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Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Há Em Nós Qualquer Coisa

Vidas de 400 palavras.

Ivone.

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A tia já não está entre nós. Foi ter com o seu amado, que a aguardava há anos num outro sítio para a mais incrível das suas viagens, longe da sua África querida que saudosamente recordava através das suas estórias contadas como se as experienciasse neste momento, com um nível de detalhe só ao alcance de mentes sabedoras com mais de oitenta ciclos de mais de trezentos dias.

Num pequeno recanto do seu apartamento, no alto dum quarto andar na majestosa e imponente Penha de França, com vista esplendorosa para a menina e moça, bailando para a Penha a ver, em todo o seu movimento e cor singulares.

Abro o aparador da sala, que ostenta orgulhosamente as fotos da família, bem como toda uma coleção de música em vinil, de gosto eclético e requintado, com abertura para a dança fácil e ao mesmo tempo para a audição silenciosa, de poltrona e copo de vinho tinto. Tchaikovsky, Zeca Afonso e Amália. Encafuados, entre serviços de copos de cristal, que só se usam em ocasiões especiais, mas nenhuma é especial que chegue, e teias de aranha de tamanho considerável, encontro-os. Que surpresa. Transístores. Limpo as teias, como se de um leque de tesouro se tratassem. Já não recordava o pesados que eram. A tia sempre teve um carinho especial pelo antigo, pela fiabilidade que sempre representa aquilo que deu origem ao descartável, ao sol de pouca dura que temos com os objetos hoje em dia, e, consequentemente, com as pessoas. A tia não acreditava no desapego, na partida. Por isso havia sempre lugar para uma torradeira que apenas queimava, para um abraço com mais de dez segundos, para um rádio ranfonho, pois o som límpido do digital não tinha grão, não tinha alma. A tia era orgulhosamente analógica. Terna no toque, ríspida na chamada de atenção e acalorada nos trejeitos.

Que peças de arte magníficas. Estes rádios sempre ligaram o mundo um ao outro, de capital em capital.

Segue-se a estática. O aquecer das válvulas. O barulho ensurdecedor de mil pessoas em assobio uníssono. Baixo o som de imediato, não venha a tia ver o que se passa.

Paro em Bratislava. A batida impõe-se no ar. Ecoa na sala “Shout”, dos Tears For Fears. A tia não ia gostar. Música moderna era das poucas modernices a que não se adaptava. A música parou nos anos setenta, apenas com tolerância às atuais fadistas dissidentes. Segue-se a ícone, Tina Turner. Na sua voz, o amor não tem nada a ver com o que se lhe atribui. Para que temos um coração, se ele pode ser partido? A tia abana a cabeça e semicerra os olhos, claro sinal de agrado, na sua varanda prostrada sobre a Avenida Almirante Reis.

Parto em busca de outra estação na roda rodada das válvulas do rádio Schoub Lorenz. Detenho-me em Estocolmo. Um locutor, embargado pela emoção, de discurso um pouco desconexo, com ritmos impostos pelo que parece ser um esférico de couro. Aumentando a velocidade no aproximar duma qualquer baliza, acalmando para respirar no jogo combativo do meio campo. Olhar reprovador do outro lado da cozinha, junto à janela que quase desagua no Tejo. O futebol sempre foi para a tia o equivalente aos jogos de Coliseu na antiga Roma: servia para distrair a atenção do povo do que realmente interessava. Daí o desprezo pelo jogo, que começou ainda em tempo de Estado Novo.

Rodo rapidamente, evitando um discurso apaixonante sobre a forma como Salazar fazia de marionetas todo um povo recorrendo não a táticas militares e ataques concertados, mas apenas a vinte e dois homens a correr atrás de algo esférico.

Detenho-me em Berlim. Reconheço imediatamente “A Valsa das Flores”. Olho para trás, orgulhosamente, à procura do reconhecimento da tia... E não a vi. Em lado nenhum. Bate a realidade.

Decido então por o som no máximo. As flores dançam neste belíssima obra. E eu espero que, esteja a tia onde estiver, possa ouvir o seu rádio.

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