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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Ir ao Ti Zeca.

A entrada imponente. Porta larga de madeira maciça, que nos levava a umas pequenas escadas descidas em passo lento e cuidadoso em passada de criança com não mais de cinco anos de idade. Sempre de boca aberta, admirando as luzes que davam “glamour” aos copos de vidro expostos de todas as cores e que pareciam enfeitiçar em seu redor serpentes de fumo expelidas continuamente das bocas em negrume que se sentavam em bancos altos, de frente para o balcão, olhando sem expressão para o fundo do copo, na procura de que isso lhes apaziguasse a mente.
Balcão corrido e alto ao qual não chegava, de madeira escura, perdendo-se o meu olhar em homens grandes e alegres numa conversa com tom demasiado estridente. Gosto de pensar que existia ali uma cacofonia donde surgia toda uma grande conversa dentro de pequenas conversas, onde pequenas vidas eram relatadas em forma de queixumes.
Pois a vida era dura, mas o Zeca tinha sempre umas palavras amigas para dizer. Era o maior o meu padrinho. Naquela posição de destaque, era ele que distribuía àqueles homens amargurados o sumo que os alegrava mediante o seu consumo, quando o seu fado, saudosista e taciturno, se tornava momentaneamente em alegria esfuziante, até que dali saíssem para uma realidade bem diferente. Ali tudo era diferente.
Mesas grandes, com sofás de napa verde, opunham-se ao balcão, onde o engraxador bebericava uma Carlsberg, rasgando o seu logótipo dourado, queixando-se do barulho que os cães do vizinho fazem durante a noite; onde a mão em tremelique do inveterado bebe a sua aguardente de golo para acalmar os demónios interiores; lá também onde se ouvia o poeta declamar a sua arte, de copo na mão, de olhos fechados, ouvindo-se apenas o ininterrupto som da máquina do café.
Quantas memórias. Mais um daqueles sítios que dói por lá passar. E o meu padrinho, o Zeca, nunca mais lá passou.

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