéricas. A subida continua. Aqui adota-se a ensaiada postura quase em modo ninja. Sorrateiros, entre sorrisos miudinhos e escorregadelas de chinelos que raspavam os pés. O breu era substituído pela claridade de gente e mais gente em amena cavaqueira, todos mais velhos, todos mais intimidantes. Uma perna escorrega. Uma rocha desmorona-se um pouquinho, e onde antes se ouviam gritos e sorrisos de bocas cheias, dão agora lugar a um silêncio que incomodava. Ninguém se mexia. Podia ser que não fosse nada, será que se foram todos embora?

E eis que vimos e sentimos uma verdadeira chuva de pedras que se abatia sobre estes ronins dos Assentos. Deram pela nossa presença, a nossa missão estava comprometida! A única solução era a fuga. “Bora, baza! Já não vamos aos pirilampos!”, numa corrida desenfreada monte abaixo debaixo de um coro de apupos e ameaças e de pedras que zuniam demasiado perto. Ninguém via o caminho, mas corríamos como se estivéssemos com as luzes do Poli à nossa frente! O medo e o sorriso corriam de mãos dadas na descida atribulada que já não conseguíamos abrandar, tal era o embalo! E de repente, um de nós desaparece! Que terá acontecido? Outro! Caraças, ´tou todo borrado!

Afinal eram apenas covas que  estavam escondidas na imensidão da noite que já envolvia mais aquela noite de verão. Com marcas de guerra, de chinelos e caras rebentadas voltamos a casa, cansados e já a recordar o que tinha acabado de acontecer, planeando já a próxima investida...

Mas hoje já não dava mais; os pais da malta já tinham ido dormir para mais um dia de labuta e tínhamos que ir para o Canal 2...

(continua...)

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