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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Festas dos Alvarrões pela voz de uma festeira.

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Amo a minha terra que me viu nascer, que me deu ensinamentos que carrego com orgulho para a minha vida. Nos Alvarrões aprendi com o trabalho no campo das pessoas, que a humildade nos faz melhores, mas não melhor que ninguém. Com a minha mãe aprendi a gostar de mim, e assim a poder gostar dos outros. E com a união, perseverança e uma pequena dose de loucura para organizar uma festa que move a comunidade, aprendi que o trabalho em equipa é fundamental para o sucesso.
As festas em honra do Santo padroeiro são sempre o ponto mais alto de qualquer terra. E a minha não é exceção. As festas em honra de Nossa Senhora da Conceição monopolizavam toda a minha atenção de gaiata.
Volto então atrás no tempo. Desaparecem as preocupações de adulto e restam apenas as alegrias de se ser menina e moça. Costuma dizer-se que a festa começa muito antes da festa. E eu como festeira sei-o bem. Ao entrar no recinto, ainda despido de infra-estruturas, espinha dorsal deste organismo vivo, reajo de forma pavloviana: os meus dedos ganham vida própria e iniciam automaticamente a enrolar pedaços de papéis de quantas cores tem o arco-íris. A quermesse assim obrigava, e as noites antecedentes à festa eram passadas assim. Numa roda de novos e velhos, em cavaqueira de pão e queijo partilhados, de garrafa de licores giratórias e de vinho novo do vizinho, milhares de rifas eram preparadas como se de máquinas nos tratássemos.
Rifas feitas, precisávamos de prémios. E aí íamos nós, os mais novos e sem vergonha na cara, para a Rua do Comércio pedir de sorriso rasgado às lojas que inundavam a mais icónica rua portalegrense: roupa fora de estação, loiça ultrapassada, sapatos com menos saída, recebíamos de tudo. E isso era o que fazia da nossa quermesse um verdadeiro sucesso. Nunca se sabia o que poderia calhar na rifa, literalmente...
O embelezar dos andores. Ui, que recordações. As flores eram ofertadas com gosto, fosse por floristas ou pela velhota da aldeia. Todos tinham prazer e orgulho em contribuir para a ornamentação dos expoentes máximos da nossa procissão, verdadeiras operações cosméticas florais que tornavam os nossos quatro andores os mais bonitos do distrito, sem qualquer dúvida.
A procissão. Algo a que aprendi a dar valor e importância mais tarde. Símbolo máximo de devoção e crença, acreditando que o que tive e tenho, a essa crença o devo.
Mas o melhor de tudo era a festa em si. Quando o céu se pintalgava de negro e o frio da serra começava a soprar, estava na hora de trabalhar. E de me divertir. Nunca a expressão “ trabalhar com gosto” fez tanto sentido para mim. Inocência de criança...
Nas minhas festas, prendíamos primeiro as pessoas pela tradição e pela adrenalina. As afamadas garraiadas dos Alvarrões nunca desiludiam, seja na qualidade das pegas, onde os mais conhecidos forcados de ocasião se digladiavam com máquinas de carne de quinhentos quilos a todo o vapor na nossa praça, fosse no apoio que lhes era dado pelas centenas de pessoas que lá estavam, todas procurando um pouco de ação.
Passada essa descarga de emoções, a barriga dava horas. E é aqui que entrava e ainda hoje entra o nosso ex-libris gastronómico: o leitão frito. O cheiro assola-me neste momento. Portalegre em peso deslocava-se à minha terrinha para saborear este delicioso pitéu, sempre bem acompanhado de cerveja e vinho e animação. Mesas longas, corridas, cheias de animação, de partilha entre desconhecidos ou de reencontros de famílias separadas pela distância a que o emprego obriga. E os festeiros, numa azáfama desconcertante, num corrupio de pedidos, de trocas de barris, de frangos assados por entregar, de salsichas em carvão fumegante, de venda de senhas e contas feitas à mão em papel manteiga.
E para queimar as calorias ingeridas, nada melhor que dançar música popular portuguesa até o dia raiar. Onde os novos se fazem foitos para pedirem àquela menina gira se querem bailar uma moda, onde os velhinhos recordam tempos que já não voltam, entre searas e pastoreio.
Nos Alvarrões festeja-se à antiga, sem grandes mudanças ou evoluções. Tem-se orgulho nas suas origens, naquilo que faz de nós especiais, únicos.
Este fim de semana lá voltei. Vi os meninos e as meninas da terra, cada vez menos, devidamente identificados com as camisolas dos festeiros. Bateu uma saudade... Quis voltar a ser cachopa e ajudar nas mil coisas que há para fazer. Mas percebi que o futuro das minhas festas está assegurado.
Amo as minhas festas. Amo a minha terra. Quadro pintado de tempos idos, que permanece imutável. E ainda bem que assim é.
(Obrigado pelas três papaias, festeira Filipa!)


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