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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Farinha, água, açúcar e amor.

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São as coisas mais simples que nos encantam, são os momentos mais inesperados que recordamos quando fechamos os olhos no fim do dia, ao fazermos a retrospectiva da jornada. Pelo menos comigo é assim. Enquanto outros se repastam em momentos “gourmet” da vida, eu mais mundano me confesso. Coisas de gente de bairro. Roupas genéricas, tratos afáveis mas sem exageros, comida reconfortante com o essencial que a terra e a genialidade humana, no seio das suas dificuldades alimentícias, criaram.

O povo alentejano será o epíteto máximo do aproveitamento. “Nada se estraga, tudo se transforma”, diria o Lavoisier, se tivesse nascido ali para os lados da Urra. Quem não teve uma avó, um tio, um vizinho assim? Que se zangava com a fatia de pão que ficava verde fungo?

Numa época de consumismo desenfreado e desperdício desmesurado, teríamos muito a aprender com o povo que viveu e cresceu há algumas décadas atrás...

Voltando ao propósito do texto, finalmente: adoro massa frita, brunhol, farturas. Chamem-lhe o que quiserem. Prefiro  a nomenclatura “massa frita” porque é simples, como eu, sem atalhos ou subterfúgios. Diz o que é, sem falsas pretensões ou desígnios enganadores. É quase um nome científico. “Mistura heterogénea entre o cereal e H2O, auxiliado pelo contacto com o óleo vegetal a altas temperaturas”.

Tenho gratas recordações de comer esta pequena bomba calórica, que continua a adocicar-me o coração e os valores da diabetes. 

Da casa da avó ao largo das camionetas, onde estava a pequena barraca de lona verde, era um caminho longo e tortuoso para uma criança esfomeada num sábado de manhã. Apenas neste dia se reunia a aldeia em volta do tacho enorme. 

Seguia-se a espera, em longa fila, de conversa entre vizinhos, do jogo de futebol do fim de semana, Caia - Urra, da Ti Maria que estava entrevada em casa, coitada. 

Não conhecia ninguém. Os sons eram abafados pelo crepitar do óleo, enquanto o mestre fritador, de máquina de alumínio, esguichava a mistela para dentro do tacho de forma perfeita, concentrada, num movimento que me hipnotizava de cada vez que o fazia, criando circunferências cada vez maiores, maiores, lembrando cobras enroladas à sombra, ou um padrão caleidoscópio que nos prendia o seu olhar. 

De vez em quando saía-me a sorte grande. Tinha direito à “cabeça”, pedaço maior, mais grosso e menos perfeito. Que prémio perfeito para o início do meu fim de semana no campo, nesta caçada semanal. 

Polvilhando de açúcar e canela, neve branca e castanha que torna tudo na vida mais fácil...

Na Urra já não há. Há na Praça. Vou de vez em quando reavivar velhos tempos nesta nossa nova realidade. E sabe-me tão bem como antigamente. Já não me calha a cabeça, mas fico bem com o café de saco. 

E tu? Que memórias te trazem a farinha, a água, o açúcar e o amor?

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