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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Do Pinoco até ao céu – Parte II.

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Anos passaram, barbas cresceram, o literal pelo na venta cresceu e tornamo-nos ainda mais insuportáveis. Os pais gritavam, o pó era sacudido das costas pela mãe quase impotente num exercício de provar que ainda manda, que ainda se mantém no poder. Isso não aconteceu porque tudo mudou. Os verões sucederam-se em peripécias infantis que agora não cabem na mente de grupos de jovens adolescentes, cheios de sangue na guelra e vontade de viver, experimentar.  Miúdas, eternas inimigas, tornaram-se objeto de interesse contínuo, de obsessão quase, fixação naquelas dores platónicas que só um teenager sabe como dói, mesmo sem saber nada sobre as dores vindouras de ser adulto. Ser adolescente é viver numa eterna hipérbole, onde algo é tudo, onde o pedido é ordem, onde o educar é escravizar.

 O lado proibido até então do álcool e das drogas leves torna-se demasiado atrativo. O querer pertencer a uma manta retalhada de gente que quer ser gente. A ilegalidade e o seu feitiço atrativo, que nos tornava todos especiais, diferentes.

O Pinoco aparecia mais uma vez como o ponto de abrigo, que albergava vários grupos de jovens a relacionarem-se, a partilharem experiências, a sentirem-se vivos. Ao entardecer, falava-se com alguém para ir ao Daminho ou ao Mário Silva comprar umas granadas, termo carinhosamente aplicado a cerveja de meio litro que chegava para soltar o mais tímido dos bornais no meio do processo de mudança de voz, de pelos em sítios incautos e de sentimentos fortes que não se conseguem explicar, mas que levam a muitos baixares de cabeça e gravações de música sofredora em cassetes que levavam já voltas e voltas de fita reutilizada, pois todos os dias havia um amor e aquele seria para sempre, até à manhã seguinte.

As cervejas eram escondidas no meio do capim, porque havia ainda o jantar e andava sempre por ali o Cocas que as rapinava. Que olhar ameaçador!

Sacas velhas do pão que se transportavam com o maior cuidado, pois a carga era preciosa, mas não só: ao mínimo tilintar de vidro com vidro, soaria na rua deserta como repicar dos sinos da Sé num domingo de missa e as adoráveis cuscas apareceriam em janelas meio entreabertas e marquises semicerradas para se chibarem aos progenitores, havendo um chinelo à nossa espera no regresso que sacudiria somente o pó dos nossos calções estafados.

Começa a subida até ao outrora Everest. Agora pernas longas, as canetas longilíneas desmultiplicavam-se em passos acelerados e ansiosos pela chegada vertiginosamente rápida. A galhofa é total, proferindo o maior número de obscenidades possíveis, pois aqui elas são língua, são comunicação entre pares e ímpares que nos sentíamos perante um mundo que parecia odiar-nos e que a ele retribuíamos com o desdém que só um rés de gente que ainda dorme de luz acesa, sem ninguém saber, pode transmitir.

Abancados no topo, o breu domina e desinibe, bem como as granadas quentes que pulverizam jovens estômagos. Nada de dar parte fraca, isto é claramente a melhor coisa que se provou, deixando a fresca e deliciosa groselha de verão bem lá atrás. Mentíamos uns aos outros e todos sabíamos que o fazíamos. E estava tudo bem.

De garrafas já partidas, uivamos para o mundo a nossa libertinagem, o facto de que aqui de cima o mundo ser nosso e nada mais existe do que o agora. E nós somos tudo e o tudo que nos é exigido é nada. Gritos de raiva contra as injustiças que o bairro nos cria e nos torna mais fortes; sons guturais que ecoam contra uma sociedade que não nos compreende e nos tenta mudar, e que nunca o irão conseguir.

Meio tocados voltamos ao bairro, saindo do nosso reino. Ao chegar a casa, já mascando a pastilha Gorila de banana por causa do bafo etílico, pergunta a mãe, sacerdotisa do chinelo, se tínhamos ouvido os gritos que vinham de parte incerta, que todos assustaram na Luis Pathé... Encolhem-se os ombros e ri-se por dentro, que para a semana haverá mais gandaia no Pinoco.

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