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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Eu.Tu. Nós.

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Tenho seis anos. Vim com um amigo que me disse que me ia divertir, jogar à bola e fazer novos amigos. Entrei nervoso, pois não conhecia mais ninguém. Apresentaram-me o “mister”. Fiquei meio envergonhado, mas quando me passaram a bola... Os temores e as inseguranças deixaram de existir. Nem dei pelo tempo passar. Aprendi a passar a bola, porque ela é só uma, e somos tantos a querer estar com ela... Ensinaram-me que não interessam os golos, as defesas, nem os gritos de apoio nem as vaias, porque dentro daquele pequeno campo posso apenas contar com aqueles que me ensinam, e com os meus irmãos de outras mães que o partilham comigo...
Agora tenho muitos amigos no Desportivo. Conto com eles e eles contam comigo. Porque o Desportivo não é do meu colega que faz muitos golos, recebendo abraços nossos quando os faz, nem do meu amigo que leva um “frango”, que encorajamos todos a levantar-se mais forte; este clube é de todos, este clube somos nós!
Doze anos. Já gosto mais da redonda de couro do que da escola. Mas sei que uma não vive sem outra. Por maior que seja o amor ao futebol, a prioridade é aprender para poder ser alguém, mesmo que até dê em jogador de futebol. Quem sabe? Passe, receção. Remate, cruzamento. Jogo aéreo, esquema tático. São expressões que conheço bem, para surpresa da minha mãe, que me diz sempre que se fossem definições de História de Portugal não aprenderia tão facilmente... E tem razão!
O empenho nos treinos é máximo, para que o “mister” e os meus manos da bola se orgulhem de mim. Para que tu, pai, te orgulhes de mim. Tento sempre o máximo, sou exigente comigo mesmo. E por isso te digo, meu pai, que tenho que te pedir a mesma exigência. Não gosto quando gritas, quando insultas árbitros, quando me pedes para bater nos adversários. E por que o faria? Estamos em lados diferentes do campo e a luta tem que ser dura mas leal. Tal como a vida. Não foi isso que sempre me disseste? Não vivas o futebol por mim, no meio das tuas frustrações. Vive o futebol comigo. Alegra-te com as minhas vitórias e encoraja-me nos momentos menos bons depois do apito. Nada mais te peço, pai.
Dezasseis anos. O tempo voa. Parece que foi ontem que o equipamento me caía enquanto corria, e agora já repousa numa gaveta lá em casa. Cresci. E não foi só em tamanho. Estou consciente que a adolescência me apresenta escolhas que não tinha até agora e que me podem desviar deste amor eterno ao azulão. Os primeiros amores, as saídas à noite... Tenho amigos que abriram mão deste amor. Não os censuro, pois não é fácil conciliar escola, vida social e amorosa e a bola. Mas não contém comigo. O meu objetivo é fazer parte do plantel da equipa sénior do clube do coração e vou fazer tudo para o conseguir. As bebidas e as noitadas podem ser doces, mas nada é mais doce do que o festejo de um golo em equipa, entre saltos e gritos em uníssono. Os amores podem mexer com o meu coração, mas nada o faz bater mais do que apoiar a minha equipa na bancada, gritando a plenos pulmões, tal qual uma serenata a mil decibéis. A escola vai fazer de mim um membro da sociedade, mas o futebol incute-me também valores que me vão tornar um cidadão de plenos poderes e de plena realização.
Haverá tempo para tudo. Só não pode faltar tempo para o 1925.
Dezanove anos. Valeu a pena. Tudo o que desejei desde os meus seis anos. Volto a sentir aquele nervoso miudinho que me acompanhou no primeiro treino de todos, há tantos anos atrás. Revivo, como num filme, todas as noites de chuva incessante, as tardes de calor abrasador, o frio que enregelava a alma, todos essas agruras que só tornam esta minha conquista ainda mais saborosa.
Sou agora atleta dos seniores do meu clube de sempre e para sempre. Mas esta conquista não é só minha. É também de todos aqueles que me ajudaram nesta caminhada, que me formaram como jogador e como homem. É dos meus colegas, amigos, irmãos, família. Porque como diz o nosso lema, “O DEPOR NÃO ÉS TU, SOMOS NÓS!”

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