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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Encarnado e branco.

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Ver e sentir o Benfica, seja no estádio ou no bar da esquina, começa antes do árbitro apitar. Muito antes. Façamos essa viagem com um típico adepto benfiquista de trás para a frente, isto é, do momento em que bola vai começar a rolar no relvado verde e resplandecente, até ao início. O verdadeiro início do jogo para aquele que vive, sofre, vibra, angustia, exalta Benfica.

Entrada no Estádio: O adepto depara-se com a verdadeira grandeza e imponência das instalações a que chamamos orgulhosamente “casa”. Para, olha de cima para baixo, conseguindo abstrair-se de toda a azáfama sonora que o circunda, contemplando a estrutura em três tons de cor. O queixo cai de cada vez que lá vai. Depois daquele primeiro impacto, os sons voltam a fazer-se ouvir na sua cabeça, seja da criança vestida a preceito com as cores benfiquistas, seja do grupo de amigos que se une de quinze em quinze dias para passar o dia em verdadeira família, passando pelos escalões de formação pela manhã, a tarde nos desportos e amadores e finalmente o fim de tarde para os noventa minutos de arreliamento de coração e de explosões de revolta e alegria. (Recuemos mais um pouco).
Roulotes: Isto de saltar, torcer e vibrar requer alimentação hidratação dignas de corações palpitantes. A bifana e as cervejas cumprem esse papel na perfeição, em grupo de amigos, formando um grande exercício que se banqueteia antes de ir para a guerra. O convívio entre pares e ímpares é singular, e o amor ao jogo é inequívoco... Discutem os treinadores de bancada, revelam-se preferências de jogadores, analisam-se melhor jogadas e opções táticas do que em todos os programas de domingo à noite, com os seus pseudoespecialistas... Venha mais um rodada! (Mais para trás.)
A viagem até Lisboa: Começa cedo para alguns. Deixa-se a família em casa, troca-se o dia no trabalho, mete-se um dia de férias. O que interessa é estar lá, a todo o custo. As consequências virão só no dia seguir. O importante é estar com eles, caminhar ao seu lado. Jogadores, estrutura técnica e eles e elas, todos a lutar pela glória benfiquista. A mentalidade está totalmente concentrada naqueles noventa minutos de prazer puro, de estravasar de emoções, de exorcizar demónios que toldam os pensamentos de uma vida complexa e difícil. Mas durante aquele momento no tempo e no espaço, nada mais existe. Lidar-se-á com a realidade no dia seguinte. (Atrasemos mais o relógio.)
A ressaca: Faz dois dias que o Benfica jogou. O dia seguinte correu bem. Mais uma vitória, mais umas pulsações aceleradas, muita dopamina produzida no organismo. Mas só as memórias dessa noite gloriosa já não vão chegando. Foi bom, sim. Mas já queremos mais. E ainda falta tanto para o próximo jogo. Alguns quatro dias, noventa e seis horas. O trabalho custa a passar, o tempo arrasta-se de forma lânguida. E no Alentejo, pior. A flor vermelha no canteiro da vizinha. O tapete à porta da casa da mãe. As meias do clube da terra. Tudo lembra aquele amor. O Amor. E então procuramos algo que consiga tapar aquele buraco no nosso coração até ao próximo momento de reenchimento, de nos sentirmos plenos. Compra-se o jornal, vê-se o canal do clube, debate-se com amigos da mesma ou de diferente alma clubística. Mas não é a mesma coisa... E ainda faltam noventa e cinco horas. (Recuemos uma última vez.)
Fim do jogo: Mais uma vitória! Egos repostos, orgulho enorme naqueles que lutam e ganham por nós, transportando-nos a todos numa viagem alucinante que se pretende que termine em títulos, glórias que serão recordadas para as novas gerações de benfiquistas que aí vêm. A garganta seca e dorida de tanto gritar, onde a voz uníssona de sessenta mil conjuntos de cordas vocais vos guiam ao esforço máximo, à luta constante e à conquista de mais três pontos. O orgulho materializado numa lágrima e num sorriso, juntos, que aparecem no momento do apito final. Abraçam-se os companheiros, nas despedidas da arena...
E é aqui que começa o próximo jogo.
Voltemos ao presente. Ser benfiquista nunca poderá ser algo a que se dedica hora e meia da nossa vida, como a qualquer outro “hobby”. Vive-se de forma intrínseca, dentro de nós, sempre. Altera o nosso estado de humor, sim. Enche-nos de orgulho e faz-nos vociferar as coisas mais terríveis. Mas só assim se vive o amor. E quem já amou, sabe que só assim pode ser, só assim faz sentido ser vivido.
O próximo jogo de SLB começa exatamente depois do anterior ter terminado, porque não há folgas no amor. E o próximo jogo já começou.